Mário Carvalho Fernandes (Banco Carregosa): “A diversificação continua a ser a melhor forma de combater a incerteza”


O segundo semestre trará respostas às inúmeras questões capitais que nos assolaram na primeira metade deste ano 2020. Mediante o elevado nível de incerteza quanto ao estado do mundo que iremos atravessar ao longo dos próximos meses, a estratégia deverá passar por definir cenários alternativos e processos para identificar, monitorizar e reagir em cada um desses cenários. Neste contexto, o conceito de cenário central é mais esbatido do que o habitual, uma vez os cenários são praticamente equiprováveis.

As várias geografias voltaram a sincronizar os seus ciclos económicos, por força da exposição a um fator comum, que tem capacidade de impactar de forma binária o ritmo de crescimento económico.

A evolução da pandemia ao longo do período de desconfinamento tem permitido criar alguma expectativa de que o futuro poderá ser mais próximo da normalidade. Talvez seja possível evitar um novo ciclo de quarentena generalizado e global, enquanto aguardamos por uma solução mais definitiva, tal como seria a vacina, um tratamento eficaz, uma maior capacidade de teste e tracking... Contudo, ainda é prematuro descartar-se a possibilidade de uma segunda vaga da pandemia.

Também no que respeita à evolução da economia, não é possível ainda descartar uma segunda vaga da crise, seja associada a um novo surto desta pandemia, seja pela emergência de danos colaterais provados pela primeira vaga. Num cenário com algum otimismo, a economia funcionará a 90%, mas com sectores que operam a metade da sua capacidade. As eventuais falências nesses setores são um risco para o otimismo dos investidores. Para que se concretize um cenário mais otimista da economia no segundo semestre também será essencial que o elevado nível de desemprego seja reabsorvido rapidamente pelo mercado de trabalho.

Adicionalmente o semestre será ainda marcado pela realização das eleições presidenciais nos EUA. Este evento político trará certamente mais alguma volatilidade ao mercado, nomeadamente através do posicionamento do candidato incumbente, que poderá tentar apostar na sua postura mais agressiva em relação à China e, dessa forma, procurar recuperar os votos necessários para a sua reeleição, algo inédito na história dos EUA, em ano de recessão económica. O brexit deverá continuar a ocupar um lugar menor nos destaques do semestre, embora seja decisivo para o futuro do Reino Unido.

Pela positiva, o semestre continuará a ser pautado pelas fortes iniciativas das autoridades monetárias e fiscais. Em conjunto, esta políticas deverão continuar a evitar que o risco associado aos “fallen angels” se concretize, que os estados continuem a ter acesso a financiamento a baixo custo e que as políticas monetárias tenham um impacto mais direto na economia. Os movimentos mais acentuados no valor dos ativos financeiros devem continuar a ser temperados pelas autoridades monetárias, ameaçando retirar os estímulos mais cedo, caso considerem que existe excessivo otimismo e prometendo novos apoios, caso o pessimismo regresse ao mercado.

A diversificação continua a ser a melhor forma de combater a incerteza. Acreditamos que a opção deverá incidir numa carteira diversificada entre componentes de obrigações taxa fixa, rendimento variável, dívida de high yield, dívida emergente, ações globais, imobiliário e matérias-primas, com ponderações ajustadas ao perfil de cada investidor. Na componente de investment grade, as subclasses de crédito teoricamente mais arriscadas, ficaram mais atrativas com a segurança acrescida proveniente do suporte dos bancos centrais. O ouro continua a ser um ativo que pode assumir o papel de refúgio em vários cenários alternativos, em particular num momento em que as alternativas não apresentam uma remuneração apelativa. Em termos acionistas, a exposição a empresas com balanços robustos e negócios resilientes deverá permitir navegar este período mais volátil e incerto, com menor probabilidade de diluição em aumentos de capital e, desta forma, conseguir tirar proveito na eventual retoma da atividade económica.

No atual contexto de mercado, estamos a recomendar fundos de alocação uma vez que as forças que estão a influenciar o mercado são muito fortes e opostas. Pelo lado negativo, o contínuo desenvolvimento do surto que poderá seguir para uma segunda vaga e, pelo lado positivo, o vasto leque de apoios fiscais e monetários. Neste contexto de ainda elevada incerteza, crê-se que a alocação será o melhor caminho. Para os clientes mais conservadores a nossa sugestão é o fundo Nordea Stable Return por ter mostrado, mais uma vez, a sua capacidade de preservação de capital em momentos adversos sem que, a prazo, abdique de retornos satisfatórios para o seu perfil de retorno/risco. Para os clientes mais agressivos indicamos o fundo Flossbach von Storch Multiple Opportunities. Este fundo tem mostrado boa execução e agilidade no cumprimento do seu mandato e por isto tem obtido um desempenho retorno/risco muito apelativo. Além disso, o seu portfólio está assente, essencialmente, em dois vetores que julgamos relevantes para a apreciação de capital num horizonte temporal alargado: empresas de qualidade e exposição a ouro.

A compreensão dos impactos das políticas monetárias e fiscais no valor das várias classes de ativos financeiros deverá ser um fator diferenciador para melhor navegar o mercado nos próximos meses. A dimensão e o sincronismo global destas medidas, tanto monetárias como fiscais, prometem ser o grande catalisador dos mercados nos tempos que se avizinham.

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