Tags: Europa |

Nem me digas mais nada...


A Dona Emília estava desolada, tinha feito uma aplicação há um ano atrás nuns bilhetes do tesouro e detinha menos dinheiro do que aquele que aplicou. Foi de imediato ao banco “refilar”, convencida que mais uma vez lhe tinham cobrado indevidamente comissões. O Caixa já habituado a ser tratado como a “caixa de pandora do universo”, calmamente explicou que ela tinha emprestado dinheiro ao Estado a uma taxa de juro negativa, ou seja, não estava a receber juros, mas sim a pagá-los. Em face daquilo que o Caixa lhe acabara de contar, a sua primeira reação foi deduzir, que se a culpa não é dos bancos é obviamente do Fisco. Este anda sempre cheio de falinhas mansas, mas sempre que pode aproveita-se para cobrar tudo e mais alguma coisa. No entanto, o Caixa esclareceu que o responsável deste incómodo das taxas de juro negativas era o Banco Central Europeu.

Dona Emília ficou sem perceber nada e desabafou com o jovem Caixa:

- Nem me digas mais nada! E voltou para casa preocupada.

Tinha-se reformado há pouco tempo com uma reforma baixa e o dinheiro que tinha poupado era supostamente um complemento da mesma, para fazer face ao aumento da esperança média de vida. Fisicamente sentia-se tão bem que se imaginava facilmente viver pelo menos um século. Mas o que supostamente era razão para regozijo, provocava-lhe agora mais angústia.

- O que é que faço? Dizia ela sozinha quando se passeava dentro de casa.

- Nem me digam mais nada! Algo tem de mudar, tenho de pôr o dinheiro a render pelo menos a zero e reduzir os meus encargos mensais.

Entretanto ligou-lhe o seu marido Joaquim que possuía um pequeno negócio de eletrodomésticos:

- Oh Emília, estou farto disto, há dez anos que só vejo os preços a cair e as margens a desaparecer, agora até vender a prestações é um suplício. Acho que já não tenho outra alternativa senão fechar o negócio...

- Oh Joaquim, nem me digas mais nada, vem mas é para casa!

Enquanto pensava naquilo que tinha de cortar para poupar, ligou-lhe o seu querido filho Adalberto:

-Olá mãezinha, era para lhe dizer que vai ter mais um neto, só à minha conta já são quatro. Eu e a Tina só temos um problema, precisamos de comprar um carro de 7 lugares...

-Oh filho, nem me digas mais nada! Claro que fico muito feliz por vocês, mas quero que saibas que já não te posso ajudar da mesma forma que antes.

- Ok, mãezinha, eu cá me arranjo. Em princípio posso comprá-lo a prestações. Sabe que com esta história dos juros negativos torna tudo mais barato. Mensalmente pago o capital menos uma parcela de juros, o que na prática funciona como um desconto, que neste caso não é de pronto pagamento é de lento pagamento ou qualquer coisa assim. Não é uma maravilha? Agora tenho de desligar, mas depois falamos.

Dona Emília pôs-se a refletir no que o filho lhe tinha acabado de lhe contar e começou a pensar que o segredo estava em gastar o menos possível, pois essa era a única forma de conseguir garantir poder de compra no futuro, uma vez que, tendencialmente os preços iam ser sempre mais baixos.

De repente toca o telefone, era a sua filha Rosa que é enfermeira na Alemanha.

- Olá Rosinha estás bem querida, tenho tantas saudades! Só tu para me dares boas notícias.

- Olá mãe, bem gostava, mas infelizmente não tenho nada de bom para lhe contar. A fábrica onde o Fritz trabalha em Frankfurt está em dificuldades e estão a propor um corte de 30% de salários ou então vão ter de fechar. Os preços das peças que produzem não param de cair e a procura é praticamente inexistente, dizem que as pessoas agora só poupam, mas também não percebo porquê. Então com a quantidade de taxas de juro negativas que andam por aqui, isto não devia ser bom para todos?

- Oh Rosinha, nem me digas mais nada, vamos é já desligar o telefone para começar a poupar por algum lado. Esta história das taxas de juro negativas, só me traz aflição!

Ao fim do dia o Sr. Joaquim chega a casa e pergunta à sua mulher Emília:

- Então o que vamos fazer?

E a Dona Emília respondeu:

- Nem me digas mais nada! Tens de fechar a empresa, vamos cortar em 30% os nossos gastos e vamos aproveitar para vender já a casa e alugar uma mais pequena. Se isto se mantém assim durante mais tempo e com tanta gente com casa própria, os preços vão acabar por cair e as rendas também, mas ao menos estas estão indexadas à inflação, ou melhor, à deflação...

E compassivamente o Joaquim murmurou:

- Nem me digas mais nada...

Ficha técnica:

O último leilão a 11 meses em Portugal obteve uma taxa de -0,395%( fonte: IGCP 19/06/19), as taxas de juro a 5 anos estão negativas em 0,127% (fonte: Bloomberg 20/06/19), a taxa de poupança das famílias é a mais baixa de sempre (4,6% em 2018, fonte: INE), quase um terço dos pensionistas (32%) nos últimos três meses ajudou um familiar (fonte: sondagem 2019 do Instituto BBVA de Pensões).

Em Portugal a esperança média de vida aos 65 anos ascende a 19,45 anos, com 21,5% da população total com mais de 65 anos (fonte: INE) e o país está em quinto lugar do ranking mundial dos países com a população mais envelhecida, (fonte: Euromonitor International).

Por seu turno, 75% da população portuguesa detém casa própria (fonte: Eurostat) e 80% dos pensionistas detém também habitação própria (fonte: sondagem 2019 Instituto BBVA de Pensões). Acresce o facto de que 34% dos reformados, admite vender a casa própria, caso necessite de liquidez extra durante a reforma (fonte: sondagem 2019 Instituto BBVA de Pensões). Por fim, segundo o INE, os preços das casas no país subiram em média cerca de 30% nos últimos 3 anos e mais de 50% em Lisboa e no Porto.

É caso para dizer:

- Nem me digas mais nada!

Notícias relacionadas

“Independence Day…”

Jorge Silveira Botelho, CIO da BBVA AM Portugal, faz uma reflexão sobre a independência e a eficácia das políticas monetárias dos Bancos Centrais, numa altura em que estes se preparam para introduzir mais estímulos.

“Perdidos no Mar…”

Um ponto sem retorno? Jorge Silveira Botelho, CIO da BBVA AM Portugal, questiona o atual posicionamento e âmbito da política monetária na Europa, numa altura que se começam a criar algumas expetativas perversas nos agentes económicos.

Um erro não forçado!

Jorge Silveira Botelho, CIO da BBVA AM Portugal, analisa a atual discussão sobre taxas de juro negativas no seio do BCE e de como estas cada vez mais se assemelham a um erro não forçado, com a acrescida gravidade do jogador não querer assumir a responsabilidade do mesmo.