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Nathan Gibbs (Schroders): “Os principais drivers do mercado japonês são a política monetária e, surpreendentemente, a política”


O Japão volta a estar em ponto de mira dos investidores por dois motivos: a recente realização de eleições e a forte apreciação do yen, com os investidores a refugiar-se na divisa depois do Brexit. Nathan Gibbs, responsável de produtos de ações japonesas da Schroders, explica o ponto de vista da equipa de gestão do Schroder ISF Japanese Equity. De facto, na entidade acreditam que “os principais drivers do mercado são a política monetária e, surpreendentemente, a política”.

Gibbs admite que “a robustez do yen tornou o contexto económico japonês incerto no curto prazo”, considerando o seu impacto negativo sobre as previsões de lucros e a consequente cascata de revisões em baixa dos analistas. Na opinião da Schroders o impacto será inferior ao previsto pelo consenso: “Costumamos ver este tipo de reações quando a divisa regista movimentos muito rápidos; se o yen se aprecia lentamente, as empresas conseguem ir realizando os ajustes e o impacto não é tão negativo. Além disso, nos últimos cinco a dez anos, muitas empresas nipónicas deslocaram a sua atividade para fora do Japão, pelo que a sensibilidade ao yen é inferior à que era no passado”, detalha.

Gibbs considera muito improvável que o BoJ intervenha na divisa para travar a escalada das últimas semanas. Considera mais realista que incremente as compras de ETFs e de obrigações: “Seria a continuação de uma política já muito agressiva. O BoJ já tem o equivalente a 80% do PIB nipónico no seu balanço, e este continuará a expandir ao ritmo atual”. O especialista acredita que o BoJ fará algum anúncio neste sentido numa das suas próximas reuniões. Outra possibilidade será que aprofunde as taxas negativas: “A medida foi muito mal acolhida, mesmo que na realidade não tenha impacto sobre a população, porque os bancos não estão a aplicar as taxas negativas às contas bancárias. Afecta, isso sim, a banca comercial, que assumiu esta penalização”, esclarece Gibbs. Este considera que a credibilidade de Haruhiko Kuroda, governador do BoJ, caiu com a aplicação de taxas negativas, mas também acha que “parte do dano é um pouco injusto, porque as suas ações têm sido coerentes”.

Relativamente às eleições celebradas no passado dia 10 de julho, o profissional considera que o resultado foi muito positivo para Shinzo Abe e para o Partido Democrático Liberal, ao conseguir dois terços dos votos. “Com este apoio, Abe será capaz de aprovar quase qualquer reforma que proponha. A implementação até agora foi mais lenta porque não dispunha de tantos apoios”, explica Gibbs. “Queremos ver mais reformas na política fiscal e monetária e reformas estruturais em campos como o mercado laboral, o sistema fiscal ou a imigração, mesmo que vejamos improvável este último. O mercado deverá refletir estas mudanças nos preços nos próximos anos”, declara o especialista, que também acredita que “os investidores subestimam o impacto das reformas”. A equipa da Schroders espera “um anúncio forte por parte de Abe nos próximos três meses”.

Um exemplo de uma reforma subestimada aos olhos do especialista é a do governo corporativo, que vê como “um grande êxito para Shinzo Abe”. Gibbs explica que parte do processo de investimento da equipa do Schroder ISF Japanese Equity consiste em reunir-se com as empresas, e observou que quando falam “com as administrações, especialmente das empresas grandes”, estão a “ver que as conversas estão a ser muito diferentes. Agora as empresas entendem melhor o ROE e que os acionistas têm o direito a aceder à informação sobre a gestão”.

Esta tendência tem tido um impacto direto sobre os dividendos: se em 2009 a yield média era inferior a 1%, agora é de 2%. “Podem-se encontrar empresas de qualidade com dividendos de 3% ou 4%. Com as taxas a zero, é uma rentabilidade muito atrativa”, sublinha o especialista. O total de pagamentos de dividendos e de recompra de ações está em máximos históricos. Mesmo assim, “os ROE do Japão são estruturalmente baixos, mas não porque o crescimento dos lucros seja um problema. A recompra de ações está a ajudar a melhorar os ROE”. A visão da Schroders é que a tendência continuará em alta, pois ainda apresenta níveis muito baixos em comparação com os EUA e a Europa.

O especialista louva a melhoria da qualidade dos conselhos de administração: “Costumava ser muito medíocre. Agora foram incorporados membros independentes nos conselhos de administração. Esta tendência é definitivamente boa para o Japão porque traz maior transparência às empresas e ajuda para que sejam mais fáceis de entender pelos acionistas”, resume.

Em termos de valuations, na Schroders acham que o mercado está ligeiramente barato, especialmente em relação a outros mercados, e que recuperou alguma atratividade nos últimos meses. “Vemos um bom ritmo de crescimento dos lucros por ação, que é o segundo que mais cresce depois dos EUA, e achamos que continuará a ser razoável nos próximos doze meses”, indica Gibbs.

Construção da carteira

“Entre o que procuramos numa empresa temos a qualidade da administração, a sua posição financeira, a sua independência face a grandes clientes e o seu governance. Não obstante, o factor chave continua a ser o perfil de crescimento a longo prazo, queremos saber se apresenta um modelo de negocio sustentável”, resume Gibbs.

Dentro do processo de bottom up, desenvolveram um modelo de análise que ajuda a detetar que empresas estão sub valorizadas e apresentam boas perspetivas de crescimento. A reunião com empresas pouco cobertas por analistas é muito importante: “Temos 12 analistas em Tóquio que estão a visitar constantemente as empresas. Achamos que assim acrescentamos mais valor para os participantes do que tentando prever a evolução macroeconómica”. O especialista recalca que “a carteira é da equipa, a visão dos analistas tem muita influência sobre as decisões finais dos gestores”.

A carteira costuma conter entre 85 e 90 títulos, que são uma mistura empresas de grande e pequena capitalização de mercado, mas Gibbs esclarece que a alocação a small caps está em linha com o índice. A rotação de ativos é baixa, geralmente entre 25% e 30%, porque o horizonte de investimento é de três anos. 

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