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O Sr. Draghi cumpriu. E agora, o que poderá ou não acontecer?


O tão aguardado e atrasado (4 ou 5 anos se tivermos em conta o que o FED fez) quantitative easing (QE) europeu foi anunciado na semana passada e vai vigorar entre Março de 2015 e Setembro de 2016, o que se traduzirá no aumento do balanço do BCE em 1,14 triliões de euros (60 mil milhões de euros mensais num período de 19 meses). É uma decisão histórica para a Europa.

Se compararmos com o primeiro QE do FED, podemos considerar que o QE do BCE não fica atrás. A questão crucial é sabermos se vai chegar? Pessoalmente, acho que não. O FED realizou 3 QE’s e só há poucos meses é que a economia americana conheceu o vigor de antes da crise. Provavelmente, o PIB americano irá crescer acima dos 3% em 2015.

Outra questão que os críticos do QE apontam é o verdadeiro impacto na economia. Já nos EUA ocorreu esta discussão. Na minha opinião, os efeitos visíveis do QE europeu vão ser os seguintes: desvalorização do euro que se sente há meses e que deverá continuar, pelo menos até à paridade e continuação da redução de spreads na dívida periférica face à Alemanha (processo que se iniciou em Junho de 2012).

O efeito que eu considero para já menos visível e onde tenho mais dúvidas de sucesso é a melhoria rápida das condições de financiamento das empresas e a recuperação rápida do investimento.

O facto de o BCE começar a comprar dívida (pública e privada) aos bancos não garante por si só que uma grande parte dessa liquidez chegue à economia.

Falando concretamente de Portugal, nós temos um sistema bancário que ainda vive dificuldades, que continua a desalavancar (em 2014 o crédito continuou a reduzir-se em termos homólogos face ao ano anterior) e o crédito mal parado continua a aumentar.

Para que os bancos “transfiram” a liquidez que vão receber da venda de títulos de dívida ao BCE, é necessário que as empresas demonstrem ter capacidade para apresentar projetos de investimento com uma boa relação risco / retorno.

Há gente neste país que acha que vamos ter mais um PEDIP (pacote de fundos estruturais quando o país entrou na CEE em 1986). Estão redondamente enganados. Os bancos não vão nem podem voltar à situação do crédito fácil e descontrolado que ocorreu antes da crise financeira e que os levou a terem rácios de transformação de crédito / depósitos de 150% ou mais. O crédito está barato, porque as taxas de juro estão em níveis historicamente baixas mas o rigor na sua concessão por parte dos bancos tem que continuar, sob pena de voltarmos à situação antes da crise. Por isso, bons projetos precisam-se!

A desvalorização do euro tem duas vantagens: aumenta a competitividade europeia e diminui a probabilidade do cenário de deflação. Contudo, é necessário não esquecer que o petróleo (brent) veio em meia dúzia de meses de 115 USD por barril para menos de 50 USD e os efeitos vão continuar a verificar-se nas economias nos próximos meses.

E ainda temos a Grécia! Como vão decorrer as negociações com o BCE / CE / FMI relativamente à renegociação da dívida pública grega? Qual a instabilidade que o processo poderá provocar na economia europeia e especialmente nas economias periféricas?

Este é um tema que deve merecer toda a nossa atenção nos próximos meses.

(Imagem: BCE, Flickr, Creative Commons)