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O dilema da procura por fontes de rendimento e as duas soluções para o problema


Já ocorreram mais de 200 quedas nas taxas de juro em todo o mundo desde 2008 e a verdade é que, se houve uma coisa que não mudou nestes dez anos de crise, é que os investidores ainda estão ávidos por rentabilidade. É o que demonstrava uma sondagem da Schroders em 2016: 41% dos inquiridos procuravam um retorno de pelo menos 8% dos seus investimentos e cerca de metade da amostra queria obter pelo menos 6%. O grande dilema que tanto os investidores como as gestoras se devem deparar este ano é precisamente conseguir obter rendimento sem pôr em risco a sua carteira. Dorian Carrell, gestor da Schroders, analisa todas as implicações deste desafio.

O especialista começa pela fonte tradicional de rendimento: o cupão das obrigações. Segundo os seus cálculos, hoje as obrigações devem oferecer um retorno de mais de 4%, partindo do pressuposto de que o investidor irá recuperar pelo menos o que pagou. No entanto, “muitas – que não são a maioria – das obrigações estão a cotar acima do seu valor de reembolso, o que significa que qualquer investidor que mantenha a obrigação até à sua maturidade tem garantida uma perda de capital”, alerta Carrell.

Apresenta um exemplo para que se possa entender melhor a sua teoria. Supondo que um investidor compra uma obrigação por 105 dólares, pela qual vai recber um cupão que representa 4% de rentabilidade sobre esse valor. Mas depois, quando a obrigação chega à maturidade, o investidor apenas recupera 100 dólares. “Ainda que os níveis gerais de retorno (ou rendimento corrente) possam parecer atrativos, provavelmente é mais importante centrar-se no rendimento na maturidade, que tem em conta esta perda de cinco dólares e que quase de certeza será bastante mais baixo”, explica o gestor.

Com base nesta observação, a sua primeira conclusão é que, ainda que continue a existir a possibilidade de comprar obrigações a um melhor preço, os investidores devem alterar as suas prioridades: “Evitar tais perdas depende agora muito mais do momento do mercado e da seleção de obrigações do que no passado”.

O segundo ponto exposto por Carrell, ainda nas obrigações, é que os investidores devem prestar tanta atenção aos preços como à qualidade das obrigações disponíveis. Trata-se de uma observação que outras vozes da indústria também já fizeram eco, como por exemplo a equipa de obrigações da Franklin Templeton ou Jim Leaviss, diretor de obrigações da M&G Investments.

O especialista da Schroders dá como exemplo neste caso a evolução do mercado da dívida norte-americana com grau de investimento. “Quase metade do universo que está classificado por agências de rating está agora classificado na parte inferior do espectro de grau de investimento (BBB), em comparação com menos de 30% que tinha no final da década de 1990”.

Segundo o especialista, “estas dinâmicas de mudança empurraram os investidores para ativos com maior rendimento”. Carrell vê prós e contras nesta tendência: “Ainda que esses ativos provavelmente sejam menos sensíveis às subidas das taxas de juro, podem ser mais sensíveis às taxas antecipadas de incumprimento e às condições de financiamento, ao oferecer menos proteção em forma de capacidade financeira do emissor”.

A terceira questão observada pelo especialista é que a procura por rentabilidade também está a provocar uma concentração setorial. Continuando com o caso da dívida norte-americana com grau de investimento, Carrell explica que “os investidores que querem um rendimento de 3,5% ou superior estão obrigados a comprar dívida financeira subordinada e do setor de matérias-primas”, um padrão que também se pode observar de forma semelhante noutros mercados do mundo.

Em resumo, atualmente “a dependência dos investidores de um conjunto decrescente de obrigações de alto rendimento chega a um momento em que os fundamentais corporativos estão a começar a parecer vulneráveis”. Se é certo que a maior parte dos emissores de dívida ainda são capazes de cobrir o pagamento de juros de uma forma “relativamente confortável”, segundo o gestor; o problema é que “o stock total da dívida viva cresceu durante alguns anos”, o que significa que “o mercado pode ser vulnerável até a pequenos movimentos, tanto a partir das taxas de juro como da liquidez fornecida pelos bancos centrais”.

O que se passa com as ações?

A outra grande fonte tradicional de rendimento são as ações; de facto, a longo prazo, os dividendos proporcionaram mais de dois terços dos retornos reais (ajustados à inflação) das ações norte-americanas e cerca de 90% no caso das ações britânicas. Assim, resta questionar se a capacidade para gerar lucro nesta classe de ativos é tão desanimadora como o panorama pintado pelo gestor para as obrigações.

“Até agora, a rentabilidade por dividendo manteve-se em alta em muitas regiões. Com rendimentos semelhantes e difíceis de encontrar noutras partes, os investidores procuram ações que paguem altos dividendos. Em geral, as empresas de mercados desenvolvidos responderam no sentido de manter os seus apoios às retribuições”, resume o gestor.

No entanto, a procura incansável por rendimentos também teve consequências sobre esta classe de ativos; Carrell denuncia que “o nível de concentração nos índices de alto dividendo é impressionante”. Apresenta um dado: 50% da capitalização do índice MSCI Europe High Dividend Yield Index está monopolizado pelos dez valores com maior peso. A concentração também é evidente por setores: uma quinta parte do rendimento do dito índice procede unicamente dos valores financeiros.

Como devem atuar os investidores neste contexto? O gestor dá dois conselhos. O primeiro é centrar-se menos na procura por muita rentabilidade e mais “no nível sustentável dos rendimentos”. O segundo consiste em procurar diversificação: “Quanto mais diversificadas forem as fontes de rendimento, mais resistentes a possíveis choques serão as carteiras”.

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