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O prémio de iliquidez ao serviço do mercado


É fácil perceber porque Eric Wohleber, head of Real & Alternative Assets na Amundi se deslocou a Portugal para falar com clientes sobre o universo de investimento em alternativos. “Num ambiente de baixas yields e baixos retornos esperados, os investidores e gestores estão à procura de soluções descorrelacionadas e fontes de rendimentos que permitam satisfazer as necessidades de cash flow das carteiras. As performances dos mercados de ações têm sido fabulosas nos últimos nove anos mas, depois de tal subida a questão que está em cima da mesa é a questão do risco e da correlação”, explica o profissional, lançando as bases para uma conversa com a Funds People sobre as alternativas de investimento em ‘private markets’.

E onde se encontra essa descorrelação? Wohleber é peremptório na resposta: “Nos mercados privados”. Os dados mais recentes do mercado expostos pelo profissional dão conta de um máximo absoluto atingido pelo património em estratégias alternativas que atinge os 7,7 biliões de dólares (7,7 trillion USD). Mas não são só os hedge funds que alimentam este crescimento. “Continuam a ser os hedge funds, ou alternativos líquidos, os líderes no expertise na gestão alternativa, mas vemos outros segmentos a desafiar a liderança, especialmente o private equity”, comenta o especialista da Amundi, realçando também outros alternativos ilíquidos como a private debt, real estate ou infraestruturas.

Só em 2016, os gestores destas estratégias levantaram 600 mil milhões de euros para investimento em mercados ilíquidos e privados. Por outro lado, os hedge funds sofreram resgates na ordem dos 100 mil milhões de euros. “O que vemos é uma clara orientação dos capitais dos alternativos líquidos para os ilíquidos. E isto acontece porque os investidores procuram capturar o prémio de iliquidez que os investimentos na economia real, infraestrutura e mercados privados proporcionam. Quando falamos no espaço de equity esse prémio pode chegar aos 300 ou 400 pontos base. No segmento de dívida privada será mais perto dos 80 ou 100 pontos base. Mas num ambiente de yields tão baixas como o atual, capturar 80 pontos base mais de rendimento é extraordinário, especialmente para os investidores institucionais”, explica Eric Wohleber.

Interesse estimulado

São várias as razões que o profissional aponta para a especial preferência dos institucionais por estas classes de ativos. “Se falarmos de fundos de pensões, que procuram garantir a cobertura das responsabilidade em 20 ou 30 anos, não o conseguem fazer com uma yield de 2%. O prémio que estas estratégias pagam vêm colmatar essa lacuna. Por outro lado, as questões SRI (Socially Responsible Investment) são cada vez mais relevantes para institucionais. Não há grande moralidade no investimento em hedge funds. No entanto, o financiamento da economia real ou de um projecto real cumpre os critérios SRI. Por fim, as questões regulatórias dão um grande impulso ao segmento. Por exemplo, para uma seguradora europeia custa muito caro em termos de capital investir em hedge funds. Mas se estiver a financiar a economia através de private equity ou private debt os níveis de capital exigidos pelas regulações de solvência são muito menores”, explica. Todos estes factores, associados a mercados em máximos de muitos anos, têm estimulado o interesse pelos alternativos ilíquidos.

Os riscos

No entanto, estes investimentos não estão isentos de risco. Riscos de funding, de negócio, de mercado, de projeto... são apenas alguns dos apontados por Wohleber. “O mais importante é os investidores estarem cientes dos riscos envolvidos. Há que fazer muita pedagogia. Especialmente porque o interesse na classe de ativos levou a que se acumulasse muita ‘pólvora seca’ (dry powder)”, comenta, referindo-se ao capital angariado que terá que ser encaminhado para o investimento. O especialista fala de níveis record de capital por aplicar e isso entra em direto confronto com um princípio básico dos investimento: a diversificação. “Se queremos ser rápidos a aplicar o capital podemos investir em grandes projetos em boas localizações. Mas isso não nos proporciona diversificação. Por outro lado, podemos investir em muitos pequenos projetos, mas isso implica que se leve o seu tempo e, no entretanto, o capital fica parado. Há que encontrar um bom equilíbrio entre diversificação e qualidade dos ativos”, refere.

Diferenciação

Com tais níveis de capital por aplicar, o que vemos é um mercado que não está isento de pressão compradora e que, para cada projeto, há vários players interessados. “Quando muitos gestores estão a olhar para o mesmo projeto a única parte que ganha é o vendedor. Sacrifica-se a taxa de rentabilidade”, diz Eric Wohleber. “O segredo é garantir pipelines específicos de projetos para evitar a absurda competição ao nível do preço. Se formos os primeiros no mercado contornamos este problema e garantimos investimentos com boas taxas de rentabilidade”.

Efetivamente, quando falamos de mercados públicos falamos de um universo em que a informação está comummente disponível para todos. Nos mercados privados, a informação tem outro valor. “Há dois modelos que permitem diferenciar os negócios. Primeiro, é importante perceber que na Europa este mercado é dominado por pequenas boutiques que têm expertise nos seus respectivos mercados. Esse acesso local e experiência é importante para um player global como a Amundi, que procura coordenar uma rede de relações espalhada pelo globo que dá acesso privilegiado a informação. Em segundo lugar, celebrar acordos diretamente com o provider do ativo, e não com o vendedor proporciona o acesso privilegiado a projetos antes de entrarem no mercado. A Amundi fê-lo há mais de uma no com a EDF (Électricité de France). Cada vez que a EDF lança um novo projeto, seja de energias renováveis, eficiência energética, ou outros, o acordo celebrado connosco dá-nos direitos de ‘primeira oferta’ e só se não chegarmos a um entendimento é que o projeto entra nos mercados privados”, explica o especialista da Amundi.

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