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Operação reciclagem de produto: o novo fenómeno que está a acontecer na indústria da gestão de ativos


A oferta de fundos sustentáveis é cada vez mais vasta. O número de produtos tanto de gestão ativa como passiva não para de crescer dada a determinação das gestoras em posicionarem-se num nicho de mercado onde estão a detetar um crescente interesse por parte dos investidores. Na primeira metade do ano as entradas líquidas em fundos ESG atingiram os 37.000 milhões de euros, praticamente o mesmo que foi registado em todo o ano passado. A maior parte do dinheiro está a ser canalizado através de estratégias de gestão ativa, ainda que a quota dos ETF e fundos indexados ESG, no que diz respeito às entradas líquidas, não pare de crescer ano após ano. Atualmente ronda os 25%.

As gestoras viram nesta tendência um filão. No fecho de junho, existiam 2.232 fundos registados na Europa que, pelo folheto, seguiam critérios do meio ambiente, sociais e de bom governo no seu processo de seleção de ativos, estavas ligados a uma temática relacionada com a sustentabilidade ou procuravam, além do retorno financeiro, um impacto positivo mensurável. O lançamento de novas estratégias acelerou nos últimos anos. Segundo dados da Morningstar, na primeira metade do ano foram criados 168 produtos novos com formato ESG, dos quais 142 foram de gestão ativa e 26 de gestão passiva. A manter-se este ritmo no segundo semestre, 2019 ficará para a história como um ano record.

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Não obstante, além desta operação de lançamento de novos fundos está a acontecer outro fenómeno muito interessante na indústria de gestão de ativos, muito vinculado ao âmbito ESG: a reciclagem de produtos. “Não se fala o suficiente da reciclagem na indústria. Calculamos que todos os anos entre 4% e 5% dos fundos mudam de nome. Muitos produtos ganham novos nomes como consequência de uma operação corporativa. Pensemos na Aberdeen Standard Investments, por exemplo, cujos fundos se adaptaram à nova marca. No entanto, existem muitos outros casos que se tornam numa estratégia nova. Muitas dessas mudanças têm a ver com o ISR”, referem Chris Chancellor, diretor senior de Global Insights na Broadridge e Lynn Pattinson, editora senior para EMEA na entidade.

Neste sentido, muitas gestoras estão a optar por modificar mandatos para situar o foco principal das estratégias em ESG, refletindo esta transformação ao darem um novo nome aos fundos de investimento. Neste sentido, as entidades foram especialmente ativas em 2018, ano record em ações deste género.

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Em 2019 o processo de revisão de prospectos e mudanças de nome continua. A última a fazê-lo foi a BNP Paribas AM, que anunciou a integração sistemática de critérios ESG em todas as suas estratégias, com o objetivo de que a sua gama estrela de fundos seja 100% sustentável. Estas mudanças no prospeto nem sempre ficam bem claras. “A linguagem utilizada nem sempre é clara e, em alguns casos, torna-se difícil distinguir entre um fundo que segue a filosofia ESG de um produto tradicional. Muitos começaram a agregar informação aos seus folhetos sobre como implementam os critérios ESG, geralmente com uma frase curta que indica que são facilmente incorporados formalmente como parte do processo de investimento. Seria um exagero chamar a estes produtos fundos puramente sustentáveis”, alertam na Morningstar.

Mas... o que ganha a entidade com a mudança? Segundo referem na empresa de análise, “a conversão de fundos numa oferta sustentável é uma forma de as gestoras aproveitarem os ativos existentes para construir o seu negócio de produtos sustentáveis, evitando assim ter que a criar do zero, e permitindo acelerar o tempo requerido para alcançar a escala. Também pode ser uma forma de as entidades revitalizarem fundos em dificuldades, que lutam para atrair novos fluxos”.

Tal como indicavam, mudar o nome de um fundo aumenta a visibilidade dos esforços de sustentabilidade de uma gestora. Não obstante, também se deve ter em conta que podem haver entidades que tenham mudado o nome dos seus fundos sem realizar mudanças significativas no seu processo de investimento ou carteiras. “Isto pode dever-se a que o fundo já tenha um foco ESG e a entidade simplesmente queira ressaltá-lo. Noutros casos, o gestor pode ter agregado um simples filtro de exclusão à estratégia que geria”.

Quanto às palavras mais repetidas no momento de relembrar um fundo, não há surpresas. Os casos mais recentes exemplificam-no muito bem. A estratégia das entidades passa por acrescentar aos nomes dos produtos termos anglo-saxónicos como ESG, Sustainable, SRI, Green ou Responsible. O objetivo é claro: ressaltar o seu compromisso com o cumprimento dos critérios de investimento responsável.

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Com tudo isto, não nos podemos esquecer que o desafio é que os investidores esperam que um fundo modificado faça o mesmo que um novo lançamento. “Ao fim e ao cabo não há motivos para que não seja assim. Mas a realidade é que não é assim. Por agora só podemos especular os motivos. Talvez seja porque uma mudança de estratégia não tem tanta emoção como um lançamento novo. Não gera a mesma energia dentro das próprias equipas de vendas e marketing das gestoras e, não obstante, a reconversão de fundos é um mecanismo que faz sentido. É um método mais barato e mais eficiente”, concluem Chancellor e Pattinson.

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