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O que fazem as bolsas quando as taxas de juro sobem…


Prever como os mercados de ações vão reagir num cenário de subidas de taxas de juro é praticamente impossível. O único proxy possível é deitar as mãos aos livros de história e analisar como as bolsas se comportaram durante os períodos nos quais os bancos centrais aumentam taxas, sem esquecer que a política monetária não é o único elemento que influencia as cotadas e que existem outro tipo de fatores que condicionam o contexto. Independentemente do resto, na Vanguard fizeram este exercício. Analisaram qual foi o comportamento do S&P 500 durante os períodos dos últimos 50 anos nos quais a Reserva Federal dos Estados Unidos aplicou subidas das taxas. Os resultados do estudo são surpreendentes.

A análise realizada pela empresa americana mostra que, nos últimos 50 anos, não existe um padrão de quedas das bolsas durante os ciclos de aumento de taxas. Pelo contrário. Desde 1967 aconteceram 11 períodos de subidas de preços do dinheiro por parte da Fed nos Estados Unidos. Em 10 delas, a rentabilidade gerada pelo S&P 500 foi positiva. Apenas no período compreendido entre fevereiro e julho de 1974 o índice ofereceu retornos negativos (-15%). Em média, a rentabilidade anual líquida oferecida pelo S&P500 durante estes períodos de subidas das taxas de juro foi de 10%, estando na sequência da que foi registada pelo índice desde 1925 até 2017.

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A lógica faz pensar que os períodos de endurecimento da política monetária acontecem frequentemente quando a economia mostra um bom comportamento e o crescimento dos lucros é forte. E, por isso, as ações tendem a registar rentabilidades respeitáveis durante essas fases. A questão é saber o que irá acontecer nesta situação. Um dos aspetos que mais receio levantou foi a evolução da curva de yields nos EUA. As taxas de juro da parte mais curta da curva estão a aumentar mais rápido do que as da parte mais longa, causando um aplanamento da curva, uma tendência que os participantes do mercado esperam que continue. A questão é que, ao longo do último século, o aplanamento da curva de yields interpretou-se tradicionalmente como um sinal precoce de desaceleração económica.

Para Adrian Hull, corresponsável de obrigações da Kames Capital, isto não tem de ser assim. “Agora mesmo, o mundo sofisticado dos bancos centrais e o objetivo genérico de inflação de 2% oferecem estabilidade mas, à medida que a expansão quantitativa chega ao fim e as obrigações adquiridas como parte dos programas de compra de ativos voltam ao mercado, encontramo-nos em terreno desconhecido”. Perante esta situação, o especialista acredita que é possível que os investidores devam retroceder ainda mais no tempo para tentar prever as consequências de uma curva de yields invertida.

“Embora não haja dúvidas de que se trata de uma perspetiva um pouco simplista dos mercados de obrigações do final do século XIX, muito menos regulados do que agora, podemos encontrar paralelismos com a situação atual. A regulação exige que uma percentagem do dinheiro dos fundos de pensões se invista a longo prazo em ativos seguros, com independência do custo dos empréstimos interbancários a um dia, o que está a gerar (como já aconteceu em muitas ocasiões e continua a ocorrer nos gilts a longo prazo) uma curva de yield invertida”.

Amit Lodha, gestor do Fidelity Global Focus, também considera que uma inversão da curva não significa necessariamente uma nova entrada num cenário de recessão económica. “Uma curva invertida não é sinal de uma recessão: é necessária, mas por si própria não chega. Se fosse fácil, podia-se distribuir investimentos implementando um único indicador”. Segundo o gestor deste fundo de ações globais, no passado, os mercados comportaram-se bem em períodos nos quais a curva de yields invertia, embora mudassem os setores de melhor comportamento.

Embora os motivos para a cautela no contexto atual sejam inúmeros, para o gestor da Fidelity não lhe parece que as perspetivas sejam totalmente em baixa. A razão principal para o seu otimismo é que Trump foi extremamente positivo para a confiança empresarial no outro lado do Atlântico. “As taxas fiscais dos EUA são as mais baixas desde a década de 1930, a idade média das infraestruturas é a mais alta desde a Segunda Guerra Mundial e, desde o ponto de vista das empresas nacionais, as disputas comerciais fazem com que as perspetivas de reinvestir nos EUA sejam mais atrativas. Tudo isso sugere que não poderão acontecer condições melhores para o investimento empresarial e para o arranque do ciclo de gastos e, se isso acontecer, voltamos a estar numa fase média do ciclo, mais que final”.

Voltemos ao início: cada ciclo de subidas de taxas está enquadrado num contexto que faz com que a política monetária não seja o único fator a ter em conta na altura de tentar analisar e averiguar qual será a evolução do mercado de ações nesta situação.

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