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O custo de investir em dívida pública com rentabilidade negativa


As tensões entre a China e os EUA, a crise política de Itália, a previsível vitória do peronismo nas eleições argentinas em outubro ou a iminente recessão que paira sobre a locomotiva europeia, a Alemanha, são só algumas das razões que levaram a que acontecesse a temida inversão da curva, um facto económico que historicamente precede uma recessão. São muitos os especialistas que pedem calma e que sublinham que esta profecia não tem motivos para acontecer desta vez, tendo em conta o papel de "parapeito" que os bancos centrais desempenharam nos últimos anos e que, a julgar pelas suas ações (e palavras) nas últimas reuniões, continuarão a desempenhar pelos menos mais uns anos.

Mas os investidores não se fiam na eficácia de novos cortes de taxas como o que foi anunciado em julho por parte da Fed, ou do impacto que novos programas de estímulos podem ter nos mercados onde faltam notícias positivas. Por isso, nas últimas semanas ativaram o modo risk off ao vender ativos de risco e ao comprar ativos mais seguros como o ouro e, sobretudo, dívida pública governamental. Em apenas 20 dias os índices de obrigações, com exceção de high yield, acumularam rentabilidades que alcançaram os 2% face ao aumento do preço de muitas obrigações e à consequente queda da sua rentabilidade. Até países como a Alemanha se atreveram a lançar obrigações a longo prazo (30 anos) com cupões de 0% pela primeira vez na sua história. “Na zona euro 60% das obrigações governamentais estão em território negativo e a nível global uma em cada três obrigações têm rentabilidades negativas”, resume Hans-Jörg Naumer, diretor global de mercados capitais e investimento temático da Allianz Global Investors.

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O que esta política de taxas 0, que se está a prolongar mais tempo do que se esperava, implica deve ser analisado a partir de dois pontos de vista. O primeiro é o que o devedor beneficia de taxas baixas que lhe permitem continuar a endividar-se, mas a um custo de financiamento mais atrativo do que no passado. Já para o aforrador ou investidor torna-se mais difícil obter rentabilidades nos seus investimentos e manter o seu poder de compra. Segundo explicam na Allianz “não se trata só de analisar as rentabilidades nominais, também é preciso ter em conta o impacto que a inflação tem no poder de compra”. De facto, esse impacto fica muito claro no seguinte gráfico que demonstra o que representa um investimento de 100 euros em diferentes obrigações a distintos prazos e tendo em conta uma inflação de 2%.

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E esta situação não é temporária já que, como explicam na gestora, “não há nenhum sinal que permita pensar que esta tendência vai acabar. Pelo contrário, tendo em conta a tendência económica e as projeções de inflações baixas, tanto a cinco como a dez anos, é previsível que se mantenha a mesma política monetária que o BCE levou a cabo”.

Não obstante, é preciso ter em conta que as fontes de rentabilidade de obrigações são duas. A primeira é esse cupão, que pende cada vez mais para território negativo, e a segunda é o comportamento do mesmo no mercado secundário. Este último é o que explica que não sejam poucos os investidores que até com um mercado de dívida com cupões a vermelho tenham conseguido ganhar dinheiro. De facto, segundo os dados da Morningstar, só este ano os fundos de dívida pública em euros já registaram rentabilidades médias que vão desde 1,27% nos prazos mais curtos até 7,2% em obrigações governamentais a longo prazo.

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