Tags: Obrigações | Ações |

“O mistério do investidor desaparecido”


Quando uma empresa tem condições e tem vontade de entrar no mercado de capitais a grande questão que se coloca, para Miguel Geraldes, diretor de Mercados da Euronext Lisbon, é perceber onde estão de facto os investidores que possam investir nessas companhias. A mesma pergunta que colocou à audiência na Conferência “Via bolsa”, realizada no Porto, no passado dia 20 de março, voltou a estar em cima da mesa numa recente conversa com a Funds People Portugal.

O fenómeno que em tom de brincadeira apelida de “O mistério do investidor desaparecido” é algo que na bolsa de valores se tenta combater. Se em 2010 nos road shows (nomeadamente o Portuguese Day em Nova Iorque) realizados pela instituição, Miguel Geraldes recorda que o interesse dos investidores pelas empresas portuguesas era inexistente, passo a passo, chegou-se a um 2013 em que “as reuniões já se centravam apenas no conhecimento da empresa em causa”. Ainda que este ano “em termos de reuniões marcadas as perspetivas tenham melhorado”, o caminho ainda se avizinha longo. O diretor de mercados da entidade indica que têm neste momento “identificados 150 investidores institucionais (pode ler-se fundos) que já investem no Alternext”. “São conhecidos os montantes, a sua identidade, os gestores dos ativos e o valor que está sob gestão, decorrente do investimento em empresas do Alternext”, explica. A lista com esta informação, diz Miguel Geraldes, é disponibilizada às instituições financeiras que querem tratar das empresas que estão interessadas em fazer o exercício de vir para a bolsa. “Esta é a chave na mão. Falta agora colocar as empresas e os investidores frente-a-frente”, refere.

Contacto com os investidores

O que está portanto em cima da mesa para que esta aproximação se efetue? A primeira iniciativa que a Bolsa conta ter em marcha antes do verão é um road show em Paris, realizado em parceria com a Montepio Investimentos, com a KPMG, com a Deloitte, e com a PwC, que atualmente atuam na preparação das empresas em vias de entrar em Bolsa. Neste sentido o road show servirá para que “estas entidades possam conhecer nominativamente os investidores e os gestores desses ativos”, de forma a que quando tenham uma empresa “em mãos” a possam apresentar aos investidores.

Mapa dos qualificados

O segundo passo a pôr em prática é um processo de mapeamento dos investidores profissionais/qualificados em Portugal. “Queremos identificar family offices, casas de advisory,  e outros tipo de investidores deste género, através de um mapeamento. Como não temos capacidade para o fazer sozinhos, estamos a agir com alguns parceiros: bancos de investimento, consultores financeiros, etc”. Ainda que na estimativa da Euronext Lisbon façam parte deste universo 100 investidores, até ao fim do ano a entidade conta ter “uma base de dados confortável”.

Identificar o investidor “mais próximo”

A terceira iniciativa da Euronext nesta abordagem de aproximação ao investidor, apresenta um cunho pioneiro. “Queremos verificar se existe ou não potencial para que empresas de dimensão média ou média/pequena possam recorrer a uma base de retalho que esteja próxima dessas mesmas companhias”, indica o responsável de Mercados. Neste universo de investidores “nunca antes explorado” existe potencial que se prende com o facto de o “puro investidor de retalho conhecer as empresas, a sua história, os seus donos...”. Tal processo, no entanto, é visto pelo especialista como “complicado” do ponto de vista do suporte dado pelas instituições financeiras. “Em Portugal é difícil abrir mentes”, afirma.

Apesar da identificação de investidores se apresentar como uma estrada algo sinuosa no caminho da Bolsa de valores, Miguel Geraldes alerta que o trabalho dos intervenientes no mercado também tem de ser estimulado. “Estou desconfiado de que grande parte da não identificação dos investidores, se deve à pura inércia destes intervenientes”, indica, acrescentando que “muitas vezes não querem alocar recursos à procura de investidores”. Assim, este “Mistério do investidor desaparecido” tem na sua base alguma ignorância: “existe a ideia de que custa mais encontrar investidores para PMEs, mas eles existem em todo lado. Resta saber se essas casas querem investir ou não”, conclui.

Encontrar soluções: precisa-se 

Sublinhando que algo tem de ser feito para que o interesse dos investidores pelas empresas se adense, Miguel Geraldes dá como exemplo a Polónia, que desde 2006 que começou a “fazer um esforço para que fossem criadas mais PMEs, e para que estas começassem a ser direcionadas para o mercado de capitais”. Como? “Com mais regulamentação na composição das carteiras de fundos, tendo sido exigido que os fundos de investimento investissem mais em small caps”.

“No final de 2013, a percentagem de ações cotadas através da Euronext Lisbon na carteira dos fundos de investimento mobiliários era de apenas 3,3%”, lembra. Para o diretor de mercados da Euronext é necessário perceber-se rapidamente “como é que se pode estimular o mercado de forma a ser mais dinâmico neste sentido”.

 

Notícias relacionadas