Marta Carvalheiro (Haitong): “A retoma para níveis anteriores à crise pandémica, apenas deverá ocorrer em 2022 para os países emergentes”


Têm havido várias discussões sobre qual será a trajetória de recuperação da economia global face à enorme recessão causada pela pandemia COVID-19 – em V, em U, em L, em W… parece-nos que ainda é cedo para afirmar qual será a que se vai verificar, mas uma coisa é certa, irá haver diferenciação geográfica e no tempo.

A recuperação económica não irá ocorrer ao mesmo tempo para todas as economias por diversas razões, sendo a óbvia, que os países que foram primeiro atingidos pelo vírus, provavelmente serão os primeiros a sair da severa crise económica em que nos encontramos. Todos os investidores interessados estão a seguir atentamente o caso chinês. Outro factor importante, é o estado de desenvolvimento do país/região e o modelo económico seguido. Os países desenvolvidos deverão ter uma recuperação mais célere que a dos países emergentes – excluindo China, dado terem mais graus de liberdade tanto a nível de política monetária/orçamental como condições de vida que permitem uma resposta mais eficaz ao vírus. Posto isto, o nosso cenário central é de uma recuperação do PIB em termos reais no final de 2021 para as maiores regiões económicas mundiais: EUA, Zona Euro e China. A retoma para níveis anteriores à crise pandémica global, apenas deverá ocorrer em 2022 para os países emergentes. Sendo, no entanto, expectável uma recuperação muito mais rápida do que a verificada em crises globais anteriores, dado a origem da mesma e a amplitude e dimensão massiva (além, de simultânea) das políticas monetárias e orçamentais.

A recuperação não deverá ser de todo linear, existem inúmeros factores de risco no horizonte, nomeadamente: uma 2ª vaga epidémica (já a acontecer em vários países) e a forma como os governos irão lidar com a mesma, as eleições nos EUA, impasses/quebra no acordo comercial entre China/EUA.

Quando olhamos para os mercados financeiros, pode parecer à primeira vista que estamos noutra realidade, tendo em conta a gravidade da situação atual da economia real. No entanto, a magnitude dos estímulos já anunciados e implementados pelos bancos centrais e governos têm sido argumento suficiente para os agentes económicos/investidores, como podemos observar nos dados recentes de indicadores de sentimento económico (PMIs), atividade (produção industrial) e de mobilidade (Google/Apple) que atingiram o bottom em Abril, como pela própria evolução dos mercados acionistas. O índice norte-americano Nasdaq e o índice chinês CSI 300 já se encontram em terreno positivo YTD, ou mesmo em máximos históricos no caso do primeiro. Já a evolução do Ouro parece estar a precificar todos os factores de risco.

Em termos do nosso posicionamento e visões de mercado, acreditamos que mais uma vez é necessário ser seletivo nos ativos e nas classes em investimos. No mercado acionista achamos que o mercado europeu, que é o nosso core, está a níveis atrativos em termos de valuations. Apesar de haver uma permanente rotatividade entre sectores, de que temos procurado beneficiar, achamos que o tema ESG está para ficar, tanto para os investidores, mas também nos incentivos ao nível de política orçamental.  Em termos de crédito, achamos que o segmento de High Yield, bem como a dívida de países periféricos ainda são os que oferecem melhores oportunidades de investimento. Adicionalmente, achamos que as expectativas de inflação de longo prazo na Zona Euro/Alemanha estão a níveis extremamente baixos e que poderá haver um steepening da yield curve tendo em conta a fase de recuperação económica.

É fundamental ter presente que a injeção brutal de liquidez dos bancos centrais e as garantias/subsídios dos governos tiveram como efeito imediato uma subida dos múltiplos e um estreitamento dos spreads, e que é muito importante acompanhar a evolução dos earnings/dividendos divulgados pelas empresas e as situações de default que irão certamente aumentar após este grace period inicial.

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