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O Dilema do Copo de Água


Depois da recente e forte recuperação dos mercados financeiros, com o MSCI World a recuperar mais de 25% no último mês e meio, mantêm-se muitas dúvidas sobre o que esperar nos próximos tempos em matéria económica e sobre o comportamento dos mercados financeiros.

O dilema do copo de água é uma boa ilustração para se medir a dificuldade de se extrapolar um cenário minimamente credível nesta fase de permanente incerteza. Mas atenção, se porventura a presença de incerteza obriga a uma certa prudência, há que ter cuidado com a excessiva assimetria dessa elação, na medida em que num cenário de grande imprevisibilidade  como este, quase tudo pode ocorrer…

A evolução da pandemia na China e o comportamento da sua economia ajuda-nos a antecipar uma linha do tempo. No entanto, temos de ter sempre em consideração, que o regime chinês é autocrático, que os dados nem sempre são fiáveis e que a estrutura da sua economia é muito diferente das economias ocidentais, simplesmente porque depende muito menos do consumo privado e tem menos peso no setor dos serviços. De facto, este último ponto é importante quando por exemplo comparamos a estrutura da economia chinesa com a da economia americana.

Na China, a soma do setor industrial com o setor de construção representa cerca de 40% do PIB (Fonte: NBSC), enquanto nos EUA estes dois setores no seu conjunto representam cerca de 18% (Fonte: BEA). Por seu turno, o peso do consumo privado na China apenas representa cerca de 39% do PIB, enquanto nos Estados Unidos esse valor é equivalente a 68% do PIB.

É com base neste contexto que vamos tentar analisar o que esperar do comportamento da atividade económica no ocidente durante as próximas semanas, tendo por base duas distintas visões, a do copo de água meio vazio e a do copo de água meio cheio.

A análise do copo de água meio vazio diz-nos o seguinte:

- Em primeiro lugar, que o impacto económico no ocidente pode ser mais expressivo que na China, dada a estrutura do PIB, uma vez que a restauração e o turismo são setores que detêm menos importância do PIB.

 Em segundo lugar, esta estrutura do PIB chinês e o menor nível de endividamento, vai permitir que a economia recupere mais depressa e que sofra consequentemente menores danos colaterais, como falências e incumprimentos, do que no ocidente.

- Em terceiro lugar, no ocidente a queda do PIB do primeiro e do segundo trimestre pode ser mais elevada que o inicialmente estimado, o que consequentemente poderá afetar mais negativamente os resultados empresariais.

Por fim, o gradual levantamento das medidas de confinamento não vai ainda normalizar os serviços mais afetados e o denominado risco de cauda,  associado a uma segunda vaga, existe. Aqui o copo de água pode quebrar e perder toda a água…

A análise tendo por base o copo de água meio cheio diz-nos:

- O mês de abril foi o pior mês de atividade económica e nesse sentido o pior já passou. Os dados de abril dos índices de atividade PMI’s dos serviços, publicados na semana passada, ilustram isso mesmo.

- O segundo ponto, é que os Bancos Centrais e os governos têm-se desdobrado na aplicação de estímulos e políticas atempadas e assertivas.

- O terceiro ponto, é que dado os elevados níveis de liquidez, as favoráveis condições de acesso ao crédito e o facto deste choque não ser recorrente, pode-se esperar por um nível elevado de regeneração económica, onde falências, geram novos negócios.

Por fim, não se pode também subestimar o risco de cauda que está presente numa adoção de um medicamento mais eficaz para o combate ao vírus, ou numa descoberta de uma vacina. Aqui a água no copo pode transbordar e irrigar o sentimento…

Desde este ponto de vista o dilema do copo de água torna-se uma análise intuitiva de se fazer,  mas de difícil escolha. Apesar de todos querermos achar que o copo de água está meio cheio, depois da recuperação dos mercados, é altura de esvaziar um pouco o copo e beber um pouco dessa água, para termos maior resistência para a caminhada que ainda se avizinha.

Mergulhados neste dilema binário do copo de água  e independentemente de se ter uma visão construtiva a médio prazo no mercado acionista, no curto prazo alguma incerteza persiste. De um ponto de vista de gestão global de riscos e tendo em conta o forte alargamento dos spreads de crédito e o posicionamento comprador dos Bancos Centrais nesta classe de ativos, faz sentido reduzir alguma exposição aos mercados acionistas globais e incrementar a exposição a crédito.

Se algumas destas incertezas se dissiparem e mesmo que os mercados acionistas subam, seguramente que vai haver muito a tempo para aumentar exposição ao mercado acionista global e de fazer a água transbordar do copo. Mas se porventura os mercados voltarem a cair, vamos ter a oportunidade de calmamente voltar a encher mais o copo.

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