O erro  de comparar obrigações em diferentes divisas ou porque é que a Grécia não se financia tão barato como os EUA


A atitude acomodatícia dos bancos centrais arrastou de novo as obrigações para terreno positivo. Tal é assim que a yield das obrigações do Governo da Grécia caiu abaixo dos 2% pela primeira vez na sua história. É um marco importante tendo em conta que a rentabilidade exigida ao Tesouro americano comparável é apenas ligeiramente inferior. Poderá a Grécia financiar-se mais barato do que os Estados Unidos? Configura um título chamativo, mas na realidade é uma comparação errada porque é necessário considerar dois elementos cruciais: a taxa de juro de cada país e a divisa da emissão.

É relevante porque pode levar a conclusões erradas. Se se aplicasse o mesmo critério a outras premissas básicas, podia parecer que, por exemplo, o custo de vida nos Estados Unidos é mais barato do que na Europa se não tivermos em conta que um dólar americano não vale o mesmo que um euro.

A explicação é simples, defende Joseph Mouawad, gestor especializado em dívida emergente da Carmignac: as taxas de juro em euros estão 2% mais baixas que as denominadas em dólares americanos. Isto é principalmente resultado da diferença entre as taxas que aplica o Banco Central Europeu face aos da Reserva Federal.

Porque importa? Como explica Tom Ross, gestor de obrigações corporativas da Janus Henderson, se um investidor americano comprasse obrigações do governo da Grécia e as cobrisse para o dólar lucrava 1,5%. “Principalmente pelo spread nas taxas de curto prazo”, acrescenta. E vice-versa para um investidor europeu que cubra o seu investimento em Tesouro americano, já que lhe dará uma rentabilidade negativa em euros.

Se fizéssemos a comparação correta – maçãs com maçãs – percebíamos que, com base em dados recentes, a yield das obrigações gregas em dólares era de 5% face aos 2% do Tesouro americano. “Coincide com o spread de 300 pontos base da Grécia e reflete o rating BB do país atualmente”, refere Mouawad.

Os investidores devem extremar a precaução ao investir em dívida de governos a nível global. A yield não é necessariamente igual à rentabilidade no curto prazo”, insiste Catherine Matthews, especialista de produto global da Western Asset, filial da Legg Mason. Mostrou-nos um exemplo do passado mês de junho. Num mês em que todos os preços de obrigações subiram, a rentabilidade a 10 anos (que tinha uma yield de 0,4%) foi superior a 2% enquanto que o bund alemão comparável (que negoceia com uma yield negativa de -0,4%) foi ligeiramente inferior a 1%. Em dólares a rentabilidade do Tesouro americano foi de 1%. Como já explicámos, isso não significa que tenha havido uma aposta melhor que as obrigações alemãs. Porque se a passarmos a euros, a rentabilidade foi, na realidade, negativa, de -1,2% já que o dólar desvalorizou face ao euro em junho.

E porque não é algo que se tem em conta ao investir em ações? Segundo explica Ross, não cobrir a moeda em obrigações representa assumir um risco enorme com a divisa, principalmente tendo em conta que quem investir em obrigações de governo não o faz como estratégia de alto risco. Pelo contrário, nas ações não se costuma cobrir a moeda porque a volatilidade das ações costuma ser maior. “E o retorno potencial é maior e não está limitado como nas obrigações”, acrescenta.

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