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O renovado interesse pelas obrigações: para onde está a ir o dinheiro?


2019 está a ser o ano das obrigações. Os fluxos não deixam margem para dúvidas. O interesse por esta classe de ativos voltou a surgir devido, fundamentalmente, à mudança de rumo da política monetária por parte dos bancos centrais. “Há um ano dizíamos que a Reserva Federal aplicaria duas subidas nas taxas de juro e que o BCE começaria a normalizar a sua política monetária. Hoje estamos exatamente no extremo oposto, com a autoridade monetária americana a baixar as taxas e a europeia a voltar a uma política acomodatícia”, recorda Lucía Gutiérrez-Mellado, diretora de Estratégia da J.P.Morgan AM para Portugal e Espanha. No caso dos Estados Unidos, alguns especialistas consideram que esta mudança podia dever-se graças a um erro de cálculo da Fed.

Assim acredita, por exemplo, David Page, responsável de Análise Macro na AXA IM, que considera que Jerome Powell endureceu a política monetária mais do que era a sua intenção, o que gerou um défice de liquidez nas reservas bancárias que ocasionou problemas nos mercados de repos. Page situa o excesso de endurecimento da Fed numa faixa de 35 a 55 pontos base, o que obrigará agora o banco central a reconstruir uma almofada de liquidez num montante de 200 000 a 300 000 milhões de dólares. Isto leva-o a pensar que a Fed baixará as taxas para 1,25%-1,5% este ano e que isso, em conjunto com as compras de ativos, deverá deixar margem suficiente para que a autoridade monetária não volte a tocar nas taxas em 2020 às custas das condições económicas.

Na Europa, o ainda presidente do BCE, Mario Draghi, recebeu muitas críticas internas à sua política. “Isto demonstra a existência de uma campanha agressiva com o objetivo de se assegurar que a voz dos governadores dos bancos centrais volte a fazer-se ouvir sob a nova presidência. Não obstante, é pouco provável ver mudanças materiais no futuro em termos da política do BCE quando Christine Lagarde assumir a presidência, já que está totalmente de acordo com que o banco facilite uma transição rumo à política fiscal”, assegura Konstantin Veit, gestor da PIMCO. Tudo isso está a ter um claro impacto na visão dos investidores sobre os mercados de obrigações, que este ano voltaram a recuperar o interesse que perderam em 2018.

Captações

As captações acumuladas na Europa em 2019 evidenciam essa clara inclinação dos clientes por estratégias de obrigações. Tal como explicam na Broadridge, no primeiro semestre do ano as entradas líquidas registadas por fundos de obrigações ascendiam aos 134.000 milhões de euros. “É uma mudança tremenda face a 2018, que se explica pela promessa dos bancos centrais de baixaram as taxas de juro e de haver mais quantitative easing. É um boom para as obrigações que, de acordo com as nossas expectativas, irá mais além e poderá fazer com que o ano acabe com entradas líquidas para a classe de ativos muito próximas das recorde de 2017”, referem Diana Mackay, Mark McFee e Lynn Pattinson, da Broadridge (ver gráfico 1: fonte Broadridge).

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Uma análise mais pormenorizada dos dados permite ver algumas tendências muito interessantes. Em primeiro lugar, se se tiver em consideração as categorias de obrigações mais procuradas, vê-se como em cinco das seis que recebem maiores entradas líquidas (Bonds Global Currencies, Bonds Emerging Markets, Bonds Target Maturity, Bonds USD e Bonds Global Corporates) mais de 10% dos fluxos de entradas correspondem a investidores asiáticos. Isto reforçará a tese dos que defendem a cada vez maior necessidade que existe, também nos países emergentes, por produtos geradores de rendimentos.

Em segundo lugar, também se observa como o dinheiro provém principalmente de investidores institucionais, entradas que foram relativamente estáveis ao longo dos últimos anos. Os fluxos dos investidores retail foram, nestes anos, mais instáveis (ver gráficos 2 e 3: fonte Broadridge).

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Por último, é importante destacar o que é, sem dúvida, a grande tendência em obrigações: a adoção de veículos de gestão passiva. Se isto era uma tendência muito clara em ações, em obrigações também se está a consolidar. Pelo menos nos últimos 12 meses. Desde junho de 2018 até junho de 2019 as entradas líquidas recebidas pelos ETF e fundos indexados de obrigações na Europa alcançaram os 59 000 milhões, face às saídas de 200 que tiveram os produtos ativos de obrigações. “Num contexto em que quase não há taxa de juro, as comissões são muito importantes e a gestão passiva está a oferecer produtos muito baratos, sobretudo se se comparar com os custos dos fundos ativos”, explica César Muro, especialista em Investimento em Gestão Passiva na DWS.

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Mas que entidades estão a beneficiar em maior medida deste renovado interesse por obrigações na Europa? Por um lado, estão as gestoras muito bem posicionadas no negócio da gestão passiva, onde – segundo dados da MorningstarBlackRock conta com três dos quatro produtos passivos mais vendidos nos últimos doze meses. Todos eles são ETF. Trata-se concretamente do iShares Core Euro Corporate Bond ETF, do iShares Euro High Yield Corporate Bond ETF e do iShares $ Treasury Bond 1-3 year ETF. A Vanguard, por sua vez, destaca-se com um fundo indexado: o Vanguard Global Bond Index. Tantos os da iShares como os da Vanguard registam captações líquidas que superam os 3 000 milhões.

No que diz respeito ao âmbito da gestão ativa, os produtos com a etiqueta income são os mais solicitados. A PIMCO é a entidade que mais está a aproveitar o forte interesse pelas obrigações graças, sobretudo, ao PIMCO Income, que este ano regista entradas superiores a 16 000 milhões. É um volume que supera muito o resto dos produtos ativos que mais captam na Europa, lista na qual se encontram diferentes estratégias da AllianceBernstein (sendo o AB FCP I American Income Portfolio a que mais dinheiro capta), da Nordea (com a Nordea 1 - European Covered Bond como o produto mais procurado da entidade) ou da M&G (o M&G Lux Optimal Income).

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