“O envelhecimento da população tem impactado o apetite dos investidores por fundos de investimento”


A CMVM divulgou recentemente o seu Relatório Anual Sobre a Atividade da CMVM e Sobre os Mercados de Valores Mobiliários de 2015, onde fala do estado e evolução do mercado global dos fundos de investimento. As conclusões são diversas, mas a concentração da domiciliação dos fundos de investimento nos países desenvolvidos da Europa e nos EUA dá o arranque à análise. Destacando o enquadramento judicial e regulamentar favorável, os requisitos de divulgação de informação e as reduzidas barreiras à entrada, a CMVM justifica assim a preponderância dessa concentração. Também factores demográficos como a cultura financeira da população, ou políticos, como a existência de uma sistema de pensões “com um pendor tendencialmente contributivo, ajudam a explicar a posição cimeira que aqueles polos ocupam neste sector do mercado de capitais”.

Segundo a entidade reguladora a importância dos EUA ocorre sobretudo ao nível dos fundos de ações, já que “enquanto o valor sob gestão deste tipo de fundos representa cerca de 62% do total mundial no segmento de ações, na Europa essa percentagem não ultrapassa os 23%”. No entanto, no que diz respeito aos fundos de obrigações e mistos, as diferenças não são tão acentuadas: “Se nos fundos de obrigações, os EUA e a Europa têm quotas de mercado de 46,0% e 37,2%, respetivamente, nos mistos a percentagem é muito semelhante (respetivamente 39,9% e 39,8%)”. Na opinião da CMVM, estas percentagens são indicativas de que “o sector dos fundos de investimento nos EUA é mais propenso ao risco, em virtude da sua arquitetura legal e institucional, e na maior dispersão do capital acionista das empresas”.

O regulador associa a relevância dos fundos de obrigações e dos fundos mistos na Europa à “importância acrescida do financiamento empresarial por emissão de dívida e à menor dispersão do capital acionista”. “A alteração da estrutura demográfica, questões associadas aos sistemas de pensões em diversos países e a complementaridade entre sistemas de repartição e de capitalização explicam, pelo menos parcialmente, o desenvolvimento que tem ocorrido neste sector”, é referido no relatório. O envelhecimento da população tem impactado o apetite dos investidores por fundos de investimento. No relatório, são destacados dados de 2015 do Investment Company Institue (ICI) que apontam para uma evolução positiva do investimento em fundos por parte da população norte-americana com mais de 65 anos (10% do valor sob gestão em 2000, que comparam com 23% em 2014).

“Dada a correlação positiva entre idade e aversão ao risco, seria expectável o surgimento de fundos com uma política de investimentos mais conservadora na tomada de risco”. No entanto, enquanto os fundos que investem no mercado acionista continuem a representar a preferência dos investidores, a CMVM indica que os fundos de obrigações e mistos, a par com produtos com maturidade definida têm crescido no ranking das preferências.  Adicionalmente, a entidade observa que “muitos investidores, principalmente nos EUA, têm dirigido a sua poupança para Exchange Traded Funds (ETF)”, que segundo dados do relatório representavam cerca de 10% do valor total gerido por fundos de investimento nos EUA em 2015. Isto acontece “em resultado da dificuldade de obtenção de rentabilidade no contexto das baixas taxas de juro, das comissões mais reduzidas pagas à gestão desses fundos e ainda à maior transparência das respetivas carteiras”.

Ativos Sob Gestão de Organismos de Investimento Coletivo Harmonizados e Alternativos​

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No que concerne a evolução dos ativos sob gestão de fundos de investimento europeus, o relatório indica que aumentou 11,3% em 2015, para 12,6 biliões de euros no final do ano com cerca de 82% do valor concentrado na Alemanha, na França, na Irlanda, no Luxemburgo e no Reino Unido. “O aumento de intensidade do programa de quantitative easing anunciado pelo BCE em janeiro de 2015, a manutenção de baixas taxas de juro por um período dilatado de tempo e a grande variedade de estratégias de investimento apresentadas pelos gestores terão aumentado a procura de fundos de investimento perante a dificuldade de encontrar alternativas de aplicação de poupanças a taxas mais elevadas e com menor risco”, explica a CMVM. “As vantagens fiscais concedidas na domiciliação de um fundo, bem como a possibilidade de as unidades de participação poderem ser transacionadas em todo o mercado europeu de acordo com a diretiva UCITS IV25”, explicam que mais de metade do aumento do valor dos ativos sob gestão tenha acontecido nos fundos domiciliados na Irlanda e Luxemburgo.

Oito em cada dez euros do total de ativos sob gestão de fundos europeus investem em ativos da Zona Euro. “Os investimentos em instrumentos de dívida estavam maioritariamente concentrados em emitentes da Zona Euro (um pouco mais de cinco em cada dez euros) e, dentro destes, 47,7% respeitavam a dívida pública, 36,5% a dívida de emitentes financeiros, 1,0% a investimentos em dívida de companhias de seguros e fundos de pensões, e os remanescentes 14,8% a aplicações em emitentes não financeiros”, desagrega o regulador no seu relatório. Já nos investimentos efetuados em dívida fora da Zona Euro são as empresas norte-americanas que apresentam uma maior ponderação. Por outro lado as aplicações em ações apresentam uma preponderância de “empresas não situadas na Zona Euro (63,6%), nomeadamente norte-americanas, europeias e japonesas”. Na Zona Euro as aplicações estavam “fundamentalmente centradas em empresas não financeiras (78,8%)”.

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