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Observações sobre os mercados emergentes


O universo de mercados emergentes é extremamente diverso. Catalogados dentro desta mesma categoria encontramos países cujos ciclos económicos não estão, de todo, relacionados e cujos mercados estão expostos a uma grande diversidade de fatores. Contudo, apesar da diversidade, 2015 trouxe consigo o início de um período menos positivo para o conjunto dos emergentes. Nesse período, os receios entre os investidores chegaram a um ponto em que estes se afastaram de tal modo da classe de ativos que esta se caraterizava como “underowned, underloved and underbought”. A expressão em inglês foi utilizada por Joaquim Nogueira, gestor do GAM Emerging Markets Equity Fund, que embora português, tem construído o seu percurso profissional em Londres, gerindo ações emergentes na GAM. Atingidos os mínimos do mercado, deu-se então uma recuperação que o gestor apelida como técnica, resultado de uma sub-exposição agressiva à classe de ativos. “Os mercados estavam sobrevendidos e os investidores começaram a olhar novamente para os ativos e a encontrar valor. Começaram a comprar num ambiente de baixa liquidez, o que fez com que as ações e as moedas subissem bastante num curto período de tempo”, descreve Joaquim Nogueira. Desde então, os mercados começaram a sentir os efeitos positivos de terem estado em contraciclo face aos países desenvolvidos. “Enquanto estes desceram as taxas de juro para níveis nulos e começaram a imprimir dinheiro, os emergentes viviam com o problema da inflação. No entanto, recentemente, vimos várias destas economias a controlar a subida dos preços e a começar a descer as taxas de juro, o que se refletiu na confiança económica e nos resultados das empresas”, descreve.

Desde então vimos os mercados emergentes a liderarem as tabelas dos retornos, “até há cerca de 4 meses, quando se deram as primeiras reações à guerra comercial, à subida das taxas de juro e ao final do quantative easing. Os emergentes caíram cerca de 20% e nós sentimos claramente que nos foi oferecida uma nova oportunidade para comprar estes ativos”, atesta o especialista da GAM.

Caso a Caso:

Rússia – Sanções e petróleo

Para Joaquim Nogueira, o grande risco em que os investidores se têm focado na Rússia têm sido as sanções internacionais. No entanto, o profissional considera que estas se têm revelado absolutamente inócuas. “Não existe vontade do Ocidente causar danos à Rússia. As sanções são postas em prática para causar ruído, dirigidas a certos oligarcas ou a uma ou duas empresas, especificamente. No entanto, vimos as ações de um banco como o Sberbank a cair 30%. Porquê? Falamos de um banco com um negócio sobretudo doméstico, orientado para a concessão de crédito, pessoal ou de habitação, com ativos de qualidade no balanço, um return on equity elevado e a subir... de que forma é que isto é impactado pelas sanções impostas? Não é. Deu-se uma reação muito viva em virtude da percepção de risco, mas isso não impacta o valor intrínseco do ativo. A Rússia é um país muito dependente do preço do petróleo, isso sim. E enquanto o barril estiver a cotar acima dos 60 dólares a Rússia vive uma situação orçamental muito positiva, o que é bom para a economia e para as empresas.”

Brasil – Uma boa fase do ciclo

O Brasil é, para Joaquim Nogueira, também um caso muito particular. “É uma economia muito fechada e com problemas crónicos muito sérios. O protecionismo elevado que a caracteriza levou à criação de uma série de empresas em indústrias em que o país não é competitivo, como na indústria do aço ou na produção automóvel. Mas hoje em dia o país consome 90% do que produz e apenas exporta o restante, que se limita quase praticamente aos aviões da Embraer e algumas commodities”, introduz o especialista. Joaquim Nogueira dá destaque a problemas como a falta de infraestruturas, altos preços da eletricidade e instabilidade política. Contudo, o país “sempre teve o seu ciclo económico apesar de todos estes problemas”, comenta o profissional.

Segundo o gestor de ações de emergentes da GAM, o Brasil apresenta um ciclo com um comportamento muito dependente do seu próprio nível de confiança do investimento e do consumo. “O país enfrentou uma recessão económica e um período inflacionista com as taxas a subir. Agora está numa fase oposta. As taxas de juro descem e a confiança está a regressar, o que se nota nos encontros que temos com as empresas brasileiras. Os número voltam a ser animadores, pelo que diria que o Brasil está numa boa fase do ciclo”, vaticina.

China -  Valuation atrativa

A possibilidade de um ‘credit crunch’ e um ‘hard landing’ na China têm sido dos factores de risco mais realçados pelos media e pela comunidade de investimento. “Estas ideias nunca se materializaram e provavelmente nunca se irão materializar, por uma razão muito simples: o governo controla a informação. Quando se deu o crash das ações A o governo limitou-se a ligar aos corretores e exigir que estes comprassem no mercado. E fizeram-no. Para haver uma crise de crédito é preciso que se verifique o fenómeno de estar ‘toda a gente a correr para a porta ao mesmo tempo’, o que o governo chinês claramente não permitiria”, explica. Por outro lado, são conhecidos os problemas que enfrentam os bancos do país, mas estes “têm estado claramente a ser ‘silenciosamente’ resolvidos. É um país com imensas reservas de divisas estrangeiras e isso é uma arma muito poderosa contra qualquer problema económico que possa surgir”.

Já no que concerne a uma guerra comercial com os EUA Joaquim Nogueira destaca uma evidência. “Deu-se uma mudança fundamental na China nos últimos anos. Antes falava-se do consumidor chinês como um consumidor com baixo poder de compra. Mas nos últimos anos o consumo interno em percentagem do PIB aumentou de 18% para 77%. Uma variação absolutamente impressionante que significa que a China já não é a economia exportadora que era no passado, mas sim uma economia de consumo. E isso vê-se no índice. Algumas grandes empresas cotadas do índice chinês, como a Tencent, Alibaba e grandes bancos, são todas domésticas. Obviamente uma guerra comercial poderá prejudicar a economia do país, mas não de uma forma agressiva. Independentemente disso, as ações desceram bastante e atingiram níveis de valuation atrativos”, destaca.

Turquia – Abordagem pragmática

“A Turquia tem um problema político, mas este foi parcialmente resolvido com estas últimas eleições. O Erdogan surge destas eleições com poderes reforçados e está, portanto, a salvo. Pelo menos durante mais cinco anos. Ele é, de facto, corrupto e têm havido muitas ‘guerras’ internas, mas a situação económica está a estabilizar no país. Vemos uma quebra do consumo interno, a lira está baixa e o défice comercial é grande. Mas não são problemas novos. São problemas que a Turquia enfrentou em escalas bem maiores no passado”, descreve o especialista.

Por outro lado, Joaquim Nogueira fala da crença generalizada que que Erdogan tem, como parte da sua agenda política, a intenção de transformar a Turquia numa república islâmica. “E de facto isso teria as suas desvantagens, mas temos que ser pragmáticos na análise do impacto que isso teria nas empresas. A Turquia é certamente o mercado mais barato de todos. Há um limite para o que estes ativos podem descer e com este momento de estabilidade, o país poderá enfrentar alguma recuperação na confiança do investimento e do consumo”, comenta.

México – Governo populista benigno

“O México é uma incógnita!”. Assim afirma Joaquim Nogueira quando introduz o tema. “Ninguém sabe exatamente o que Obrador vai ser. Será mais como uma Cristina Kirchner? Ou como um Lula em princípios de mandato, sedento de poder? A verdade é que Obrador não atingiria o número de votos que atingiu se não trouxesse para o seu lado muitos dos moderados e o discurso após as eleições foi muito conciliador. Afirmou inclusive que a disciplina orçamental é uma das prioridades e que a independência do banco central é inviolável”, comenta o especialista acrescentando que tudo indica que este venha a ser um “governo populista benigno, ao contrário do que foi o de Kirchner, Chavez ou Maduro”.

O profissional está convicto que muitos dos riscos estão já refletidos no preço, incluindo a relação com os EUA. “O México tem uma economia muito aberta aos EUA. Apesar de toda a retórica de Trump, não estou a ver este a interferir com as remessas de mexicanos para o país. Adicionalmente, não imagino que as empresas americanas deixem de focar na eficiência, no valor e no lucro e mudem as unidades industriais para os EUA. Há muito ruído, mas nada disto deverá acontecer em grande escala”.

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