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O estado do mercado de obrigações: uma análise do que poderá acontecer nos EUA quando a Fed subir as taxas


Foi há mais de seis anos que a Reserva Federal adaptou a expansão quantitativa (QE) e a política de taxas de juro zero para combater a crise financeira de 2008. Hoje em dia a economia dos EUA está a recuperar e a Fed está num processo de normalização das políticas de forma gradual. O primeiro passo foi moderar o QE, que foi finalizado pela Fed em outubro de 2014. Mais recentemente a autoridade monetária lançou as bases para a subida inicial das taxas de juro dos fundos federais, ao alterar a sua declaração de expectativas na reunião de política monetária de março de 2015, especificando que o futuro dependerá os dados económicos. Isto fez com que os investidores analisassem a fundo os dados, estendendo a subida inicial das taxas até ao final do ano, devido à recente queda no mercado de trabalho, nos gastos do consumo e no investimento empresarial.

Para Keith Wade, economista chefe e de estratégia da Schroders, e para Azad Zangana, economista europeu sénior, “o maior desafio para os mercados virá com a normalização da política monetária da Fed, mas será compensado pela atual provisão de liquidez por parte do BCE e do Banco do Japão”.

Os timings importam menos do que o ritmo de subida das taxas

Embora os investidores pareçam estar obcecados com o momento exato da subida das taxas pela Fed, esse é um ponto menor, na opinião dos especialistas. “Atualmente o banco central espera subir as taxas de juro num ponto percentual de média anual até 2017. Um ritmo tão gradual de subidas de taxas provavelmente não vai desencarrilhar a expansão económica, nem ter um impacto duradouro nos ativos de risco”, assegura David Leduc, diretor de investimentos da BNY Mellon em Standish. Esta é uma opinião da qual partilha Simon Foster, especialista de produto da UBS Global AM. “Não é uma questão do impacto que terá a quantia da subida, mas sim do dia em que essa subida é aplicada”, afirma.

Quais as consequências para os mercados financeiros?

Apesar da Fed esperar aumentar as taxas de juro dos fundos da Fed gradualmente, a política monetária não segue um caminho predeterminado, o que poderá aumentar a volatilidade nos mercados. Para além disso, segundo a presidente da Fed, a trajetória real da política evoluirá ao mesmo tempo que as condições económicas, e o ajuste da política se possam acelerar, abrandar, parar ou inclusive inverter o seu curso, segundo os avanços reais e esperados na atividade real e na inflação. Uma possível razão para injetar esta incerteza é que a Fed é sensível às críticas sobre se ajudou ou não a alimentar a bolha imobiliária quando se comprometeu a aumentar as taxas de juro a um ritmo “moderado” para o início do ciclo de ajuste no período de 2004-2006. Durante esse período a Fed acordou subidas contínuas de 25 pontos base a cada reunião, o que pode ter contribuído não só para manter as taxas de juro de longo prazo baixas, mas também para que os especuladores do mercado imobiliário tomassem riscos indevidos.

Apesar de uma maior incerteza e volatilidade poderem até ser bem-vindas para o funcionamento do mercado financeiro a longo prazo, os especialistas veem como possível que os investidores em ativos de risco sejam dissuadidos quando a Fed começar a subir as taxas de juro. Simon Foster, por exemplo, posiciona-se atualmente com durações negativas no mercado de dívida norte-americana antecipando, precisamente, o golpe que o mercado poderá sofrer perante este evento. “O consenso agora é estar com durações negativas nos EUA, longos em dólares e curtos em euros. Quando as posições se começarem a moderar vai ser a altura em que se começará a gerar volatilidade no mercado”, assegura.

Em todo o caso, as boas notícias prendem-se com a hipótese de existência de um limite sobre quanto poderão subir as taxas de juro das obrigações do Tesouro, neste ciclo. A Fed já reconheceu que a taxa de juro de equilíbrio de fundos da Fed a longo prazo provavelmente será mais baixa do que no passado. Na verdade, segundo as últimas projeções da autoridade monetária, a taxa de juro de equilíbrio dos fundos da Fed poderá baixar até aos 3,5% devido a ventos estruturais que limitam o crescimento, e onde se incluem os factores demográficos que podem mudar, e um menor ritmo do avanço tecnológico.

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