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Lições sobre o boom dos fundos temáticos: a importância da narrativa


2019 está a ser um ano positivo para a indústria europeia de gestão de ativos a nível geral, com entradas líquidas entre janeiro e setembro muito próximas dos 100.000 milhões de euros. Não obstante, por detrás deste número escondem-se algumas realidades muito preocupantes para o setor. A mais relevante faz referência às tendências que se estão a verificar no segmento de ações: os investidores estão a trocar os seus fundos ativos por produtos passivos. É algo que já ocorreu nos Estados Unidos e que já deixou a distribuição patrimonial entre gestão ativa e passiva a 50% e que, na Europa onde se mantém 80-20%, está inerte.

Nos últimos 12 meses os fundos ativos de ações registaram reembolsos no valor de 115.000 milhões, segundo dados da Broadridge. É o pior dado dos últimos dez anos. O motivo estava na aversão ao risco provocada pela crise financeira, que teve o seu epicentro com a queda da Lehman Brothers. Nesta ocasião, porém, os motivos que estão por detrás da catástrofe parecem estar num cúmulo de fatores, alguns geopolíticos – o Brexit, a guerra comercial – e outros relacionados com a importância que adquiriu o custo ou os resultados gerados pela gestão ativa (fonte do gráfico Broadridge).

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Segundo Diana Mackay, diretora geral da Broadridge, isto gera algumas perguntas. Qual é o futuro das ações? O investidor pode já não estar interessado em ações? Analisando os dados, talvez se possam obter algumas respostas. As maiores saídas entre janeiro e setembro aconteceram nas categorias de ações europeias (18.000 milhões dos fundos ativos pan-europeus e 12.000 dos produtos da zona euro) e ações americanas (13.000). Estes fluxos não se viram compensados com captações registadas pelos fundos ativos de ações globais, que captaram 23.000 milhões.

Não obstante, o interessante está no facto de que, das 10 categorias de ações que mais dinheiro atraíram durante os primeiros nove meses do ano, sete são temáticas. Fundos temáticos de real estate, do meio ambiente, de água, infraestruturas... Todos registam entradas líquidas positivas este ano. Se bem que é certo que são moderadas, o facto de se estarem a registar em praticamente todas as categorias de temáticos e o facto das saídas de dinheiro se concentrarem nas estratégias core tradicionais leva a uma conclusão muito clara: “as gestoras ativas de ações têm de ser capazes de construir uma narrativa. Tudo se baseia numa boa história para contar”, afirma Mackay.

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“Nas categorias core tradicionais é mais difícil demonstrar que estão a trazer valor, o que faz com que os investidores optem por estratégias de gestão passiva. Não obstante, os fundos temáticos têm uma boa história por detrás. É algo que neste tipo de estratégias se pode fazer facilmente. Até nos fundos de ações globais mais vendidos na Europa em 2019, muitos deles têm uma história em torno deles”, indica a diretora geral da Broadridge. A proposta de investimento temático baseia-se na ideia de selecionar tendências futuras antes de serem reconhecidas por outros participantes do mercado e atribuído valor.

Para apostar nestes produtos, o investidor não só deve ter a convicção sobre o potencial disruptivo da tendência, mas também que esse potencial ainda não se reflete nas cotações. Na prática, representa ganhar exposição a empresas que, em teoria, ainda teriam aproveitado o impulso do bull-market (algo particularmente interessante após o rally vivido pelas ações na última década) e fazê-lo, além disso, através de produtos que são mais fáceis de explicar ao cliente final e que, num contexto de enfraquecimento económico, investem em negócios com expectativas de crescimento. Por isso, cada vez mais entidades estão a lançar para o mercado novas estratégias deste tipo.

“Na prática representa investir em empresas que, no geral, são menos cíclicas, mais conectadas ao crescimento e focadas na inovação e tecnologia”, sublinha André Themudo, responsável de distribuição da BlackRock para Portugal e Espanha. Segundo Beatriz Barros de Lis, diretora geral da AXA IM para Portugal e Espanha, “são produtos com muito mais flexibilidade que se estiveram focados numa área geográfica e pensados no investimento a longo prazo”.  Neste sentido, além de estar a comprar o relato que impõem os fundos temáticos, o investidor também está a assumir a tese de que são estratégias pensadas para comprar e manter em carteira.

Vimo-lo com a queda registada pelos mercados no último trimestre de 2018. Algumas gestoras perceberam como muitos investidores que tinham investido nestas temáticas conservaram-nas, “ao ter entendido que se trata de um investimento a três ou quatro anos, período ao longo do qual estas empresas refletem que beneficiam das grandes mudanças seculares que a acontecer no mundo e continuaram a fazê-lo nas próximas décadas. Trata-se de soluções que passaram a fazer parte estrutural das carteiras, o que veio consolidado nos últimos três anos”, revela Gonzalo Rengifo, diretor geral para a Península Ibérica e América Latina da Pictet AM.

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