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O legado de John C. Bogle: a democratização dos investimentos


"Grande parte de Wall Street dedica-se a cobrar muito por nada. Ele cobrava nada por muito”. É com estas palavras que Warren Buffett, a referência máxima da gestão ativa, recorda o fundador da Vanguard e pioneiro da gestão indexada, falecido na noite desta quarta-feira. Contra a corrente e com fortes críticas, John C. Bogle (1929) preconizava uma filosofia de investimentos de baixo custo, fácil e sem floreados, com a qual revolucionou a indústria da gestão de ativos. “Mais do que um homem de negócios de sucesso, Bogle era um capitalista com alma”, define-o o jornal da Pensilvânia, a sua cidade adotiva. (link: http://www.philly.com/business/john-bogle-dead-vanguard-obituary-20190116.html)

Com uma mentalidade que se focava nos investidores individuais, criou uma das "titãs" financeiras da atualidade. Nascida em 1974, a Vanguard gere hoje mais de 5 biliões de dólares a nível mundial, prestando serviços a mais de 20 milhões de investidores em 170 países distintos. Tudo isto a um custo médio de 0,11%.

A revolução de Bogle a que ele chamava de “A Experiência Vanguard” começou há mais de quatro décadas. Em 1975 expôs um modelo de negócio baseado em fundos de investimento que operavam ao custo e de maneira independente, com os seus próprios diretores e trabalhadores. Era uma mudança radical na estrutura tradicional da época, onde uma empresa externa geria os veículos. “Estava desenhado para demonstrar que os fundos podiam operar de maneira independente e fazê-lo de modo a beneficiarem diretamente os seus acionistas”, explicou Bogle, anos antes.

Um ano mais tarde a entidade apresentaria ao mundo o primeiro fundo indexado para investidores: o First Index Investment Trust. Foi classificado de “anti-americano” e “um caminho seguro para a mediocridade”, e apenas reuniu 11 milhões de dólares em ativos. Hoje é o Vanguard 500 Index Fund, um dos maiores da indústria, com 441.000 milhões sob gestão.

Em 1977 dariam outro passo na sua ruptura com os mandatos da indústria ao deixar de comercializar os seus fundos através de brokers, oferecendo-os diretamente ao investidor final. A empresa eliminou as comissões de vendas, um movimento que representou uma poupança de milhões de dólares aos seus participantes.

Bogle foi um transgressor entre os seus pares, com os quais foi muito crítico durante toda a sua carreira profissional. “Devemos ser mais do que uma mera indústria”, insistiu no discurso de 1987. “Devemos elevar-nos face aos standards mais elevados, de confiança e de dever fiduciário. Devemos mudar as nossas comunicações, a nossa estrutura de preço, o nosso produto, e as nossas técnicas promocionais”.

“Jack Bogle transformou o investimento com a clareza da sua visão e o seu apoio incansável aos investidores individuais. A sua filosofia influenciou-me bastante. A sua falta vai ser sentida, mas o seu legado será um melhor futuro para milhões de pessoas no mundo”, declara Larry Fink, CEO da BlackRock. Com uma mentalidade tão simples como os seus fundos, Bogle inspirou desde CEOs a investidores comuns, como resume Fernando Luque , editor da Morningstar na Península Ibérica: “Têm existido poucos avanços mais disruptivos no mundo do investimento e mais lucrativos para os investidores, do que a criação de um fundo que replique o mercado a baixo custo. Algo simples, mas que tinha de ser feito”.

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