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Novos “loucos anos 20”


O ano de 2020 não é um ano qualquer. É o início dos “anos 20”, pelo que a questão que se coloca é se estes serão tão “loucos” como os seus antecessores.

Há 100 anos, da última vez que o mundo se preparava para comemorar a efeméride que é o início da segunda década de um século, este tinha acabado de sair do primeiro conflito global que trouxe consigo uma mudança do centro de poder e da economia mundial da Europa, devastada pela guerra e à beira de enfrentar décadas de conflitos pela manutenção dos seus impérios, para os Estados Unidos da América (EUA). Esta devastação e os traumas da guerra trouxeram consigo, além das sementes de uma segunda guerra, profundas mudanças sociais que se repercutiram de forma significativa na economia.

Confrontados com a efemeridade da vida, houve uma adoção geral de um estilo de vida voltado para o hedonismo e terá sido nessa época a verdadeira génese do consumismo desenfreado como o conhecemos atualmente. A economia enfrentava nessa época uma recuperação, do lado da Europa, mas também uma evolução para um modelo voltado para o bem-estar, e uma cooperação entre progresso tecnológico, resultante da guerra, com políticas liberais de alguns governos (EUA por exemplo). Isto levou a um período de êxtase (“os loucos anos 20”) e crescimento económico.

Mas esta década de 20 tem desafios diferentes que vão pôr à prova as mais diversas correntes de pensamento económico:

  • Nos EUA temos assistido nos últimos anos a um “circo mediático” em torno da guerra comercial com a China, o maior exportador do mundo. Em resposta ao crescimento da China como economia e como potência, o presidente Trump adotou uma filosofia protecionista que alguns economistas como Há-Joon Chang advogam ter estado na génese do desenvolvimento económico das principais nações desenvolvidas do mundo, não obstante os mercados, e os media principalmente, terem reagido negativamente. A visão catastrofista não se tem materializado, mas com a proximidade das eleições, Trump optou por relaxar a postura protecionista, sendo no entanto expectável que mantenha o défice e a dívida pública como arma de arremesso eleitoral. Será interessante perceber se a China vai recuperar algum ritmo de crescimento, se tudo isto vai ter o efeito positivo que alguns preconizam para a economia Norte Americana, e se Trump ainda consegue ir a tempo de ser reeleito, aproveitando a confusão no campo dos democratas. Em caso de reeleição veremos se voltará à estratégia de guardar o maior mercado do mundo para estufa das suas próprias empresas crescerem, o que se houver alguma consistência seria a rota escolhida;
  • A Este nada de novo… A China continua a crescer, ainda que o ritmo esteja a abrandar ligeiramente, enquanto o Japão continua a tentar sair da estagnação. Apesar de até ter crescido c. 1.8% no último ano, o PIB Japonês vai ainda a níveis de meio dos anos 90 e tem mantido a sua inércia. Aliás, o crescimento deste ano é possivelmente o conjunto de vários esforços, tais como a taxa de juro diretora negativa, a organização dos jogos olímpicos de 2020 e uma reação antecipada à subida dos impostos sobre o consumo em outubro, incentivos que ainda assim parecem não ser suficientes, tendo levado Abe Shinzo a lançar mais uma série de políticas de estímulo avaliadas em c. $122 mil milhões de dólares enquanto a dívida pública rompe novamente o recorde olímpico e atinge quase os 240% do PIB (para referência, Portugal tem c. 122%). O Japão entrará assim na terceira década de estímulos económicos.
  • A União Europeia, que se esperava já recuperada da crise de 2008, tem hoje um PIB muito comparável ao de então. Para esta década vai enfrentar a saída do Reino Unido, a 5ª maior economia do mundo, e com esta um novo balanço de poderes entre França e Alemanha, mantendo os seus principais problemas como é o caso da competitividade fiscal entre países, os elevados níveis de endividamento que apresentam um elevado risco em caso de subida da taxa de juro e a falta de crescimento da procura, independentemente do quantitative easing com que continuamos a ser presenteados. Relativamente ao Reino Unido vai ser interessante perceber como corre a experiência de um país avançado fora desta superestrutura, especialmente como se poderá evitar que as tensões políticas ponham em causa a união económica que a união monetária tanto precisa.
  • Num cenário de maior protecionismo e de dólar forte, os mercados emergentes saem prejudicados, especialmente os que não exportam commodities e que tenham dívida de curto prazo em dólares, como a Turquia e Argentina.

Até agora, os maiores riscos e ameaças à economia e aos mercados de capitais têm sido políticos, tendo por isso sido controlados com política monetária e promessas. Em 2020, a economia real deverá ressentir-se com o aumento da pressão regulatória nas margens de lucro das empresas, dos potenciais aumentos de impostos, do aumento dos salários mínimos e dos custos cada vez mais relevantes dos impactos ambientais e climáticos. Considerando que vivemos o mais longo período de mercado em alta das ações americanas desde 1900, o maior risco será agora os investidores já não acreditarem na capacidade dos políticos de estabilizarem os mercados quando for necessário.

Por outro lado, nunca as taxas de juro e as yields foram tão baixas em tantos sítios, durante tanto tempo e se imprimiu tanto dinheiro. O investimento tem crescido em todo o mundo, aceitando yields cada vez mais baixas (veja-se o caso das obrigações do tesouro Portuguesas ou do nosso mercado imobiliário que começa a atrair cada vez mais investidores verdadeiramente core). O dinheiro é proporcional à euforia e desespero por produtos de investimento e consequente inflação, obrigando grandes fundos de pensões públicos a assumir maiores riscos em busca de algum retorno em imobiliário, ações e até private equity. Assim, a abundância de capital disponível para investir e o novo paradigma de taxas de juro negativas é loucura suficiente para declararmos abertos os “Novos loucos anos 20”!

Resta esperar que as comparações fiquem por aí…

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