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Marcos Soares Ribeiro, CFA (CFA Society Portugal): “Não deveriam todos os investimentos ser responsáveis?”


Marcos Soares Ribeiro, CFA, é o representante máximo da comunidade CFA por terras de Camões ao presidir a CFA Society Portugal, a associação profissional nacional que representa os profissionais certificados como Chartered Financial Analysts pelo CFA Institute. A representação local da comunidade CFA ganha vida através de uma pequena equipa de voluntários e colaboradores da comunidade CFA. Desde julho de 2019 ao comando da CFA Society Portugal, Marcos Soares Ribeiro, CFA define numa palavra a grande prioridade do seu mandato: comunicação. E porquê?

Três anos, três exames. Parece fácil, mas para concluir o processo de certificação de Chartered Financial Analysts é preciso bem mais do que alguma dedicação e empenho. Nas palavras do profissional, “a comunidade portuguesa não está ainda totalmente consciente do que representa a sigla CFA”. Além do extremo compromisso ético que a certificação exige, são precisas “competências técnicas avançadas, uma capacidade de trabalho acima da média e uma consciência profunda da necessidade de um comportamento ético na gestão de investimentos de terceiros”, explica Marcos Soares Ribeiro, CFA, que considera que o conjunto destes fatores faz com que os profissionais certificados pelo CFA Institute acrescentem valor a qualquer equipa de trabalho. “Queremos assim focar muitos dos nossos esforços no sentido de aumentar a consciência desse valor, tanto na comunidade de profissionais de investimentos como na população em geral, algo que já acontece em outros países e cidades mundiais, mas que em Portugal está muito aquém”, comenta o presidente da CFA Society Portugal.

O desafio da gestão passiva

Já sobre alguns dos temas do momento na gestão de ativos, nomeadamente o desafio que representa para a indústria o crescimento do peso da gestão passiva, o presidente da associação profissional é assertivo e garante assim que este repto não pode ser evitado ou contornado. “Os produtos de gestão passiva surgem como soluções mais baratas de investimento para quem não pode - e não deve - suportar os custos elevados de algumas soluções de investimento”, refere. Para o profissional esta é uma forma de democratização no acesso a carteiras de investimento diversificadas que traz muito valor à indústria.

Aos gestores de ativos, indica, “cabe demonstrar a sua capacidade para gerar valor, saber explicar aos seus clientes o valor dos seus processos e aumentar a literacia financeira para que os investidores percebam em que situações a gestão ativa tem mais valor do que a gestão passiva”. Nas palavras do presidente da CFA Society Portugal “estes instrumentos nasceram como resposta a uma necessidade do mercado” e “como muitas outras evoluções disruptivas vêm forçar os profissionais da indústria a adaptar os seus modelos de negócio, a torná-los mais eficientes, a focar os seus esforços onde mais aportam valor”. No entanto, no investimento em ETF, “como em todos os instrumentos de investimento, existem produtos mais simples e mais complexos. Não é por estarem disponíveis e facilmente acessíveis que os riscos ficam mitigados. Uma análise profissional da adequação e das especificidades de cada produto é sempre recomendável e responsável para que não se repitam alguns erros do passado”, expõe.

Impulsionar o perfil ESG

“Não deveriam todos os investimentos ser responsáveis?”, interroga Marcos Soares Ribeiro, CFA quando questionado sobre a primavera do investimento socialmente responsável. Para o homem ao comando da CFA Society Portugal a inclusão de critérios ESG deverá enraizar-se no processo de decisão de todos os investidores e gestores de ativos, mas não necessariamente numa perspetiva de negar a alguma empresa ou indústria o acesso a capital. “O que será mais ético, negar o financiamento a uma empresa só pelo sector em que atua ou utilizar esse financiamento como ferramenta para impulsionar o perfil sustentável e responsável dessa mesma empresa? Embora seja um critério válido de investimento ESG, a exclusão do investimento em determinados sectores, levada a um extremo poderia ter consequências nefastas para o mercado e para a sociedade”, adverte, referindo-se, por exemplo, ao desemprego direto e indireto que daí poderia resultar.

Por outro lado, perspetiva que a intervenção, como credores ou investidores numa empresa, para que esta melhore progressivamente o seu perfil ESG, “traduz-se num processo com valor para todos os intervenientes”. “Creio que assim sai reforçada a responsabilidade e o papel das gestoras de ativos e empresas de investimento com maiores recursos em representação dos seus clientes. Para o profissional “capitalizar o poder que a escala lhes confere no sentido de termos empresas melhores e, em consequência, um mundo melhor”, deveria ser uma pedra basilar “nas decisões estratégicas destas entidades”.

"Uma coisa é certa. A situação atual que o mundo enfrenta, com uma pandemia que paralisou a economia e forçou muitas pessoas a trabalhar remotamente durante o período de confinamento será uma oportunidade de ouro para que os temas do investimento sustentável e ESG estejam cada vez mais em cima da mesa. Barreiras foram quebradas e alguns caminhos que pareciam difíceis de fazer, no contexto da sustentabilidade, mostraram-se perfeitamente possíveis de executar. Haja algo de bom que se retira desta situação", conclui Marcos Soares Ribeiro, CFA. 

Uma versão mais curta desta entrevista foi publicada na versão de março e abril da Revista da FundsPeople. Pode ler esta e outras entrevistas na versão digital da publicação. 

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