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O BCE começa a mudar a sua forward guidance: primeiras reações à mudança de discurso


A realidade da recuperação económica na Europa reflete-se finalmente no discurso de Mario Draghi. Na reunião do BCE, celebrada desta vez em Tallin, na Estónia, o presidente da instituição realizou várias declarações notáveis que refletem o longo caminho percorrido pelo BCE desde que assumiu o comando em 2011. Draghi afirmou no seu discurso que “os riscos para as previsões do crescimento estão agora mais equilibrados”. Também indicou que “a recuperaçãoo global está apoiada cada vez mais no comércio e as nas exportações da Zona Euro”, e realizou várias alusões à robustez do momento económico na região. Durante a conferência de imprensa posterior ao discurso, o presidente da autoridade monetária declarou categoricamente, “o risco de deflação desapareceu definitivamente”.

O discurso de Draghi trouxe consigo outra grande novidade em termos de linguagem: se bem que – como costuma fazer – indicou no início da sua intervenção que o BCE manterá a sua política monetária sem alterações, sendo que nesta ocasião já não mencionou que as taxas continuarão baixas por um longo período de tempo. “É exatamente o que que estávamos à espera. Há alguns ajustes na linguagem sobre os riscos na economia e as previsões de subida das de taxas de juro. Mas não é muito”, afirma Patrick O’Donnell, gestor sénior da Aberdeen.

Draghi fez finca-pé várias vezes ao longo do seu discurso e durante a conferência de imprensa posterior na trajectória da inflação, para justificar a necessidade de que o BCE mantenha a sua política monetária acomodatícia. O banco central baixou as suas previsões de inflação: de 1,7% para 1,5% para este ano, de 1,6% para 1,3% em 2018 e de 1,7% para 1,6% em 2019. Draghi explicou que esta revisão reflete a dissolução do efeito de base provocado pela subida do preço do petróleo e dos alimentos no ano passado, assim como a baixa trajectória da inflação subjacente.

O presidente o BCE tentou mandar uma mensagem positiva, ao afirmar que a expectativa da instituiçãoo é que a inflação geral e subjacente convirjam ao longo do tempo. A previsão da entidade é que vai haver crescimento, ainda que com menor inflação, e baixou as suas projecções sobre a estabilidade dos preços. Optou por elevar numa décima os seus cálculos sobre o PIB real para 1,9% em 2017, 1,8% em 2018 e 1,7% em 2019.

Draghi reforçou a necessidade de “paciência” e esperar pelo reflexo das reformas laborais na inflação salarial; “confiança” perante a redução dos tail risks que têm assombrado a Zona Euro no passado, e “persistência”, mantendo-se sem mudanças na política monetária atual para manter a solidez da recuperação. Também realizou os seus pedidos habituais de que se continue a aprofundar as reformas estruturais na Zona Euro.

O BCE está, essencialmente, em modo de espera, aguardando por dados de inflação mais positivos. Não há apetite por arriscar conter o crescimento que se tem visto ultimamente”, afirma o gestor da Aberdeen. Este conclui que “não fazer nada será provavelmente a decisão correta por agora”. No entanto, adverte que “o BCE tem sido dolorosamente lento a reagir às condições económicas”, pelo que acredita que há que esperar por setembro “para ver se decidem mudar de rumo”.

E agora?

Andrés Sánchez Balcázar, gestor da Pictet AM, vê como provável que o seguinte passo da instituição seja que se anuncie em setembro que se começará em janeiro de 2018 a reduzir em 10.000 milhões de euros as compras mensais “terminando as aquisições em julho de 2018”. “Há que ter em consideração que a quantidade de dívida do governo finlandês e alemão elegível para o programa de compra de obrigações dá para cerca de um ano antes que se alcance o limite de 30% da dívida total desses países”, acrescenta Sánchez Balcázar.

O gestor declara, deste modo, que “é previsível – tendo em conta a pressão da Alemanha – que comece a subir taxas de juro em setembro de 2018”, mas somente se o PIB da Zona Euro crescer ao ponto de alcançar os 2,5%. Por outro lado, o especialista descarta que a taxa negativa de depósitos seja modificada “até que tenha deixado de comprar obrigações”.

Para François Rimeu, diretor de Cross Asset na La Française AM, a questão mais importante sobre a reunião do BCE é uma que tem estado por responder: a estratégia de saída. “Que tipo de melhoria necessita o BCE do lado da inflação para reduzir o QE? Se escutarmos Coeuré, não precisamos de muito, mas se escutamos Draghi ou Praet, ainda necessitamos de mais provas”, observa Rimeu.

O principal objectivo do BCE nos próximos meses será encontrar a forma de aligeirar o seu programa, sem deixar que uma dubida das taxas comprometa a recuperação que se inicia”, corroboram Lionel Melin e Jeanne Asseraf-Bitton, respetivamente estratega sénior Cross Asset e responsável global de análise Cross Asset da Lyxor AM. Ambos os especialistas afirmam que “há muito em jogo para que o BCE atue rapidamente e sem cuidado”. Por outro lado, acreditam que, possivelmente, a instituição adote uma estratégia dovish semelhante à da Reserva Federal: “Manter um tom esperançoso sobre o crescimento para estimular o otimismo, mas comprometer-se com a acomodação de muito longo prazo para manter as taxas baixas".

Mesmo que a dupla de especialistas espere também que seja anunciado algum tipo de tapering em setembro ou dezembro, acreditam que, provavelmente, não seja anunciado em termos concretos "e que se insistirá que as decisões dependerão dos dados".

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