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Os investimentos e a tecnologia disruptiva


De que forma está a tecnologia a ter impacto nos modelos de negócio das empresas e como é que isso altera a forma de um analista olhar para uma empresa?

RadhikaA tecnologia de informação tem vindo a tornar-se cada vez mais integrada nas vidas pessoais e profissionais. Os smartphones e os dispositivos ligados à Internet são agora omnipresentes, e o desenvolvimento da Internet das Coisas (Internet of Things, IoT) promete revolucionar o mundo da tecnologia de informação com níveis muito superiores de sofisticação. A IoT significa que toda uma série de dispositivos relativamente pouco sofisticados pode ter capacidades bastante inteligentes – desde os termostatos que detetam as temperaturas corretas para ativação e que registam o consumo de energia, até aos sensores da fábrica que são capazes de armazenar a analisar dados para utilização em unidades de produção automáticas.  Até o vestuário pode apresentar capacidades “inteligentes”, com a Alphabet e a Levi’s a trabalharem em conjunto para produzir roupas com aptidões tecnológicas. Em breve poderemos ser capazes de ativar dispositivos eletrónicos como telemóveis ou softwares de música, apenas tocando numa manga da camisa. A tecnologia tem vindo a ser integrada em áreas completamente novas de negócios e de desenvolvimento humano.

Em grande parte, isto resulta do crescimento exponencial no poder de processamento. Uma CPU de um iPhone 6 possui 625 vezes mais poder de processamento do que um Disco Rígido Pentium de 1995, e mesmo os smartphones de nível de entrada (abaixo dos 50 dólares) possuem recursos que são muitas vezes superiores ao de um PC de primeira linha há duas décadas. Com isto, o desenvolvimento da computação na cloud permite às empresas uma maior flexibilidade operacional, com a capacidade aumentar e diminuir facilmente a escala da capacidade TI, quando comparando com servidores físicos centralizados e antigos. A nuvem também permite uma flexibilidade de pagamentos muito maior: as empresas podem pagar as-they-go por capacidade de servidor, pagando apenas o que realmente é utilizado. E a combinação do poder de computação e armazenamentos baratos, está a alimentar o desenvolvimento da Inteligência Artifical (IA). À medida que os algoritmos de inteligência artificial aprendem com os resultados interativos, tornam-se mais inteligentes, com um maior potencial de aprendizagem numa variedade de negócios. Tudo isso está a levar a grandes disrupções nas indústrias. A UBER e o AirBnB teriam sido apenas um software de gestão de táxis e de inventário de hotéis, mas a combinação da tecnologia móvel, da infraestrutura na cloud, da Inteligência Artificial e (obviamente) do financiamento barato, têm marcado o ambiente do mercado pós-crise financeira. Nas finanças, o big data é cada vez mais utilizado na gestão dos fundos, enquanto os roboadvisors podem oferecer todo o tipo de planeamento financeiro personalizado que não seria viável para todos, exceto para os clientes mais ricos.

Relativamente à forma como os analistas olham para as empresas, estes desenvolvimentos estão a encorajar uma colaboração entre os setores. Os analistas de todos os setores precisam de estar conscientes de como a tecnologia está a ter um grande impacto nos negócios, bem como de quais poderão ser os vencedores e os perdedores. Esta integração é vantajosa para a Fidelity como casa de research, considerando que analistas que trabalham em diferentes setores, estão cada vez mais a partilhar pesquisas e ideias, resultando em sinergias de research significativas. A tecnologia está a fazer incursões em cadeias de valor que até então estavam intactas, o que significa um aumento das oportunidades de investimento.

Quais são os principais setores que estão a ser afetados e a passar por mudanças mais rápidas?

Todos os setores estão a ser afetados, mas as indústrias de consumo são uma área em que a disrupção tecnológica é particularmente forte. Quando consideramos o enterprise value de empresas relativamente recentes como a Amazon, Netflix e Alibaba, com o valor de empresa concorrentes, muitas vezes com mais de uma década de existência, fica evidente  que as coisas nestas áreas estão a mudar rapidamente. A Amazon é uma ótima demonstração de uma empresa com fronteiras muito mal definidas entre sectores, dada a sua presença como retalhista eletrónico – bem como operadora de livrarias reais, agora -, como fornecedora líder de infraestruturas de tecnologias de informação, como projeto media, e recentemente como retalhista alimentar, com a sua oferta de aquisição à Whole Foods. Dentro do espaço do consumidor, os media são um importante centro de disrupção, com players bem estabelecidos, bem como novos participantes a despender dinheiro em conteúdo para capturar a lealdade de públicos-alvo. O Netflix passou de uma simples empresa de aluguer, há uma década, para um dos maiores produtores de conteúdos originais atualmente.

No setor industrial, a tecnologia está a alimentar novas técnicas de produção – muitas vezes referida como “Revolução Industrial 4.0” (IR 4.0). Isto marca a era das fábricas conectadas, com o uso crescente de robôs e máquinas ligadas através da Internet das Coisas. A Inteligência Artificial (AI) é usada na manutenção, no monitoramento e no design, bem como em processos de design automático. Estes desenvolvimentos são incentivados pelo aumento dos salários, pelo envelhecimento populacional e pela pressão sobre as empresas para aumentar a produtividade de forma a proteger as margens de lucro. O custo decrescente da produção de robôs é um incentivo adicional. O uso combinado destas e de outras novas tecnologias, está a tornar as empresas industriais mais eficientes e lucrativas. A fábrica inteligente da Siemens é um bom exemplo do IR 4.0, com produção “data driven” que oferece uma produção mais eficiente e flexível, maior velocidade, rastreamento de inventário em tempo real e manutenção preditiva. Também possui menores taxas de defeitos de produtos.

Na saúde, os avanços na ciência que têm sustentado o bull market nesse setor de mercado a longo prazo não mudaram. Estamos perante uma grande onda de inovação na saúde. Os avanços no mapeamento dos genes e na medicina personalizada prometem uma variedade de novos tratamentos, enquanto a imunologia passou de ser relativamente desconhecida apenas há alguns anos atrás, para ser uma importante área de pesquisa, com novos medicamentos revolucionários para o cancro a chegarem ao mercado. Os pipelines das empresas farmacêuticas estão bastante preenchidos e as aprovações regulatórias atingiram máximos absolutos. O setor também continuará a ser apoiado por tendência estruturais de longo prazo, incluindo o envelhecimento global e o aumento de doenças crónicas devido a mudanças nos estilos de vida. Semelhante aos aumentos exponenciais do poder de processamento de dados mencionados anteriormente, essa inovação é, em grande parte, alimentada pelo cada vez menor custo do sequenciamento do genoma. De um custo de cerca de cem milhões de dólares para sequenciar o primeiro genoma no final dos anos 90/2000, agora estamos reduzidos a um custo de sequência, por genoma, de pouco mais de mil dólares. À medida que o custo decresceu, a análise do genoma aumentou. Isso poderia revolucionar o tratamento do cancro em particular, com melhor conhecimento da doença, levando ao diagnóstico e tratamento antecipados.

Como resultado da crescente dependência da tecnologia da informação em todas as indústrias, o próprio setor da tecnologia está a tornar-se uma proposta de investimento muito mais estrutural. Agora é muito mais global na natureza, e menos centrado nos Estados Unidos. Está cada vez mais diversificado em termos dos tipos de tecnologia disponíveis para investimento. Também é uma proposta de investimento muito menos cíclica do que era há 10 ou 20 anos, com software e serviços associados - que beneficiam de fluxos de receitas consistentes e recorrentes - assumindo uma parcela cada vez maior do mercado, em relação a hardware mais cíclico e empresas de equipamento. O setor deve ser considerado mais como um componente de carteira de longo prazo, ao contrário da escolha de alocação de ativos que muitos investidores, até agora, consideraram.

Que novas tecnologias devem estar no radar dos investidores nos próximos anos?

É provável que vejamos novas tecnologias como a realidade virtual aumentada, a inteligência artificial e os carros autónomos a destacarem-se nos próximos anos. Adicionando a isso a Internet das Coisas, a impressão 3D, a Revolução Industrial 4.0 e a revolução genómica nos cuidados de saúde. Certos desenvolvimentos em tecnologia financeira ("fintech"), como roboadvisors e sistemas de pagamento alternativos, também precisam de ser monitorizados de perto, embora este aspeto de disrupção tenha sido exagerado um pouco nos últimos anos.

Acha que existe um crescente apetite pelo investimento em modelos de negócio disruptivos?

Num momento em que o crescimento económico em muitos mercados é difícil de encontrar, com as conversas de reflação e estímulos fiscais a abrandarem, os investidores ainda estão, de modo geral, a favorecer as estratégias orientadas para o crescimento. Mais recentemente, têm vindo a favorecer as empresas com um histórico comprovado de inovações disruptivas, como alguns nomes mega cap dos EUA como o Facebook, Amazon, Apple, Alphabet e Microsoft. Mas uma coisa é falar sobre investir em disrupção, e outra é fazê-lo com sucesso. O último é dependente de uma pesquisa de elevada qualidade, que por sua vez é dependente de uma ampla cobertura de regiões e setores, da cadeia de valor tecnológica e da partilha de informações em todos os setores num momento de convergência setorial. Reuniões com representantes da empresa, pessoalmente, também são importantes. Além disso, os vencedores disruptivos de hoje estão longe ser garantidamente os vencedores do futuro. Portanto, o apetite dos investidores por este tema pode estar a crescer, mas uma análise e pesquisa cuidada são necessárias para o sucesso do investimento a longo prazo em empresas bem sucedidas na inovação e disrupção.

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