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Norfin: “Neste momento o desafio passa por encontrar ativos para tanta procura”


(Perspetivas para a segunda metade de 2019, traçadas por Paulo Barradas, Managing Director e Head of M&A and Investor da Norfin)

Se alguém lhe dissesse que i) a segunda maior economia do mundo2, coberta de todos os estímulos monetários possíveis, tem dificuldade em crescer mais do que 1%, ii) que a quarta economia4 se mantém há quase 30 anos estagnada, iii) que a poderosa terceira economia3, campeã de crescimento e capital da manufatura, está a ver o seu modelo de negócio ameaçado por uma guerra comercial e vai apresentar uma das mais baixas taxas de crescimento dos últimos 30 anos de apenas uns “miseráveis” 6%, e iv) que o líder mundial1 e motor da já referida guerra comercial, se sente na necessidade de aumentar os estímulos monetários para manter o seu crescimento de cerca de 3% ao ano, diria que a economia mundial está pujante e vigorosa?

Talvez se sinta agora pressionado a evitar o sim. No entanto, o mais certo é que esteja a agir, à semelhança da maioria dos outros agentes económicos, como se a economia estivesse de facto em grande forma. Pelo menos é o que parecem mostrar os preços das várias classes de ativos e o comportamento dos mercados.

Tomemos as obrigações como exemplo e olhemos em volta. Assistimos hoje a um paradigma em que os investidores compram obrigações soberanas com yields negativas. E não são apenas as alemãs, que têm batido constantemente o recorde de serem as mais baixas de sempre, são também obrigações de empresas classificadas como “lixo” pelas agências de rating que são já transacionadas com yields negativas. Para certas classes de ativos e investidores, o objectivo parece ter deixado de ser ganhar o máximo para passar a ser perder o mínimo… a busca de retornos passou de valores absolutos para valores relativos.

Nessa perspectiva também de evitar perdas temos uns EUA, por norma defensores do comércio livre, a envolverem-se a si e ao mundo numa disputa comercial muitas vezes apelidada de guerra. Esta disputa é dos temas mais fascinantes da actualidade. Uma nação dominante que se sente ameaçada por um rival cada vez mais próximo, que ameaça a sua liderança tecnológica e, com esta, a liderança económica, apesar de em muito ter contribuído para a origem desta ameaça. De facto, se a China é a capital da manufactura mundial, muito o deve aos EUA, que aí manda produzir desde bagatelas de plástico a iPhones, exportando tanto capital como, mais importante que isso, conhecimento. São estes os dois recursos em que os EUA dominam, ou dominavam, que estão no centro da disputa que parece abalar o mundo, ou pelo menos o crescimento económico mundial no curto prazo.

As multinacionais americanas estão a começar lentamente a criar uma política de China+1, em que mantêm o grosso da produção na China enquanto abrem e experimentam outros mercados, sendo os principais beneficiados o Vietnam e a Índia, esperando-se que muito deste negócio de produção que a China fazia venha a desaparecer para os rivais. Os impactos duradouros deste efeito na China e nos EUA são ainda incertos, não sendo claro que a primeira ainda precise de ser a capital da manufactura ou que não esteja já ao nível de começar a deslocalizar as suas próprias produções. Nem é certo que com isto os EUA consigam assegurar que mantêm a liderança tecnológica e económica. A FED estar a dar uma volta de 180º e a voltar às descidas de taxas de juro parece indicar que os americanos temem que, deixada como está, a economia se ressinta destas políticas. O que é certo é haver muita incerteza e com ela risco. No entanto, o que se parece observar nos mercados é que tudo vai bem…

Por outro lado, sendo certo que especialmente na Europa e Japão enfrentamos um paradigma de estímulo máximo e reação mínima, com taxas de juro no 0 ou inferiores que inundam a economia de liquidez sem que daí advenha inflação ou crescimento, o necessário grau de compressão das yields ultrapassou há muito a paridade com o risco representado.

E se é certo que um agente individual dificilmente consegue evitar comportar-se desta forma neste paradigma, pois é do interesse colectivo continuar a acreditar que tudo está bem e que, mesmo que estas tentativas falhem, no limite ficaremos tal como estamos por tempo indeterminado, como o Japão, também é certo que algum dia alguma coisa terá de mudar, provavelmente voltando a haver subidas das taxas e consequentemente das yields. Nessa altura, a disparidade entre o risco e os retornos dos ativos hoje transacionados vai voltar para assombrar muitos investidores.

Conjugar uma análise de risco responsável com um paradigma de “euforia” (dos bancos centrais) sem prazo de conclusão, tem parecido tarefa impossível. Para além das yields das obrigações, também as equities estão a bater recordes contínuos de crescimento (podendo originar violentas correções como a de dezembro de 2018), ameaçadas no entanto pelo já referido contexto conturbado no âmbito do comércio internacional e da indústria. Mas se este excesso de liquidez parece potenciar o risco em certas classes de ativos, por outro lado parece quase mitigá-lo e aumentar o apelo de classes alternativas como o Imobiliário.

Tipicamente afetado pela sua menor liquidez relativa, o imobiliário vive hoje um excelente momento, especialmente em países como Portugal, atraindo elevados volumes de investimento e observando simultaneamente uma subida de rendas e uma compressão de yields. O facto de ser um investimento imune à inflação e, quando falamos de ativos nas principais cidades, ter uma boa preservação de valor mesmo em momentos de crise (afinal o imobiliário é sempre necessário), deve levar-nos a crer que, a par de ainda poder apresentar yields apelativas, o gap entre percepção de risco e retornos é menor neste sector.

Neste momento o desafio passa por encontrar ativos para tanta procura, mas vivemos um momento único que, de uma óptica financeira, converteu o imobiliário numa classe de ativos de excelência a passar uma fase extraordinária tanto em volume quanto em diversidade de negócios, e de uma óptica humana, apresenta uma oportunidade única para repensar e melhorar as cidades e estruturas em que vivemos e trabalhamos para melhorar a nossa qualidade de vida a médio e longo prazo. E afinal não é esse o objectivo último de tudo o que fazemos?

(1) – EUA

(2) – Zona Euro

(3) – China

(4) – Japão

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