Onde se investiu em contexto de COVID-19?


Como se movimentaram os clientes perante o comportamento dos mercados? Onde se encontraram mais Annotation_2020-05-21_103017oportunidades? Como se comportaram os fundos alternativos perante a volatilidade? Num encontro digital promovido pela AllianceBernstein, Miguel Luzarraga, da entidade gestora norte-americana, Inês Correia Oliveira, da DWM do Millennium bcp, Elisabete Pinto Pereira do departamento de Desenvolvimento e Marketing de Retalho do Novo Banco e João Pina Gomes, da equipa de produtos de investimento do ABANCA, expuseram as respetivas experiências sobre a alocação das carteiras, comportamento dos investidores e acerca do papel das abordagens de investimento alternativas nesta conjuntura.

João Pina Gomes_ABANCANo auge da crise, curiosamente, onde no ABANCA viram maiores fluxos de saída foi de estratégias tipicamente mais conservadoras, nomeadamente de obrigações. Porquê? “Porque o mercado de obrigações e particularmente alguns segmentos desse mercado são vistos pelos investidores como safe havens. Numa altura em que a liquidez secou completamente e vimos oscilações relativamente grandes nos NAVs dos fundos, os clientes mais conservadores ficaram um pouco desiludidos e isso resultou em maiores resgates em comparação com outras classes de ativos”. Já no que aos fluxos positivos diz respeito, João Pina Gomes tem visto um maior interesse por parte de fundos de ações, nomeadamente do setor tecnológico e de saúde. “Por um lado, são setores que se estão a comportar muito bem, mas também são aqueles que mostram um maior potencial nesta conjuntura”, explica.

Elisabete Pereira Novo BancoElisabete Pinto Pereira descreve uma experiência semelhante. “Muita preocupação perante o comportamento dos fundos de obrigações, detidos pelos investidores como investimentos de menor risco, o que da nossa parte obrigou a uma grande disciplina e muitos esclarecimentos em proximidade com a rede comercial. Na mesma linha, vimos uma grande procura por investimentos temáticos ligados ao setor farmacêutico e tecnológico, mas também muito interesse, via ETF, em ouro, numa lógica de ativo refúgio, e no petróleo, numa abordagem oportunista e tática para entrar no ativo num período que se pautou por um comportamento sem precedentes. Mais uma vez tivemos que fazer o nosso papel e alertar para a necessidade de manter a diversificação nas carteiras como forma de diluir o risco”,

Na DWM do Millennium bcp, os ajustamentos feitos foram relativamente marginais. Aliás, coerente com a abordagem de investimento da casa onde, como descreve Inês Correia Oliveira, “não é a seguir à tempestade que se vai mudar a estrutura do barco”. “Não vimos pânico por parte dos nossos clientes. Foi tudo tão rápido que as pessoas não tiveram tempo de reagir. Do ponto de vista da alocação, aproveitámos os movimentos de mercado para reduzir um pouco o nosso underweight em obrigações. Isto porque tanto no segmento high yield como investment grade os spreads aumentaram muito e abriu-se uma janela de oportunidade para reduzir um pouco a subponderação a obrigações nos perfis mais conservadores e reduzir o risco ativo das carteiras”, esclarece. A equipa tem também aproveitado para diversificar a exposição setorial. “Não só no setor da tecnologia como do ouro.. Relativamente ao sector tecnológico, achamos, que independentemente de estar caro ou barato é um setor que vai continuar em crescimento no  futuro”, explica Inês Correia Oliveira.

Já no que se refere à perspetiva da AllianceBernstein, na voz do responsável pelo mercado português, os movimentos foram em tudo semelhantes à experiência nacional. “Vimos uma redução da alocação dos clientes a fundos de obrigações em favor de fundos mais temáticos e setoriais. O nosso fundo de ações do setor de healthcare foi um dos fundos vencedores nesta ocasião, e o de ações tecnológicas o segundo que maior recetividade teve dos clientes ibéricos. No geral assistimos a maiores flows para ações do que obrigações, e dentro desta última classe de ativos, uma redução do risco, em termos de duração, mas uma predominância do high yield em desfavor do investment grade”, conta Miguel Luzarraga. No entanto, o profissional comenta também algo que o surpreendeu. “Fico surpreendido por o tema da sustentabilidade e ESG não ser um tema reforçado pelos investidores portugueses. Do nosso lado temos estado a fazer mais e mais neste sentido e vimos inflows ibéricos muito interessantes em abril”.

Fundos alternativos?

Curioso é também saber o feedback deste conjunto de profissionais de investimento acerca do papel dos fundos alternativos numa altura em que estes mais deveriam provar o seu valor. E neste sentido, Inês Correia Oliveira é bastante assertiva nINES_CORREIRA_OLIVEIRA_MILLENNIUM_BCP_os seus comentários. “O argumento dos alternativos é que são aquela classe de ativos mais descorrelacionada e que protege as carteiras na queda, mas, na prática, nestas crises acabam por funcionar mal, nomeadamente as estratégias de Long/Short Equities. Temos visto as estratégias CTA/Momentum a funcionarem bem. Sendo estratégias de momentum acabaram por capturar os movimentos mais acentuados, nomeadamente na queda. Continuamos a utilizá-las como parte de uma alocação diversificada e descorrelacionada com as outras classes de ativos”.

Segundo Elisabete Pinto Pereira, no Novo Banco a oferta de alternativos é limitada e tiveram pelo menos uma boa experiência neste contexto. “Um dos fundos que disponibilizamos, com uma abordagem macro, teve um comportamento ótimo e efetivamente descorrelacionou face à restante oferta. Mas o interesse dos nossos clientes mantém-se focado nos segmentos mais tradicionais, nomeadamente nos fundos multiativos, pela sua diversificação em si próprios, além do renovado interesse pelos temáticos”.

A experiência de João Pina Gomes no ABANCA é semelhante e os fundos multiativos e de obrigações globais com distribuição regular de rendimentos é o que centra o investimento dos clientes. No segmento alternativo, no entanto, “a procura sempre existiu, mas é um mercado nicho”. “Sempre fizemos um esforço por disponibilizar fundos multistrategy ou multimanager, no sentido de introduzir diversificação dentro dos próprios fundos. Já o sucesso destas estratégias foi moderado, tanto ao nível da performance como ao nível comercial”.

medium_Miguel_Luza_rragaPara Miguel Luzarraga, a filosofia da casa de investimentos que representa é baseada na simplicidade e transparência. “Quando acontece um evento como este tudo tende a correlacionar-se e fica mais difícil explicar o comportamento de fundos alternativos. Os clientes pagam-nos por gerir e selecionar ações e obrigações, não para complexificar. Tentamos que as nossas carteiras sejam o mais simples e transparentes possível”.

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