"Julgo que o crescimento na Europa será um tema do segundo semestre deste ano"


Keith Wade considerou que a Europa necessitará uma maior integração para recuperar o crescimento, que está, no presente, a ser impulsionado pelas economias norte-americana e chinesa. Além disso, o economista chefe da Schroders referiu uma consequência futura e possível da injecção de liquidez dos anos de crise que é uma situação inflacionária que, de alguma forma, se deve prevenir.

1.  Como analisa o crescimento na Europa durante 2013, tendo em conta uma determinada perda de velocidade por parte da Alemanha?

Actualmente, os indicadores mostram que a Europa fez progressos, há sinais de crescimento apesar de se situar atrás da recuperação que se verifica nos EUA e na situação na China. Dizer-se que a Alemanha está, de alguma forma, "a perder velocidade" não é uma total condicionante dado que é o único país da Zona Euro a registar valores de subida e não de declínio. Na verdade, a Zona Euro ainda está num movimento de contracção, com países com muitos problemas (periferia da Europa) e desafiados com programas severos de austeridade como é o caso de Portugal. A Alemanha, por outro lado e mesmo com condicionantes, continua a reforçar a sua sólida posição e fortalecer a sua economia. Julgo que o crescimento na Europa será um tema do segundo semestre deste ano, muito possivelmente não será tema antes disso. Para o mesmo será necessário ver mais progressos no sistema bancário e eventualmente mais descidas da taxa de juro. Confesso que estaria mais optimista com a recuperação do crescimento na Europa se não assistíssemos a uma apreciação da moeda única o que, claramente, condiciona a competitividade dos países. Há, no entanto, que ter em conta que o mercado (especialmente falando em acções) está sujeito a uma exposição global e não exclusivamente à economia doméstica, no que refere à Europa, pelo que perante uma melhoria das condições económicas nos EUA e na China, existirão alguns empresas europeias beneficiadas dado possuírem negócios igualmente globais.

2. Considera que existirão mais cortes nas taxas de juro perante uma contínua situação de contracção na Europa?

Penso que se a Europa continuar num movimento de contracção, há probabilidade de mais cortes nas taxas de juro. No entanto, as autoridades monetárias poderão optar por algo mais controverso mas que tem consequências nas expectativas dos investidores que é darem indicações do não aumento de taxas durante um ano e isso é, de certo modo, uma estratégia de forçar as taxas a descer. Creio ainda que o Banco Central Europeu irá colocar em prática o programa de OMT ('Outright Monetary Transactions') o que constituirá mais suporte para a recuperação de alguns países, inclusivamente Portugal. Em suma, considero que os próximos movimentos das taxas de juro ainda serão no sentido de descida e não de subida. Contudo, ainda é cedo para ter uma certeza dado que a situação de apreciação do euro veio condicionar um determinado optimismo relativamente ao crescimento na Europa.

3. Quais os comentários que faz relativamente ao recente discursos do Presidente Obama no sentido de aumentar e estabelecer mais acordos comerciais com a Europa?

Na verdade, os EUA continuam a ser um motor de crescimento a nível global. De uma perspectiva comercial, esta situação será uma ajuda apesar de ser uma medida estrutural logo mais difícil de implementar no curto prazo. 

4. Considera que a China poderá crescer mais rápido do que o esperado devido a um aumento do consumo interno?

Estou positivo relativamente ao crescimento da China. Não considero que tenha existido uma "aterragem brusca" em 2012 e tão pouco este ano. As autoridades controlam bem o crescimento. No entanto, não vejo uma orientação clara nas políticas no sentido organização do consumo interno. Trata-se de um lado muito importante, no entanto são necessárias algumas reformas estruturais para que se verifique um crescimento mais efectivo na China e aliado a esse aumento do consumo doméstico. Naturalmente, numa economia como a China, são necessárias infraestruturas especialmente perante o movimento de êxodo rural que se está a verificar no país. A partir do momento em que essa população tenha mais meios e melhores condições, o consumo tenderá a aumentar.

5. Até que ponto faz sentido a "guerra de divisas" que estamos a testemunhas no presente e quais os principais impactos?

Até certo ponto esta "guerra de divisas" tem algum sentido e está visível no gráfico abaixo, onde vemos que até ao despoletar da crise financeira o iene era uma das divisas mais fracas. Com a crise assistimos à apreciação da mesma, sendo que este grande movimento tornou a moeda japonesa mais cara. No caso do euro estamos a verificar, actualmente, a sua valorização o que não é vantajoso para a recuperação da competitividade da Zona Euro.

6.  Como analisa a evolução de Portugal no programa de ajustamento económico?

Vivendo dentro da Zona Euro não há muitos caminhos possíveis para a recuperação. No entanto, Portugal tem feito aquilo que lhe tem sido pedido e, nesse sentido, recuperou de alguma forma competitividade, até mais que Espanha, nos últimos tempos. Apesar deste aumento, os indicadores positivos ainda não são suficientes para que se verificar uma inversão e se começar a verificar crescimento efectivo. O programa de ajustamento económico e as medidas de austeridade que estão a ser tomadas recaíram, talvez, mais na carga fiscal que nos cortes da despesa pública e, obviamente, terá que ser reequilibrada essa situação. O outro lado da moeda, é que essa elevada carga fiscal condiciona o investimento estrangeiro e, nesse sentido, diminui a competitividade. Ainda levará algum tempo até se verificar crescimento em Portugal.

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