O Vírus do Sistema


Quando tentamos enquadrar o recente comportamento desastroso dos mercados financeiros nos  últimos dias, com quedas do índice bolsista MSCI World superiores a 10%, temos de entender que existem sempre dimensões nos mercados financeiros que nem sempre se conseguem racionalizar. Mas acima de tudo, não se ganha nada em deixar-nos contagiar por uma bolha de pessimismo, nem tão pouco ficarmos impacientes, porque no tempo certo a razão sempre prevalece.

A propagação do vírus covid-19 a outras regiões para além da China, é sem dúvida uma justificação útil para explicar as descidas, mas não é suficiente para justificar a magnitude das mesmas. É certo que o impacto económico é mais pronunciado do que se antecipava se a situação ficasse confinada à China, porque os efeitos passaram a ser transversais a muitas indústrias e a muitos serviços. Mas também é certo que todos sabemos que estes efeitos estão confinados no tempo, e por isso, não são estruturais, são apenas temporários.

Nos últimos dois anos, tivemos duas correções de magnitudes semelhantes que detinham razões por detrás muito mais estruturantes e preocupantes. Em fevereiro 2018 aqueciam de forma estruturante as tensões comerciais, que tiveram (e continuam a ter) uma influência negativa na atividade económica global, mas os dados económicos apontavam para que a FED começasse a subir as taxas de juro.

No final do mesmo ano, assistimos a mais  uma forte correção provocada por uma FED impaciente, que perigosamente se enfeitiçou com os riscos inflacionistas, ignorando o estruturante e permanente vírus do sistema, o excessivo endividamento.

O Covid-19 não tem nada de estruturante, como prova a lenta, mas gradual retoma à normalidade da atividade económica na China, que no final deste mês de março já deve ser pautada por um importante grau de normalização, após uma paragem de quase dois terços da atividade.

Um choque exógeno e temporário desta natureza, só vai ter implicações estruturais na economia se os governos e os Bancos Centrais o negligenciarem... De facto, não se trata simplesmente da preocupação de controlar esta “gripe” (justiça feita à capacidade de resposta da Organização Mundial de Saúde e à cooperação dos governos), mas de se evitar que os efeitos financeiros de uma paragem temporária da atividade, possam provocar uma mutação perigosa do vírus do endividamento. Na realidade, o verdadeiro vírus do sistema é o excessivo endividamento da economia global, que equivale a 322% do PIB Mundial no 3º trimestre de 2019, segundo o International Institute of Finance.

Este vírus do sistema, encontra-se disperso por todas as economias mais importantes do planeta, mas a diversidade dos vasos comunicantes tornam o ritmo de propagação fulminante. Ao ponto que, um simples problema financeiro numa determinada economia ou num particular setor de atividade, pode facilmente se tornar num grave problema para a economia global.

Mas nesta matéria e a julgar pelo compromisso que os governos e os Bancos Centrais têm demonstrado, não nos parece que esse risco esteja a ser negligenciado, antes pelo contrário.

O atual nível de taxas de juro devolve uma capacidade ímpar aos governos para estimularem a economia e contrabalançarem os efeitos perversos deste choque temporária a nível global. Em contrapartida, os Bancos Centrais prosseguem com a sua política monetária vincadamente assimétrica, sempre cientes dos riscos e focados em garantir que não ocorra uma mutação do vírus do sistema.

É muito provável que daqui a pouco tempo, muitos de nós iremos enquadrar esta correção dos mercados financeiros, como mais uma que rapidamente foi digerida e ultrapassada pelo sistema. No entanto, não nos podemos esquecer que enquanto não procurarmos afrontar decididamente este vírus do sistema, estes episódios vão continuar a suceder.

Os governos e os Bancos Centrais, têm de ter consciência que o maior risco que enfrentamos é quando se esgotarem, ou deixarem de funcionar, os antídotos para combater o excesso de endividamento do sistema.

Mas para já, não é  este o caso!

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