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O Parlamento britânico derruba o acordo do Brexit: primeiras reações das gestoras


Restam apenas 70 dias para o dia D, mas pairam cada vez mais dúvidas sobre o Brexit (ou não-Brexit?) e o futuro político no Reino Unido. Ao final do dia de ontem, Theresa May sofreu uma derrota histórica no Parlamento britânico. Por 432 votos face a 202 – uma margem histórica de 230 votos – rejeitaram o acordo alcançado pelo Governo britânico e a Comissão Europeia. Colocam-se agora perguntas não só acerca da forma como o Reino Unido irá sair da União Europeia, como também quem ficará no comando quando isto acontecer. Um segundo referendo, um hard Brexit, ou novas eleições… os três são cenários que não são descartados por agora.

A primeira reação do mercado deixa entrever que o resultado da passada terça-feira estava descontado. A libra esterlina caiu em força com o primeiro headline, mas voltou a subir nas horas seguintes até ficar de novo plano. A calma também se estendeu à madrugada desta quarta-feira nas principais bolsas europeias.

O que pode acontecer agora?

Apesar da tranquilidade dos mercados, existem perguntas fundamentais para serem respondidas. “Além do Plano B que May tem de apresentar em três dias e que obviamente não o tem, o Reino Unido entra em território desconhecido porque não há uma solução banal”, aponta Philippe Waechter, economista chefe da Ostrum AM, filial da Natixis IM.

1. Será que May irá resistir no poder?

O líder do Partido Trabalhista Britânico, Jeremy Corbyn, aproveitou a confusão após a votação para apresentar uma moção de censura contra May (que, entretanto, fracassou). E isto pode ser ruído de curto prazo. “Por um lado, conduz os mercados para a possibilidade de uma posição mais suave do Partido Trabalhista sobre o Brexit, que apoiaria a libra esterlina, mas os investidores também se vão preocupar com as políticas mais controversas do Partido Trabalhista, como a nacionalização”, aponta Stephanie Kelly, economista política da Aberdeen Standard Investments. Ainda assim, é mais um gesto do que uma realidade, uma vez que o consenso dos gestores prevê que o Governo supere a moção. “Com o DUP (Partido Democrático Unionista da Irlanda do Norte) a dizer que irão apoiar os conservadores, a moção está morta a menos que haja uma grande rebelião dentro do partido conservador”, explica Kelly.

2. Theresa May ganha na moção de censura

Theresa May tem experiencia em ganhar moções de censura. E gestores como Richard Buxton, responsável do Merian UK Alpha Fund da Merian Global Investors, não vê o governo obrigá-la a demitir ou então que ela saia pelo seu próprio pé. Claro que nada está garantido. O que é claro é que May terá que voltar a Bruxelas, ainda que poucos avanços se possam conseguir. “Realisticamente, há pouco espaço para concessões substanciais da União Europeia, mais além de retoques domésticos à declaração sobre a aliança futura”, defende Neil Dwane, estratega global da Allianz Global Investors.

“Terá que se confiar então na reticência da Comissão Europeia na saída do Reino Unido sem um acordo”, acrescenta Buxton. E, ainda assim, o tempo esgota-se. “As conversas terão que acelerar: conta apenas com três dias úteis para apresentar um acordo revisto ao parlamento e a magnitude da sua derrota debilita o seu poder de negociação”, comentam da Fidelity.

3. Incerteza prolongada

Ainda confiando na sobrevivência de May, nem todos acham que a saída vá ser ordenada. “Deixando de lado as minhas convicções políticas, a minha opinião pessoal é que a única razão pela qual se recorreria ao Artigo 50 é para apostar numa saída sem acordo, mas deixa mais tempo para os preparativos”, argumenta Leigh Himsworth, gestor de fundos de ações da Fidelity. Por exemplo, ainda têm que ser aprovadas leis para uma situação sem acordo. Neste cenário, necessitam ainda de cerca de 1.000 instrumentos legislativos: para que os aviões sobrevoem outros territórios, para os seguros dos veículos, para que os nacionais da UE possam estar no país, etc. “Do me ponto de vista, o desfecho mais provável é uma prorrogação do Artigo 50, seguido de uma ausência de acordo no final do prazo máximo, que expira no dia 2 de junho”, acrescenta.

Poucos se aventuram a descrever o desenlace. No que parecem estar de acordo é que a incerteza perdurará. “Na nossa opinião, o cenário mais provável é que May ou demora ou revoga o Artigo 50, carregando assim no botão ‘pause’ justamente antes do comboio descarrilar. Os negócios e os consumidores britânicos deverão habituar-se à ideia de continuar a viver sob a incerteza durante um tempo”, afirma David Lafferty, estratega chefe de mercados na Natixis IM.

Desta forma, pouco ou nada mudou depois da votação de ontem. “Se um Brexit sem acordo não parece ser positivo para nenhuma das partes, os acontecimentos do ano passado mostram até que ponto o sentimento das empresas e dos investidores pode ser afetado pela conjuntura política”, acrescenta nesta linha Ben Lofthouse, responsável da equipa de Global Equity Income da Janus Henderson. Nesta linha um tanto pessimista, move-se também Stefan KreuzKamp, CIO da DWS: “Infelizmente, tudo continua a ser possível: novas eleições, uma extensão do prazo para o Artigo 50, ou mesmo um segundo referendo. Como muitos nossos colegas, continuamos à espera de uma saída ordenada do Reino Unido da UE. Mas o caminho para chegar lá não é claro e está cheio de obstáculos. Também devemos reconhecer que a probabilidade de um hard Brexit aumentou. Apesar de a maioria dos membros do parlamento britânico afirmarem que querem evitá-lo, todo o processo Brexit continua a ser fortemente impulsionado pelos interesses dos partidos. Recordemos: todo o esforço começou como uma aposta falhada de David Cameron. Eventualmente, como poderá não acabar assim? O comportamento dos políticos britânicos até à data não reduziu as nossas preocupações, nesse sentido.

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