Os portugueses, a poupança e o investimento: inverter uma trajetória descendente


(Artigo de opinião de Sérgio Pereira, fundador da plataforma gratuita de comparação de produtos de crédito e serviços de telecomunicações ComparaJá.pt)

A taxa de poupança dos portugueses está, há muito, numa trajetória descendente. As implicações para a sociedade civil são várias e já conhecidas por todos na área financeira, o que, no entanto, ainda não despoletou uma reação concertada sobre este tópico de extrema importância. Uma mudança ao nível da comunicação no sector financeiro e do teor educativo da mesma poderá ser uma das soluções para que os portugueses poupem e invistam mais. Mas os agentes do setor têm de ir mais além.

Todos sabemos que a sociedade tem mudado a grande velocidade, tendo isto especiais implicações nas novas gerações: estas demoram mais tempo a sair de casa dos pais, nem sempre têm a criação de uma família como objetivo e preferem experiências em detrimento do consumo de bens.

No meio de tudo isto, a importância da construção de património financeiro tem ficado para trás ao longo do tempo que nos leva à situação que temos hoje perante nós.

Em 1999, a taxa de poupança dos particulares em Portugal foi, em média, de 10,55%. Em 2016 foi, em média, de 4,3%, uma queda de para mais de metade em menos de duas décadas. Relacionando estes números com o baixo salário médio português, deparamo-nos não só com um baixo rácio de poupança, mas também com uma reduzida quantidade de capital disponível para investir.

Mas como podem ser os portugueses convencidos de que a poupança é um fator importante no seu projeto de vida? E como podem ser estas poupanças ser convertidas em algo mais do que os habituais depósitos a prazo, os quais oferecem nos tempos que correm uma muito baixa rendibilidade?

Incentivar os portugueses a investir

Para aliciar os consumidores a investir torna-se importante clarificar os mecanismos de proteção do investidor existentes e as situações em que os mesmos têm funcionado, reforçando a ideia de uma rede de segurança que muitas vezes é desconhecida por parte dos mesmos.

Também a criação de programas de literacia financeira, uma área em que continua a haver muito trabalho por fazer no nosso país, será um caminho incontornável para impulsionar o investimento.

Os mercados financeiros fazem, desde a grande recessão, parte da vida diária de todos os cidadãos através da presença constante nos media, mas terá o conhecimento dos portugueses sobre os mesmos aumentado desde então?

Já sabemos o que são ratings e que a taxa de juro da dívida pública é móvel e pode colocar problemas. Sabemos igualmente que o mercado da dívida pública é hoje algo próximo da sociedade.

Devemos, então, construir sobre estas bases e continuar a educar o público português sobre a importância de poupar e como e em que tipo de soluções aplicar essas poupanças para que, no muito longo prazo, a independência financeira possa ser alcançada por todos.

Se Brent e WTI, Futuros, Total Return Swaps ou CDS se tornassem parte do jargão dos portugueses, não seria tão difícil explicar a importância de uma carteira de investimentos equilibrada e diversificada em diferentes tipos de activos com variados níveis de risco associados.

E é nosso dever levar esta informação ao público e ajudar a aumentar a literacia financeira das famílias.

O elefante azul na sala não deve ser ignorado

As comissões são e continuarão a ser um dos mais importantes critérios de decisão por parte dos consumidores na hora de escolherem os investimentos que irão fazer e é perigoso ignorar os efeitos negativos que uma comissão de gestão anual ou sobre a performance pode provocar num investidor, especialmente em épocas com retornos menos bons.

Também a chegada em massa dos ETFs ao mercado retalhista criou uma maior pressão para que as comissões sejam reduzidas, especialmente em fundos dedicados ao index tracking.

Por último, a introdução das diretivas MIFID II - e a consequente separação dos custos de trading e de research apresentadas pelos bancos às entidades gestoras – será certamente um desafio para o setor. É fundamental, portanto, que se expliquem todas as implicações de forma clara aos consumidores para que estes possam perceber toda a estrutura de custos associada aos seus investimentos. Isto levará, com certeza, ao aumento da compreensão e aceitação daquilo que pagam para poderem investir com o suporte de profissionais qualificados.

Dito isto, e sabendo que o outlook português é positivo e que a economia se está a desenvolver a bom ritmo (não estivesse Portugal a atravessar um momento de “fama” sem precedentes…), podemos estar confiantes de que, com pequenos ajustes, a indústria da poupança e investimento portuguesa poderá estar ligada a esta dinâmica positiva, contribuindo igualmente para o “case study” em que nos estamos a tornar.

Sendo certo que as famílias voltarão a poupar com esta retoma económica, cabe agora às empresas e profissionais do setor saber captar e rentabilizar os euros dos portugueses.

 

 

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