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Mário Carvalho Fernandes (Banco Carregosa): “O pilar relativo ao sentimento dos agentes económicos poderá conhecer algumas reviravoltas durante o ano”


Em 2020 é expectável que as maiores economias globais apresentem um nível de crescimento económico inferior ao observado em 2019. A recessão industrial observada em 2019 na generalidade das economias ameaça propagar-se aos restantes setores económicos, por via da contração do investimento e reduzido nível de otimismo dos empresários.

O pilar relativo ao sentimento dos agentes económicos poderá conhecer algumas reviravoltas durante o ano, em função dos desenvolvimentos em torno das eleições nos Estados Unidos, a sua relação com os seus parceiros internacionais, em particular com a China, o progresso do Brexit e as ameaças de desintegração do Reino Unido e a resiliência da coligação que governa a Alemanha. Estes e outros eventos deverão ser catalisadores de volatilidade nos mercados financeiros, que ao contrário de o que se observou há 12 meses, não entram no novo ano num nível de avaliação muito atrativo, tendo em conta que existem riscos para a evolução dos resultados das empresas.

Apesar das incertezas, a ausência de pressões inflacionistas tem permitido que a política monetária se mantenha acomodatícia na generalidade dos blocos económicos. Este pilar tem permitido que os setores da economia mais sensíveis às taxas de juro se mantenham resilientes, como por exemplo o investimento imobiliário, alimentando o crescimento do importante sector da construção. A valorização simultânea dos ativos financeiros e reais tem aumentado também a confiança das famílias, que através do seu consumo continuam a contribuir para a perpetuação do ciclo económico, tanto nos EUA, como na Europa e China.

A política monetária deverá continuar acomodatícia durante 2020, mas a capacidade deste instrumento pode estar a ficar esgotado, em algumas geografias, o que poderá tornar-se evidente durante os próximos meses. Nesse ambiente seria importante a adoção de outros instrumentos catalisadores de crescimento, como por exemplo a política fiscal, não sendo óbvia, em cada uma das grandes economias mundiais, a capacidade da sua implementação, no tempo e na dimensão necessárias, para evitar os efeitos de um potencial abrandamento económico mais abrupto.

Neste ambiente, acreditamos que a opção deverá passar por uma carteira diversificada entre componentes de obrigações taxa fixa, rendimento variável, dívida de high yield, dívida emergente, ações globais, imobiliário e matérias-primas. A diversificação continua a ser a melhor forma de combater a incerteza que o futuro nos reserva, sendo importante compor uma carteira de acordo com o perfil de risco e se mantenha alguma fidelidade a essa alocação ao longo do ciclo de mercado. Quando os investidores sentem que estão sub ou sobre expostos a algum risco, a prazo, isso tende a contribuir para más decisões de investimento, em termos de market timing, durante as várias fases do ciclo.

Na componente de obrigações consideramos que após um ano de importantes valorizações, as oportunidades são agora mais pontuais e conjunturais, localizadas em nichos de mercado e que irão alternar entre si ao longo de 2020. Assim, a estratégia deverá passar pela escolha de gestores com provas dadas, com mandatos de gestão amplos e flexíveis o suficiente para lhes permitir capitalizar essas oportunidades, nos subsegmentos em que possam surgir.

Em relação aos mercados acionistas, se é verdade que os níveis de valorização absolutos se encontram em níveis historicamente elevados, com o MSCI World a transacionar a um P/E de 18, quando comparados com as obrigações globais sem risco de crédito, o prémio de risco mantém-se dentro dos padrões históricos. Neste ambiente, e com alguns sinais de final de ciclo económico, acreditamos ser oportuno a adoção de uma postura mais cautelosa, evitando entrar em euforia, e orientar o investimento para os gestores que concentram os seus investimentos em empresas de qualidade, com balanços e modelos de negócio resilientes aos ciclos económicos.

Num ambiente que se deverá manter caraterizado por reduzidas taxas de juro, os investimentos alternativos mantêm-se como instrumentos úteis nas carteiras. Assim, o imobiliário deverá permitir subir um pouco o rendimento médio da carteira. O ouro torna-se em termos relativos mais atrativo face às obrigações sem risco creditício, quando estas transacionam com taxas de juro implícitas negativas e oferece um nível de proteção semelhante em caso de choques adversos ao ciclo económico. Adicionalmente, apesar do carácter pró-cíclico do petróleo, com o nível de procura mundial esperado, esperamos que o preço se mantenha suportado acima dos 50 dólares, pelo que oportunisticamente poderá fazer sentido obter exposição ao tema, nos momentos em que o mercado tenha uma opinião distinta, tirando partido da elevada skewness inerente a esta matéria prima, sujeita a riscos geopolíticos que potenciam a subida repentina da sua cotação.

Temos destacado, no nosso site, os fundos PIMCO Income e Morgan Stanley Global Brands, uma vez que o seu posicionamento, em cada uma das respetivas classes, está alinhado com o que acreditamos ser o mais adequado para enfrentar os desafios que 2020 nos reserva.

Os temas relacionados com a persistência de níveis baixos de inflação, ausência de pressões salariais (apesar dos baixos níveis de desemprego) e as dificuldades enfrentadas pelos bancos centrais na reversão das políticas monetárias prosseguidas nos últimos anos, continuam a ser questões que carecem de respostas mais claras. Estas fontes de incerteza, até pelo seu caracter inédito, continuam a merecer um esforço de análise e compreensão.

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