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Lucía Catalán (Goldman Sachs AM): “O ponto-chave para o investidor será pensar como vai ser o mundo pós COVID-19”


Estamos no meio de uma crise de saúde sem precedentes na história moderna do Ocidente, que fez com que muitas entidades se tenham envolvido em atividades solidárias de todo o tipo. Uma delas foi a Goldman Sachs, que em Espanha está a ajudar vários hospitais com produtos de primeira necessidade. Felizmente, tal como assegura Lucía Catalán, esta crise vai passar e, quando isso acontecer, muito provavelmente estaremos num lugar muito diferente. “As suas consequências devem ser analisadas do ponto de vista multidimensional porque não só engloba uma crise de saúde como também geopolítica, económica e de mercados”, afirma a diretora-geral da Goldman Sachs numa entrevista à FundsPeople.

A equipa de profissionais que trabalha na gestora americana aumentou significativamente os webcasts com os seus clientes, para tentar ajudá-los nesta difícil tarefa de vislumbrar o futuro, detetar oportunidades e também riscos. E isto é muito importante porque, segundo Lucía Catalán, “o ponto-chave para o investidor será pensar como vai ser o mundo pós Covid-19”. Se refletirmos sobre as consequências que crises passadas deixaram no mundo da gestão de ativos, pode-se observar como, após episódios de fortes turbulências económicas e financeiras, se abriu caminho a novas tendências que persistiram durante anos. Tudo aponta que esta crise não será uma exceção.

“Tal como aconteceu na crise de 2008, é muito provável que vejamos novas tendências a surgir na indústria da gestão de ativos. O que sabemos através do que aconteceu no pós 2008 é que assistimos a um crescimento da gestão passiva nas ações, assim como um auge da gestão quantitativa. Ambas andam de mão de dada. Se a primeira cresce, a segunda também, já que são estratégias beta plus. Após a crise financeira também vimos a subida das obrigações emergentes como classe de ativos dentro das carteiras, assim como um grande aumento do peso dos investimentos alternativos. Agora, a pergunta que devemos fazer é como será o mundo após esta crise”, sublinha.

Lucía Catalán assegura que, o facto de pertencer a um banco como o Goldman Sachs é uma vantagem em momentos como este, já que permite aos profissionais que trabalham para a gestora ter uma perspetiva global dos mercados financeiros, a qual podem transmitir os seus clientes. “O que nos acrescenta valor é o facto de podermos oferecer aos investidores uma visão muito mais vasta do que outras entidades. Temos à nossa disposição todos os recursos do Goldman Sachs. Em momentos de dificuldade é a nós que os clientes recorrem”. Nesta visão do mundo pós COVID-19 a gestora tem muito claras quais são as tendências que vão marcar o futuro.

Na sua opinião, algumas que já existem vão ser consolidadas. É o caso da temática ESG e de sustentabilidade, a qual considera que pode ser uma boa oportunidade de investimento no futuro. É algo que estão a considerar de uma forma cada vez mais intensa. De facto, atualmente, dentro do segmento das ações, as conversas com os seus clientes estão a centrar-se em fundos temáticos, em especial naqueles que se prevê que vão beneficiar da mudança para um mundo mais online como o seu produto de millennials, que investe em empresas com um negócio muito exposto aos novos padrões de consumo desta geração.

Outra das tendências nas quais Lucía Catalán espera uma consolidação importante é no âmbito dos investimentos alternativos, onde estão a verificar cada vez mais interesse.

“Nos últimos três anos muitas entidades ibéricas incluíram ativos deste tipo nas suas carteiras. As conversas com os nossos clientes mais sofisticados centram-se em analisar as valorizações atuais e onde vão estar as melhores oportunidades de investimentos no mundo dos ilíquidos. O nosso ponto forte parte do nosso posicionamento e tamanho, sobretudo tendo em conta que se tratam de mercados onde não existem cotações diárias. Como banco, a Goldman Sachs é um dos maiores investidores do mundo em mercados privados, em estratégias como real estate, infraestruturas, private equity e dívida privada”, destaca.

Tal como aconteceu nas crises de 2008 e 2012, nesta ocasião na Goldman Sachs AM registaram uma forte procura pelos seus fundos monetários, tanto em euros como em dólares. “Os clientes procuram segurança e diversificação através de produtos de grande tamanho, que lhes permitam resguardar-se em ativos seguros e esperar. Quando estamos no meio da crise é difícil ver mais além, mas se analisarmos as coisas com perspetiva podemos encontrar bons pontos de entrada”.

Neste sentido, na gestora perceberam como é que os clientes europeus e americanos se estão a mostrar-se mais moderados, enquanto na Ásia e no Médio Oriente estão a ser mais agressivos no momento de capturar as oportunidades que ficaram a descoberto nos mercados. É algo muito semelhante ao que aconteceu em 2008. Os bancos centrais atuaram rapidamente ao injetarem liquidez no sistema e isso transmitiu muita confiança”, afirma Lucía Catalán.

A seu ver, “são períodos de stress e muita volatilidade, mas para um cliente que queira construir uma carteira a longo prazo poderá ser um bom momento para investir. O que está claro é que 2020 ficará para a história como um ano que representou um novo teste de stress para as carteiras”.

Transformação do negócio

Do ponto de vista do negócio, a diretora-geral da Goldman Sachs AM para a Península Ibérica e América Latina também se mostra convencida de que a crise do coronavírus marcará um antes e um depois. “A tendência para a internacionalização de diversas fontes dentro da gestão de patrimónios vai mais além, principalmente devido às margens. Poderá englobar desde mandatos específicos até à construção de carteiras, asset allocation ou seleção de ativos. Para um banco, trata-se de uma forma muito eficiente de gerir o seu negócio.

No que diz respeito à indústria da gestão de ativos, a digitalização será, quase com toda a segurança, uma das grandes transformações que o sector vai experimentar. “Passámos de trabalhar no escritório a fazê-lo em casa em tempo record. No caso da Goldman Sachs, 98% dos empregados do grupo continuam a desempenhar as suas funções nas suas casas. Nem todas as entidades puderam fazer esta transição com tanta agilidade. O passo seguinte na transformação será ter a possibilidade de poder fazer todo o seu trabalho através dos dispositivos móveis”, vaticina.

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