João Zorro (GNB GA): “Deveremos assistir a um aumento do caso de incumprimentos e de reestruturação da dívida nos emitentes mais frágeis”


O exercício de traçar possíveis cenários para a evolução dos mercados financeiros e respetivas condições macroeconómicas não é tarefa fácil e esta em particular não o é de certeza. São inúmeras as questões sobre a evolução da atual pandemia nos próximos tempos - para quando uma vacina, a sua disponibilidade, mutações possíveis, etc.

A atual crise não tem paralelo com outra qualquer crise na medida que esta tem tido um efeito tremendo na economia mundial sendo que a previsão sobre a queda do PIB global é o que mais se aproxima do que foi o da 2ª Grande Guerra. No entanto, também diferente de outras é a expectativa que a recuperação seja relativamente rápida e centrada exatamente no decorrer do 2º semestre do presente ano.

Naquele quadro de expectativas reside o principal risco para os mercados financeiros. Na nossa opinião, uma recuperação mais rápida ou demorada será uma realidade distinta para diferentes setores de atividade. Teremos por isso uma recuperação da economia a diferentes velocidades. Identificar quais as indústrias que recuperam primeiro e quais as que deverão atrasar-se será um exercício importante e relevante na atividade da gestão de ativos, principalmente nos de ações, já que a intervenção dos bancos centrais sobre o mercado de obrigações funciona como uma rede de segurança para muitos dos emitentes de dívida. Os setores ligados ao turismo e lazer têm sido os mais afetados e por sua vez, os ligados à produção de bens essenciais e à tecnologia têm sido os menos prejudicados. No meio existem outros setores cujas valorizações têm implícita uma recuperação da atividade durante os últimos meses do ano e estes podem ser os que mais podem sofrer com um atraso no processo de “normalização” da atividade, nomeadamente os ligados à produção de bens não essenciais.

Todavia, e apesar dos riscos, o processo de recuperação da atividade está neste momento a ser amplamente apoiado pelas medidas de liquidez introduzidas pelos diversos bancos centrais e pelos programas de investimento e de apoio dados pelos Estados. A conjugação destas medidas está a ter um impacto importante na recuperação da confiança nos mercados e caso não tenhamos surpresas na evolução dos casos do COVID-19 temos um ambiente propício aos investimentos de ativos de risco. Não será, pois, de estranhar a forte recuperação que muitos mercados já tiveram.

Naquele contexto, os ativos de obrigações ligados aos emitentes de elevada classificação creditícia são os que melhor suporte técnico apresentam e podem até conviver razoavelmente bem caso a recuperação da economia se atrase. Por outro lado, deveremos assistir a um aumento do caso de incumprimentos e de reestruturação da dívida nos emitentes mais frágeis e especialmente nos setores mais expostos aos efeitos da atual crise. Mais do que nunca, escolher com cuidado as empresas onde se investe é essencial.

No que diz respeito à relação risco e retorno, pelas razões já enumeradas, os ativos que melhor desempenho deverão apresentar serão as obrigações de crédito corporativo. Nesta fase de valorização do mercado acionista, a concretização das expectativas que estão por base, torna o risco de desapontamento um fator a considerar. Por sua vez, o fator crescimento que privilegia os setores tecnológicos continuará a mascarar a diversidade de realidades nos principais índices acionistas quando os analisamos de um ponto de vista setorial mas a sua recuperação acontecerá numa fase de maior certeza sobre a visibilidade dos resultados financeiros das empresas. O tema Growth deverá continuar a ser a preferência dos investidores já que incide sobre os setores e empresas que mais beneficiarão com esta nova realidade centrada nas novas tecnologias, mas os setores/empresas denominadas por Value e mais cíclicas deverão recuperar bastante com a aceleração da recuperação económica.

Quanto à taxa de juro, elas deverão continuar baixas por todo o 2021 e possivelmente pelo menos parte de 2022 na Europa. No que diz respeito à divida pública da periferia, os vários programas de compras e os TLTRO deverão continuar a dar o suporte necessário, contrariando o efeito de aumento da oferta de nova dívida para financiar o significativo aumento dos deficits e consequente aumento da dívida pública.”

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De acordo com o responsável de Alocação de Ativos da Caixa Gestão de Ativos, num cenário de redução de medidas de contenção da COVID-19, será possível uma forte retoma da atividade nos próximos trimestres, após o que se estima ser a recessão mais severa desde a 2ª Grande Guerra.

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