O despertar do coma induzido e o elefante que não se vai


Não há hoje em dia uma conversa que não acabe a mencionar o convidado surpresa de 2020. Quando há 6 meses se falava de uma década de potencial euforia económica, talvez até de uns novos “loucos anos 20”, ninguém pensava que a “crisezinha” que andava a consumir Wuhan na China se fosse tornar muito mais do que isso, um evento maioritariamente local similar à Gripe A, sem desprimor para as vítimas dessa tragédia.

Nunca na história do nosso passado recente tínhamos tido um evento tão transformador como quando os governos disseram: “parem tudo o que estão a fazer, e fiquem fechados em casa!”. As expressões sobre “cidades que nunca dormem” perderam a sua validade lógica e todo o mundo entrou num coma induzido profundo.

Mas como em qualquer paciente em coma, enquanto as suas células, desta feita as pessoas, combatem as suas maleitas, o corpo acumula outros males, como a atrofia muscular ou dificuldades de relacionamento social por ficarem estáticos quando o mundo à sua volta gira, e é exactamente isso que nos espera.

A paragem de 2 meses representou c. 16.6% do ano, e consequentemente da sua produção. Deverá ser sem surpresa que, com a quase completa estagnação que nos foi imposta por causa do elefante na sala, as projecções económicas apontem já para decréscimos do PIB na ordem dos 10% para a generalidade do mundo desenvolvido (Portugal c. -9.4%). Naturalmente este impacto imposto e passageiro tem efeitos duradouros. De acordo com o Economist 1/5 dos trabalhadores das 5 principais economias Europeias foram postos nalgum tipo de layoff, em Portugal números apontam para pedidos na casa dos 1,2m ou cerca de 25% da população empregada, e em economias mais trabalho-intensivas os números deverão ser ainda piores. As projecções económicas fazem naturalmente o seu papel esperançoso de que se tornem em profecias auto-realizáveis e o impacto fique por aqui, com a recuperação a começar vigorosamente já no próximo ano. Mas será que recuperamos a um ritmo elevado e o impacto será apenas na ordem dos 10%? Esperemos que sim…

Por um lado alguém vai ter de pagar a factura do extra que os estados estão a gastar, por outro, não obstante essas tentativas de salvar o emprego e a economia, a experiência de recuperação da China tem-nos mostrado que pode demorar meses, mas as falências e o desemprego deverão aparecer.

De facto 2020 tem sido o ano de ter os olhos postos na China. Se em Janeiro o mundo olhava para a China surpreendido com as “anti-democráticas” políticas de confinamento forçado, mas com a esperança de que não “espirrassem” para cima do mundo, agora olha para a China como o trailer do filme que vão viver no pós-confinamento e, alerta de spoilers, não é o filme que quereríamos ver.

Recentemente um artigo do Economist deu o título ideal para esse filme de terror: “The 90% Economy” (in Economist 30 de Abril 2020). Sem surpresa, o levantamento das restrições não levou à recuperação do consumo que havia antes. De facto, como se o impacto directo das medidas de contenção não fosse já naturalmente nocivo para os negócios pela impossibilidade de operarem, mais nociva, pelo efeito mais duradouro, é a “auto-contenção” da população por medo de se contaminarem e do futuro. O mesmo Economist refere um estudo (Andersen et al 2020 “Pandemic, Shutdown and Consumer Spending: Lessons from Scandinavian Policy Responses to COVID-19”) que compara o consumo entre a Dinamarca, que impôs fortes medidas de contenção, e a Suécia que, fruto também da sua constituição, optou por uma abordagem mais voluntária. O resultado surpreende. Apesar de preservarem o direito e a capacidade de consumir, os Suecos reduziram o seu consumo numa proporção pouco menor que a dos Dinamarqueses (c. -29% vs. -25%). O que a experiência na China e o exemplo da comparação entre a Dinamarca e Suécia nos indicam, é que o governo pode voltar a permitir tudo, pode até incentivar, apelar, implorar que as pessoas voltem a consumir como antigamente no pós-confinamento, mas isso poderá não ter grandes efeitos enquanto a população estiver com medo.

Como tantas outras coisas que dão artigos inteiros em si mesmos, como o choque-tecnológico auto-imposto e o advento do teletrabalho, teleescola e todas as implicações transformadoras que isso vai ter em termos de vivência, de emprego estrutural e produtividade, não é difícil perceber que os efeitos transformadores de cariz potencialmente duradouro têm também um efeito intensificador de desigualdade. São os países baseados em serviços mais trabalho intensivos, e naturalmente os obreiros desse trabalho (trabalhadores da restauração, hotelaria etc.) que estão já nas franjas menos abonadas da população, que se vão ver mais facilmente despojados dos seus trabalhos do que aqueles que como nós, afortunadamente, se viram com a possibilidade de manter um trabalho quase igual a partir de casa.

Como os dados parecem ilustrar, estes efeitos negativos são resultado do comportamento humano, com toda a sua imprevisibilidade, e a esta incerteza de como os agentes se vão comportar, junta-se naturalmente a incerteza das respostas governamentais, a certeza de que estas terão de ser financiadas ou com dívida ou com mais impostos, provavelmente ambas, e pior, a incerteza quanto à eficiência de qualquer medida, as de confinamento incluídas, no advento de uma potencial “2ª vaga”. A OCDE aponta já previsões macroeconómicas para um cenário de 2º confinamento (“double-hit scenario”) que, generosamente, veria a economia Portuguesa, por exemplo, decrescer 11.2% ao invés de 9.4%, ou a Espanhola 14.4% em vez de 11.1%. E todos sabemos que, mesmo com a manutenção dos factores que há 6 meses me faziam escrever sobre uma potencial década de euforia económica, particularmente a enorme disponibilidade de capital barato pronto a investir e a precisar desesperadamente de retornos, não há maior inimigo do investimento que a incerteza.

É certo também que temos instituições financeiras em melhor estado que em 2008, e que a crise tem uma natureza diferente. É por isso crível que a recuperação possa ser menos demorada que a anterior, contudo com os comportamentos retraídos do pós-confinamento ou da Suécia como exemplo, também não é difícil temer que pelo contrário seja tudo mais lento e dependente das pessoas perderem o medo.

Tal como as previsões macroeconómicas, também este tipo de artigos têm o seu papel na formação de opinião e consequentemente nas expectativas de agentes económicos. É por isso compreensível que consultores, brokers, profissionais de investimento, institutos de estatística, colunistas, media em geral, cedam à tentação de usar uns óculos com lentes cor-de-rosa (se estas estatísticas não são já o resultado disso como aparentam) e procurem uma abordagem de “Fake it ‘till you make it” dando tranquilidade aos agentes para que acreditem que nada vai ser assim tão mau e por isso se tranquilizem, comecem a consumir e investir e se possa de facto mitigar a recessão e acelerar a recuperação, com a imprescindível disciplina sanitária.

No entanto, poucos nos últimos tempos têm revelado preocupação económica e poucos nos media ou nos governos têm contribuído verdadeiramente para tranquilizar a população. Não procuro questionar se é a postura correcta ou entrar no debate sobre as pessoas deverem ou não estar preocupadas com a doença, nem sequer argumentar que do lado sanitário a resposta seria melhor ou pior se as pessoas não estivessem tão preocupadas, isso deixo para os especialistas nesses temas.

Como profissional de investimento procuro apenas partilhar que, à luz do já exposto, não é tendo medo do “elefante na sala” que se vai partir menos louça, ou que vamos poder começar a arrumar o que ele já partiu. Para que haja recuperação económica precisa de haver recuperação de investimento e principalmente de consumo, o que deverá acontecer com a redução do pânico. Desta feita a redução do pânico não está nos que apontam para os bisontes à porta da sala (i.e. o perigo da recessão se não fizermos nada), nem para os que dizem que afinal não há bisontes fora da sala (i.e. a economia vai recuperar muito bem, por isso quando o elefante sair vai ficar tudo como antes – também conhecidos como crentes da recuperação em “V”), mas sim para os que podem ensinar a conviver com o elefante como se ele lá não estivesse, para irmos arrumando a sala o melhor possível enquanto esperamos que ele se vá embora, ou lhe arranjamos um cantinho onde incomode menos.

Por isso, a perspectiva de até ao final do ano deixarmos de falar no elefante apocalíptico e passarmos a falar em atingir uma normalidade tão próxima da anterior quanto possível, ainda que em disciplinada convivência com o dito paquiderme, deverá ser partilhada por todos, incluindo os EUA após as eleições deste ano e o esperado fim da longa fase de “negação” que ainda atravessam. Parece difícil, mas não pode ser impossível…

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