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O mito da preservação de capital ou a morte lenta do investidor cauteloso


Os últimos 12 meses foram um desafio para os fundos multiativos. Uma carteira indexada 50-50 em obrigações e ações foi a aposta vencedora, não obstante, as estratégias de gestão ativa que têm flexibilidade para se mover ao longo de todas as classes de ativos não souberam brilhar a par dos seus índices de referência. O que explica esta disparidade? Três gestoras internacionais debateram numa conferência organizada pela Morningstar, em Madrid os conceitos de diversificação e preservação de capital.

Investir, na sua essência, é alocar probabilidades a uma série de cenários. E a realidade é que o movimento dos mercados surpreendeu os gestores. “O que funcionou melhor foi o que estava mais caro”, recorda Eric Lonergan, gestor macro da M&G. “É algo que não faz sentido. A verdade é que há uma parte cada vez maior do índice que assegura rentabilidades negativas”.

E os especialistas não preveem que este cenário de yields negativas se desvaneça tão depressa. “Mas o investidor tem de estar ciente que são preços manipulados”, insiste Suzanne Hutchins, da equipa de Real Return da Newton (parte da BNY Mellon IM). “Vimos uma importante deslocalização de capital graças às taxas de juro baixas. Há muitas empresas zombie que estão a sugar o dinheiro fácil”, defende. “Estão por entender as implicações da transmissão do efeito das taxas negativas”, coincide Asbjorn Trolle, responsável de multiativos na Nordea AM. “Não se recompensou o investidor por proteger o seu capital nos últimos anos”, lamenta.

Por isso, os três gestores coincidiram nas necessidades de repensar no conceito de preservação de capital. “É um mito”, sentencia Lonergan. E ilustra-o com um exemplo demolidor: o ativo livre de risco é o cash, a liquidez. Na Europa, em termos reais (tendo em conta a inflação) dá uma rentabilidade negativa de 1,5%. Pode parecer pouco se recordarmos que há menos de um ano os mercados registavam correções de 10%. Mas qual é o custo de aguentar essa suposta proteção a longo prazo? Como recorda Lonergan, com o passar de uma década acumulou-se uma perda de 20-30%. “Isso não é proteção de capital”, sentencia. “É uma morte lenta”.

Há consenso entre os especialistas em olhar mais além das obrigações tradicionais para diversificar. Hutchins, por exemplo, já está a incorporar no fundo ideias como o ouro e os metais precisos. Também expõe o efeito que as divisas têm. “A liquidez em dólares é uma grande alternativa, como também o yen japonês”, comenta. Até vê valor em divisas baratas de países emergentes.

É uma mudança de mentalidade necessária, mas difícil de alcançar. Especialmente em investidores habituados a gerar rendimentos das obrigações. “Comentam sempre que é difícil gerar income”, conta Lonergan. Mas não o vê assim. “Encontro facilmente um cabaz diversificado de ações de qualidade que me dão uma rentabilidade por dividendo de 6-7%”, afirma. A volatilidade das ações não o assusta. “Isso não é risco. O verdadeiro risco é a perda permanente de capital”.

As ações estão a ser as grandes esquecidas pelos aforradores segundo entendem os especialistas. Trolle recorda o caso do segmento value, cujo spread face ao growth se estreitou significativamente nos últimos anos. Por isso, além do potencial em ações de alta qualidade, vê oportunidade no segmento de mais qualidade no value. Mas no índice em geral, aponta. “Porque o risco real do value é que estas empresas quebrem em períodos de crise”, recorda.

Isto não significa que é preciso descartar por completo as obrigações. Hutchins, por exemplo, vê uma oportunidade nos CoCos financeiros de bancos bem capitalizados, que rendem 6-7% atualmente. “Só se trata de diversificar a sua fonte de retornos agora que a era da efetividade dos estímulos monetários está a chegar ao fim”, conclui.

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