O que se passou na Turquia? Os gestores explicam o movimento brusco dos últimos dias


Se a incerteza que acompanha umas eleições é suficiente para manter afastados os investidores, quando estas se celebram em países emergentes, com uma menor liquidez, a volatilidade está assegurada. O último lembrete de que os mercados não hesitam em movimentar-se fortemente, deu-se há apenas uns dias, na Turquia, no calor das eleições locais.

O partido do presidente Recep Tayyip Erdogan poderá perder o controlo do seu bastião histórico, Istambul. Apesar do resultado inesperado, a primeira reação do mercado foi morna. Tanto a divisa como as obrigações e os credit default swaps movimentaram-se positivamente. “Parte dessa reação é simplesmente o alívio das eleições ficarem para trás e que a volatilidade da lira diminuirá”, refere  James Barrineau, responsável pela dívida emergente na Schroders.

É uma calma que contrasta fortemente com a forma como se moveram os ativos turcos na semana passada. Na sexta-feira a lira turca teve uma das suas piores quedas face ao dólar desde o verão, na quarta-feira a bolsa turca sofreu o seu pior dia desde julho de 2016, e os credit default swaps saltaram para os máximos de outubro.

O governo turco tentou contra-atacar com medidas como restrições sobre a quantidade de liquidez em liras que os bancos nacionais podiam oferecer às suas contrapartes estrangeiras antes das eleições deste fim de semana. Mas só conseguiram criar importantes distorções nos últimos dias, com rendimentos de obrigações a dois anos que superam os 20%, e taxas de juro dos empréstimos a um dia em liras que subiram temporariamente para 1.000% (o nível mais alto desde a crise bancária de 2001).

Os alertas estavam à vista

Para entender este movimento tão brusco é preciso escavar nas profundidades do mercado, analisar porque razão se movem os ativos. Para gestores experientes como Diego Fernández, gestor da equipa de obrigações emergentes da Goldman Sachs Asset Management, não os surpreende esta volatilidade prévia às eleições. Pelo contrário. “Podíamos pensar que a influência das eleições se prevê meses antes, mas o certo é que os investidores têm uma visão mais próxima a duas semanas”, explica o responsável dos fundos GS Emerging Markets Debt e GS Emerging Markets Corporate Bond.

Por isso, os ativos turcos movimentavam-se com relativa calma até há dias e, de repente, baixaram fortemente. Na GSAM começaram a comprar cobertura há um mês, porque sentiam que o mercado iria ter um cenário de tensão política. Se tivéssemos ficado à superfície, tínhamos visto unicamente a lira, as obrigações e as bolsas estáveis, mas o detonador da correção estava escondido.

Como explicam na Scope Ratings, o governo turco adotou políticas antiliberais antes das eleições locais deste domingo para travar a pressão vendedora sobre a lira turca, reduzir artificialmente a inflação até quatro vezes o objetivo oficial e coagir os bancos para que concedam novos empréstimos. “Estas políticas são negativas para o crédito, especialmente se continuarem depois das eleições”, asseguram Dennis Shen e Jakob Suwalski, analistas da empresa.

Fernández concorda. A estabilidade da lira foi alcançada devido à Turquia ter vendido parte dos seus dólares em reservas, um movimento com consequências que o mercado subvalorizou. Assim, as reservas líquidas das divisas caíram em torno dos 10.000 milhões de dólares durante as três primeiras semanas de março, segundo dados recolhidos pela Scope Ratings. “Quando virmos um país a liquidar as suas reservas de divisas é um alerta vermelho”, menciona o gestor da GSAM. “Há muito poucos outros países cujo nível de reservas de FX é tão baixo como o da Turquia”, dizia à Reutters, Paul McNamara, diretor de investimentos da GAM. “Com as reservas neste nível, realmente não têm margem de erro e há uma falta de confiança, e isso deve ser abordado”. A isto acrescenta-se o facto de o país, mesmo após o susto do passado agosto, ser uma das regiões mais ativas em emissões de obrigações.

“Estas táticas para reforçar a estabilidade da lira e restringir a sua venda podem reduzir as pressões especulativas até certo ponto a curto prazo, mas farão com que a lira seja menos atrativa a longo prazo, cortando o investimento estrangeiro direto, a carteira externa e os fluxos de dívida face à Turquia”, refere Shen.

Profissionais
Empresas

Notícias relacionadas

O Mais Lido