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O que está a acontecer nas bolsas? As gestoras analisam a últimas quedas


As bolsas estão-se a tornar muito vulneráveis. Qualquer dado, qualquer notícia por mais insignificante que pareça, é capaz de aumentar a volatilidade e provocar quedas nos mercados de ações. A última correção começou após a revelação da detenção no Canadá de Wanzhou Meng, diretora financeira da Huawei, da qual os Estados Unidos requerem a sua extradição por violar as sanções contra o Irão. Isto provocou um conflito diplomático entre Washington e Pequim que ameaça afetar as grandes negociações comerciais que nos próximos meses os Estados Unidos e a China vão manter. Será que isto deve ser um motivo de preocupação para os investidores? Segundo Luca Paolini, estratega chefe da Pictet AM, não.

“Este assunto não vai ter grande impacto nas negociações entre ambos os países. Na verdade, não vejo que vá mudar a dinâmica das negociações. De facto, acredito que os investidores, que atualmente estão muito sensíveis face à mínima notícia, reagiram em excesso, da mesma forma que dias antes tinham sido demasiado positivos após a reunião do G-20 em Buenos Aires. A economia americana está a fragilizar-se e não acredito que queiram correr riscos. De qualquer das formas, os Estados Unidos continuarão a manter uma elevada pressão sobre a China. A questão é que é possível que durante os próximos meses não conheçamos muito destas negociações, o que pode provocar nervosismo entre os investidores”, explica o especialista. Paolini mostra-se convencido de que estas serão mais complexas.

Para Cormac Weldon, gestor de ações norte-americanas da Artemis, as questões mais difíceis estão relacionadas com a transferência forçosa de tecnologia se as empresas americanas (ou outras empresas estrangeiras) desejarem estabelecerem-se na China, assim como com o roubo, cometido abertamente, de propriedade intelectual. Além disso, o anúncio de que o representante comercial mais forte de Donald Trump encarregar-se-á das negociações durante os próximos três meses indica que o mercado terá de se focar neste tema durante o primeiro trimestre de 2019”, afirma. Contudo, a batalha que os Estados Unidos e a China travam atualmente, não será o único foco de incerteza que gerará nervosismo nos mercados.

A curva de yields inverteu-se este ano e isso, historicamente, foi sinal de recessão, embora tenha chegado um ano ou dois depois de acontecer tal coisa. Se a história se repetisse novamente, a recessão poderia chegar aos Estados Unidos em 2020. É o cenário que algumas gestoras já apresentam, como a Schroders. “A nossa análise de possíveis cenários mostra que a balança dos riscos extremos se inclina para a estagflação e que o risco individual mais importante é um contexto deflacionista derivado de uma recessão nos Estados Unidos em 2020, fenómeno que terá lugar em caso de a Reserva Federal adotar medidas demasiado restritivas em 2019. Um resultado assim, iria provavelmente desencadear uma mudança obrigatória na presidência da autoridade monetária”, aponta Keith Wade, economista chefe da entidade.

À medida que nos aproximamos de 2019, o leque de possíveis resultados, tanto positivos como negativos, é extremamente vasto. Será que a Fed irá reduzir o ritmo das suas subidas de taxas, como o mercado interpretou a partir do último discurso de Powell? Ou manter-se-á no tempo a trégua comercial entre os EUA e a China resultante da cimeira do G-20? “Estes dois resultados possíveis poderão reativar a tolerância ao risco, pelo menos a curto prazo. Os investidores que tentam obter recuperar as suas perdas também poderão aparecer em cena e alimentar a aposta pelo risco”, afirma James Bateman, diretor de investimentos da área de multiativos da Fidelity.

Na Europa, as preocupações são outras. Um dos temas principais que pesou sobre a Zona Euro foi a incerteza política. Por um lado, está o Brexit, cujo resultado ainda se desconhece. Por outro, a incerteza que o protecionismo dos Estados Unidos está a gerar na procura na Europa e na confiança dos empresários, que se viram afetadas por uma desaceleração do comércio global. Se isso é pouco, da J.P. Morgan AM recordam que, em Itália, o confronto entre o governo e a UE em torno das propostas de orçamentos forçou também o custo da dívida a aumentar. “Isto levou com que nos dois últimos dados do PMI italiano este estivesse abaixo de 50, o que indica que a economia do país está a contrair”, sublinham da empresa.

Talvez ainda mais preocupante seja a evolução da Alemanha, já que a locomotiva económica da Europa registou o seu pior dado trimestral de produção desde 2013. Em termos gerais, as gestoras contam com uma desaceleração económica, mas não com uma recessão iminente. A DWS  posiciona-se com o consenso. A empresa prevê que o crescimento da economia global abrande no próximo ano, mas não espera uma recessão económica. "O crescimento alcançou o seu ponto máximo em 2018, mas os principais indicadores continuam a ser sólidos", assegura Stefan Kreuzkamp, diretor de investimentos da entidade. No entanto, a desaceleração da atividade, cujo verdadeiro alcance ainda se desconhece, é mais uma preocupação para acrescentar a um cabaz de preocupações que começa a ficar muito pesado.

Todas elas, somadas, são notícias que estão a forçar os investidores a dar um passo atrás na altura de aceitar o risco nas suas carteiras e a gerar volatilidade e perdas nos mercados.

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