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“O BCE e os seus dilemas…”


Depois da decisão do Banco Central Europeu de prolongar o prazo para a compra de ativos num menor grau no final do ano passado, na reunião de hoje o BCE poderá dar mais um passo para uma maior perceção da inevitabilidade de um regresso a uma maior normalidade da política monetária na zona Euro.

Desde outubro que Mário Draghi, começou a dar pequenos sinais de maior otimismo, apesar de nunca baixar a guarda, sempre com bastante ênfase nos riscos de deflação e de abrandamento económico. No entanto, nas últimas duas reuniões foi dizendo que a política monetária já tinha desempenhado por completo o seu papel de combate à fragmentação financeira, devolvendo de novo capacidade à economia para recorrer ao crédito, sendo que em dezembro último, fez mesmo questão de referir que os riscos de deflação se tinham mitigado.

Nesta primeira reunião do ano e em face dos dados recentes de atividade económica, da recuperação generalizada dos índices de confiança económica nos Estados membros, da lenta, mas progressiva melhoria dos dados do emprego e da inflação, eventualmente Mario Draghi levantará um pouco mais a guarda. De facto, é muito previsível que em março a inflação europeia esteja a correr acima de 1,5%, enquanto que a taxa de desemprego manterá a sua tendência de descida.

Mas para além da descida do desemprego e da subida da inflação, constata-se que a política monetária devolveu aos Estados a capacidade efetiva de enveredar por políticas fiscais expansionistas que incrementam mais emprego e maior atividade económica. A prova disso foi a recente divulgação pelo Bundesbank dos dados preliminares do crescimento económico na Alemanha em 2016, que no essencial demonstram uma forte expansão fiscal, com o consumo público a crescer 4,2% durante o mesmo período.

Tendo em conta os objetivos já alcançados pela política monetária do BCE, a discussão ao longo de 2017 irá estar centrada na melhor forma de garantir uma gradual remoção dos estímulos monetários, sem que se coloque em causa a dinâmica da economia e o processo em curso de geração de uma inflação baixa, mas sustentada. Cabe por isso ao BCE continuar a garantir a sua independência, mas também a sua credibilidade, forçando-se a encontrar a melhor estratégia para a utilização mais adequada dos instrumentos disponíveis.

Um dos tabus que esta crise debelou, foi a limitação do raio de ação dos Bancos Centrais, ao emergirem novos instrumentos de política monetária, que gradualmente foram perdendo a sua fama de menos ortodoxos, conferindo assim uma maior flexibilidade de ação aos Bancos Centrais.

Após a última reunião de dezembro do BCE, pouco ou nada ainda discorreu sobre a importância da desvinculação que emergiu entre a taxa de depósito e o programa de compra de ativos do Banco Central Europeu, possibilitando agora que o BCE compre ativos com rentabilidades inferiores à taxa de depósito, mas abolindo também a perceção de qualquer correlação ou dependência entre estes dois instrumentos, a taxa de depósito e o Quantititave Easing.

À medida que o cenário de risco de deflação dá lugar a um cenário de risco global mais inflacionista, o BCE para evitar a estagflação estará mais focado em evitar uma subida descontrolada das taxas de juro reais de longo prazo, assegurando que os Estados e as empesas prossigam com a reestruturação passiva da dívida e muito mais disposto a fazer subir as taxas de juro reais de curto prazo, uma vez que, estas últimas se encontram cada vez mais em terreno negativo com a subida da inflação. Esta discussão vai certamente acompanhar-nos ao longo dos próximos meses, uma vez que, os mercados financeiros encaram quase como um tabu a remoção gradual da política de taxa de juro de depósito negativa, como se esta decisão tivesse totalmente dependente do fim do Quantitative Easing.

Mas o que a realidade nos tem recentemente vindo a demonstrar é que as taxas de juro negativas com um caráter mais permanente podem ser contraproducentes e na Europa estas já estão presentes há mais de dois anos e meio, tendo várias consequências. As taxas juro negativas limitam as opções de poupança, em face da incapacidade de se gerar retorno nas aplicações de menor risco, o que numa população envelhecida com um menor rendimento real com a subida da inflação, obriga a um aumento da propensão marginal para poupar em detrimento do consumo para salvaguardar um equivalente nível de vida no futuro; afunilam as expetativas de retorno das empresas eficientes ao subsidiarem literalmente a atividade de empresas Zombies, o que na prática se traduz numa quebra do investimento e numa menor produtividade, e por último, estrangulam a capacidade do sistema bancário gerar retorno, impedindo-o de ser um canal propulsionador da atividade económica.

Neste contexto de normalização global da política monetária, o BCE enfrenta um risco crescente de credibilidade da sua política, sendo que o NegExit não é um mero exercício de ficção, é simplesmente e cada vez mais, uma questão de bom senso.

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