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“Os nossos adversários estão a atingir níveis extraordinários”


Trader na BPI GA há cinco anos, Ricardo Vale considera que, por oposição, no mesmo período, “a gestão de activos tem vindo a melhorar o desempenho”. Em entrevista à Funds People Portugal fala das provas, dos treinos, de como os concilia com o trabalho, e reclama maior divulgação e aposta no desporto paralímpico por parte de empresas, governo e sociedade, para que seja possível melhorar resultados.


Como correram este jogos paralímpicos? Ficou satisfeito com a sua prestação?
Para mim estes Jogos correram bem. Achei que conseguiria uma marca ligeiramente melhor, principalmente nos 5.000m, mas apesar de tudo acho que foi positivo. Os nossos adversários estão a atingir níveis extraordinários. Praticamente todos são profissionais do desporto paralímpico, enquanto que nós em Portugal somos pouco mais do que amadores... Além disso este ano foi muito complicado para mim a nível de lesões.

Que treino faz para participar numa competição como esta?
O treino que faço é diário, quaisquer que sejam as condições climatéricas. Consiste essencialmente em correr 15/16km ou então em fazer um trabalho específico (séries) na pista (duas vezes por semana). Além disto, tenho ainda de fazer exercícios de alongamento e reforço muscular. Isto é fundamental para facilitar a forma de correr, assim como prevenir lesões. Todos os dias despendo cerca de 1h30 a 2h00 com o treino.

Quando começou a correr e a participar em provas?
Comecei a correr quando entrei para a faculdade no ano 2000. Inicialmente pretendia apenas fazer algum desporto porque sempre gostei de actividade física. Fui participando em provas de estrada e pista. Na pista consegui alcançar os mínimos para o Campeonato da Europa, que se realizou na Polónia em 2001, tendo sido a minha primeira internacionalização.

Em quantas provas já participou?
Já participei em muitas provas internacionais. Cinco Campeonatos do Mundo, três Campeonatos da Europa e três edições dos Jogos Paralímpicos (Atenas, Pequim e Londres). A juntar a isto tenho a presença em diversos meetings na Europa e, claro, os Campeonatos Nacionais.

Qual o melhor resultado que obteve?
Em 2006 ganhei a medalha de bronze nos 10.000m no Campeonato do Mundo na Holanda e em 2009 ganhei duas medalhas de prata nos 1.500m e 5.000m no Campeonato Europeu na Grécia. Também ganhei algumas medalhas nos meetings em que participei.

Qual o momento mais marcante desde que está a competir a este nível?
Na minha opinião, o episódio mais marcante foi ter ganho a medalha de bronze em 2006. Foi a minha primeira medalha em Campeonatos do Mundo e fui ao pódio com adversários de topo. Além disso, nesse ano a comunicação social deu-nos um grande acompanhamento, de tal modo que a abertura do noticiário das 20h00 na RTP1 foi feita com a notícia do meu terceiro lugar.

O que faz falta, ou é necessário mudar, em Portugal, para que seja possível ter melhores resultados, mais atletas, nos Jogos?
Julgo que é fundamental haver mais divulgação. A comunicação social deverá ter a responsabilidade de mostrar a todos e, em particular, às pessoas com deficiência que existem outros, com as mesmas dificuldades ou semelhantes, que praticam desporto de alta competição. Evidentemente que necessitamos de adaptações, mas creio que devemos encarar o desporto paralímpico como outro qualquer desporto. O que se está a passar noutros países é isso mesmo.

Há um incentivo forte a este desporto, maior apoio...
Existe uma aposta dos governos, empresas e sociedade, em geral, nos atletas paralímpicos. Para que os atletas se possam dedicar a tempo inteiro é necessário apoio monetário e proporcionar-nos condições de treino a todos os níveis, espaços adequados, acompanhamento médico e de recuperação. Se houver visibilidade as empresas terão vantagens em patrocinar. Se se tentar fazer um trabalho destes, talvez se consiga ter novos atletas e alcançar resultados de excelência. Caso contrário não teremos nada de muito relevante, de certeza. Como já referi os nossos adversários estão muitos anos à nossa frente. Há que notar que esse trabalho demora alguns anos a dar resultado, mas tem de se começar!

Como concilia a actividade desportiva com o trabalho?
O principal para se conseguir conciliar o trabalho e o atletismo é ter muita organização e disciplina. É preciso muito rigor nos horários para que não haja tempo inutilizado. Além disso e, certamente o factor mais importante, há que ter muita vontade. Por vezes estamos cansados do trabalho e ainda é preciso ir correr com frio ou chuva... mas não se pode parar, no dia seguinte poderá haver algo mais grave que seja realmente impeditivo de treinar...

Ainda se lembra como correu a entrevista de emprego?
Sim lembro-me. Correu muito bem, essa é a razão pela qual cá estou. Na altura já tinha feito muitas entrevistas de emprego e tinham terminado todas mais ou menos da mesma forma. As entrevistas até corriam bem, assim como os testes mas depois quando se tratava de fazer de facto a escolha final entre os candidatos optavam por alguém sem deficiência. Não estavam dispostos a correr o risco...
 

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