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Mudança na linguagem da Fed: como interpretá-la


A reunião da Reserva Federal da passada quarta-feira não foi surpresa nenhuma. O mercado descontava vastamente uma subida de taxas e assim foi. Mas Jerome Powell tinha uma surpresa. No comunicado eliminou-se a palavra acomodatícia na referência à política monetária. E essa única palavra desencadeou o debate.

“O facto da frase chave do comunicado ter sido eliminada sugere que a Fed acredita realmente que se estão a aproximar de um nível neutro de taxas de juro”, argumenta Rick Rieder, diretor de investimentos de obrigações globais e cogestor do fundo BlackRock Fixed Income Global Opportunities (FIGO) e BGF Global Bond Income. Na sua opinião, mais do que as subidas de 2018, é muito mais interessante para os mercados distinguir quando e onde as taxas vão deixar de subir.

Josh Feinman, economista chefe global da DWS defende o contrário: “Com as taxas de juro a aproximarem-se (embora ainda abaixo) das previsões de neutralidade dos especialistas em política monetária, era apenas uma questão de tempo antes desta referência ter de ser eliminada. Isto não sugere uma alteração nas perspetivas ou no plano traçado, um argumento no qual Powell não deixou de enfatizar”. Na sua opinião, enquanto o mercado laboral continuar sólido, a Fed irá continuar a inclinar-se para a subida de taxas e não irá parar pelo simples facto das previsões de neutralidade se aproximarem.

Para David Norris, responsável de crédito norte-americano da TwentyFour Asset Management (Vontobel AM), a mensagem principal da reunião da Fed foi de que o intervalo das taxas de juro será consistente com uma expansão sustentável da atividade económica, com a robustez do mercado laboral e com uma inflação sustentável próxima do objetivo de 2%. “É importante assinalar que a Fed ainda não valoriza efeitos mensuráveis como resultado da atual política de taxas. Ainda assim, estão preocupados devido à forma na qual estas tarifas poderem aumentar os preços e o efeito que essa subida poderá causar sobre a inflação”.

2019, a grande incógnita

A quarta subida de 2018 entra no consenso geral. A grande incógnita é o seu caminho em 2019 e doravante. Keith Wade, economista chefe da Schroders, prevê que haverá pelo menos mais três subidas, até as taxas chegarem aos 3% em meados de 2019. “Nesse ponto, o crescimento deverá arrefecer, à medida que a economia notar os efeitos de taxas mais altas e os incentivos fiscais se dissiparem”, comenta Wade.

Anna Stupnytska, economista global da Fidelity International, concorda. O dot plot atual da Fed sugere mais três subidas em 2019 e para esta especialista isto poderá ser demasiado agressivo para a economia americana, “especialmente considerando que o impacto líquido de um ajuste quantitativo que persiste ainda é ambíguo”. Também será um ajuste difícil para o resto do mundo. As economias emergentes em particular já estão a notar as condições de financiamento mais restritas.

Assim, embora o caminho das subidas a curto prazo esteja claro, o mercado espera um tom mais cauteloso por parte da Fed face ao próximo ano. “O aumento das tarifas alfandegárias seguramente também vai ter impacto na atividade, o que lhes permitirá manter-se de dar um passo atrás”, acresenta Wade nesta sequência.

“A pergunta fundamental é se a Fed será capaz de preparar uma “aterragem suave” – evitando que os mercados laborais aqueçam e que se acumulem excessos financeiros/económicos sem provocar uma desaceleração económica indevida”, conclui Feinman.

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