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Nuno Gaioso (APCRI): “Mesmo com as condicionantes de liquidez, acreditamos que em 2018 a indústria de capital de risco irá continuar a crescer”


Tal como diversas outras formas de investimento, o Capital de Risco tem as suas origens nos Estados Unidos, mais precisamente no pós-guerra. Ainda que conte com uma longevidade reduzida, hoje é uma indústria com um volume de ativos significativo, em grande parte concentrado, claro está, nos Estados Unidos, que representam 60% do total do mercado. O mercado europeu, por sua vez, representa 25% e o mercado asiático cerca de 13%.

Nuno Gaioso, presidente da Associação Portuguesa de Capital de Risco, acredita que esta é uma indústria bastante robusta e com provas dadas do ponto de vista da remuneração dos investidores e da sustentabilidade das empresas onde investe. “Por um lado, este segmento tem atingindo médias de remuneração acima dos 10%, quer globalmente, quer no mercado americano e europeu. Por outro, há estudos recentes realizados na Europa que comprovam a sua eficácia do ponto de vista da melhoria da produtividade, competitividade, inovação e redução da taxa de mortalidade nas empresas onde investe”, explica.

Mercado nacional jovem e imaturo

Quanto ao mercado nacional, o presidente da APCRI constata que o mercado para além de ser pequeno, “tem uma indústria ainda jovem e imatura, uma vez que os primeiros operadores independentes neste segmento surgiram apenas neste milénio”. Não obstante, conta já com 4,5 mil milhões de euros em ativos sob gestão em Portugal, sendo ainda estimado que existam mais cerca de 1,5 mil milhões de euros de operadores portugueses com fundos sediados no estrangeiro. No que diz respeito à evolução do sector, Nuno Gaioso caracteriza-a como uma “evolução contraciclo”. Isto porque “os anos de maior captação de recursos foram no pós-crise (2008, 2009 e 2010), e após este período, registou-se um arrefecimento, um pouco ao contrário do que é o panorama Europeu, que agora tem crescido”, começa por dizer o especialista.

As razões para esta evolução, segundo este, estão relacionadas com duas questões: liquidez e a composição do volume de ativos sob gestão. “Cerca de dois terços dos ativos sob gestão correspondem àquilo a que nós chamamos de fundos de reestruturação, ou seja, foram fundos que foram utilizados para resolver um problema crítico que ainda subsiste que é o problema dos non-performing loans”, explica, acrescentando que “se olharmos para o montante total dos 4,5 mil milhões, hoje não haverá nem 5% desse total em liquidez para investir”.

Neste sentido, considera que existe um problema de oferta no mercado nacional: “A indústria tem uma oferta variada mas, em Portugal, estamos muito concentrados no segmento de fundos de reestruturação que, sendo importante, não é o único segmento, e estamos sem capacidade de resposta para outros segmentos”, destaca. Quanto à crescente mediatização das start-up’s, Nuno Gaioso afirma que é necessário perceber que estas, embora sejam importantes do ponto de vista do rejuvenescimento do tecido empresarial, não representam nem 10% do produto interno bruto, do emprego gerado ou do total de empresas. Neste sentido, deixa claro que “hoje não podemos olhar, como foi feito nos últimos anos pelo Estado, para a indústria de Capital de Risco para como aquela que apenas resolve os grandes problemas na reestruturação ou incentiva os projetos pequenos de start up’s. Porque sendo verdade que estes dois extremos/segmentos são importantes, a generalidade das empresas está algures no meio”.

Perspetivas de crescimento em 2018

Este novo ano, na ótica do presidente da APCRI, será de continuação do crescimento da indústria, ainda que a um ritmo mais baixo do que o pretendido. Por outro lado, perspetiva-se a continuação da tendência verificada recentemente, com os operadores independentes a tomarem conta do volume de ativos sob gestão, substituindo os anteriores operadores chamados captivos – o Estado e os Bancos.

Ainda assim, esta questão é um dos desafios que a Associação tem vindo a enfrentar. “É necessário abrir a indústria a investidores clássicos da indústria, que, em Portugal, por alguma razão não investem”, afirma, destacando, ainda, que “o investimento de operadores de capital de risco tem efeitos muito positivos em três níveis – na capitalização, na profissionalização da gestão e na abertura ou exposição internacional das empresas”.

Mas que investidores clássicos são estes? Quase em tom de brincadeira, Nuno Gaioso destaca que os fundos de pensões surgem em primeiro, segundo e terceiro lugar, em termos de importância. E explica porquê: “Hoje, grande parte do aforro gerado para alimentar o sistema de pensões é recolhido no sistema por bancos e fundos, que depois é aplicado em produtos financeiros, como obrigações e produtos de baixo perfil de risco que, hoje em dia, sabemos que têm retorno baixo. Depois, há uma parte que é muito pequena (entre 5% a 10%) que pode e deve ser aplicada em produtos de maior risco, mas com um potencial de rentabilidade mais interessante para compor rentabilidades médias das carteiras”.

O profissional referencia que, ao contrário do que acontece mundialmente, esta dinâmica não se verifica em Portugal. Como tal, ainda que seja necessária uma análise na ótica de risco, acredita que nos fundos de pensões devem existir investimentos coerentes, com alguma dispersão de risco e numa pequena parcela das carteiras no sector de capital de risco. Compreende, contudo, que este é um caminho que necessita de esforços de ambas as partes: “É necessário que os gestores dos fundos de pensões tenham uma maior percepção da atividade de capital de risco, mas também que exista uma maior pedagogia e currículo por parte do sector em relação a este tipo de investidores. Resumindo, os investidores que podem fomentar o sector não investem não só por excesso de conservadorismo, mas também por não fazerem uma gestão equilibrada do seu portefólio. Por outro lado, a indústria ainda não tem também um track record suficiente que justifique em alguns casos esse investimento”.

Por outro lado, para além dos fundos de pensões, surgem outros operadores que desempenham um papel importante. Nuno Gaioso destaca o papel dos family offices afirmando, contudo, que “em Portugal, há falta de family offices com liquidez significativa, existindo um problema de escala não só na procura como também na oferta”.

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