Jean Pierre Grimaud (OFI AM): “O conhecimento das liabilities dos investidores é um dos pontos fortes da OFI”


“Nascida e criada” no mercado francês, a OFI Asset Management tem vindo a abrir os seus horizontes a outros mercados europeus, e Portugal não tem ficado de fora desta incursão. Numa recente visita a Lisboa, a equipa sentou-se com a Funds People Portugal para uma conversa sobre os objetivos da entidade em território nacional mas não só.

Porque para perceber a história atual da entidade há que perceber os seus primórdios, Jean Pierre Grimaud, CEO, começou por se focar na base de clientes da entidade e na sua estrutura. “No mercado francês temos uma grande base de investidores, nomeadamente investidores institucionais. A nossa base acionista seguradora é essencial para perceber a filosofia pela qual nos pautamos. Temos uma grande necessidade de perceber como se estruturam as ‘liabilities’ de cada investidor”, introduziu. Essa necessidade de compreensão remonta aos tempos em que exerceu também o cargo de portfolio manager, altura em que “nunca foi capaz de gerir dinheiro para investidores sem saber os seus passivos e responsabilidades”. É precisamente nesta convicção que assenta uma das regras basilares da entidade. “Este conhecimento das liabilities dos investidores é um dos pontos fortes da OFI. O que fazemos é exatamente tirar partido deste conhecimento, não apenas no que diz respeito aos investidores institucionais, mas também no que refere aos investidores individuais, segmento no qual nos queremos centrar mais a partir de agora”.

A segunda base de trabalho da gestora francesa – e na qual atualmente colocam ainda mais ênfase – é a sua quase génese ISR, que assenta numa “abordagem muito específica”. Segundo o que conta o CEO, a abordagem de investimento socialmente responsável da gestora começou “com uma abordagem de best in class, com um rating de companhias, e com a construção de um portefólio tendo por base esse rating, construído internamente por uma equipa de analistas ISR totalmente dedicada ao tema”. No passado, prosseguiu o profissional, o trabalho da equipa passava por atribuir um rating às empresas no que se refere ao que está para lá da situação financeira, informação que era passada ao portfolio manager. O CEO da entidade é contundente a este nível: “Esta abordagem a que chamamos de best in class tornou-se mais difícil de concretizar e também explicar. É neste sentido que a entidade opta agora por uma aproximação diferente ao tema. “Estamos a enfocar mais na parte de ‘impact investing’, alterações climáticas e ‘engagement’; este último ponto refere-se a tudo o que tem a ver com o contacto com as empresas”, explica.

Resumindo, os grandes pilares da entidade prendem-se com “a sua forte base de clientes institucionais e a sua robusta abordagem ISR”. No final do dia, diz o CEO, a OFI resume-se a um “significativo montante de ativos geridos, mesmo que pareça pequeno a uma escala global”.

Sair de portas e diferenciar-se

No atual estádio de evolução da entidade, a vontade que têm de abrir horizontes e chegar a outros mercados prende-se também com  a conjuntura vivida em França. “A concorrência no país tornou-se muito elevada e o mercado já há muito tempo que não cresce. Diria que o nível de ativos sob gestão se mantém mais ou menos estável desde há 10 anos atrás, tudo isto acompanhado pelo facto de a população estar a envelhecer. Para além disso, a taxa de poupança dos indivíduos é já muito elevada, ou seja, não há muito espaço para ficar confinado ao mercado francês”. A batalha atual que travam prende-se com a ascensão dos ETFs, e a implementação de uma filosofia de ‘impact investing’ é, na opinião da entidade, a forma de se diferenciarem. “Se não o fizermos vamos perder uma fatia de mercado”, avisa Jean Pierre Grimaud.

Portugal: mais parcerias com institucionais

A relativamente recente presença em Portugal tem a ver com “razões históricas”, mas também com o facto de terem uma relação com a seguradora Caravela, anteriormente designada por MACIF Portugal, entidade integrante de um dos grupos acionistas da OFI. São dois os segmentos de clientes nacionais nos quais centram baterias por esta altura, diz Christophe Mallet, head of international development. “Queremos centrar-nos no segmento segurador, mas também ter uma abordagem institucional aliada à pura distribuição”, explicou o responsável de negócio. Atualmente a parceria mais bem sucedida é com a seguradora referida mas estão “a tentar encontrar outros parceiros institucionais”.

Espanha e Itália são outros dois países também na mira da OFI. “Em Itália estamos prestes a assinar um contrato com um parceiro e a nossa ideia é progredir passo a passo, com uma aproximação primeiramente aos fund buyers usando isso para ir promovendo outra abordagem no segmento institucional; em Espanha queremos atingir maioritariamente o segmento de retalho, com uma forte abordagem junto dos private bankers”, detalhou.

Mas o serviço de gestão de ativos puro e duro não é a única valência da entidade. “Podemos disponibilizar uma série de serviços que vão além desta área. Para as seguradoras francesas fornecemos serviços no âmbito de Solvência II, mais concretamente o extensivo trabalho de reporte. Este tipo de tarefa constitui a nossa proposição de valor para as empresas seguradoras – não gerir apenas dinheiro, mas também estender-lhes o acesso à gama de serviços que lhes podemos oferecer”, aludiu.

Produtos ISR, mas não só

Muito embora estejam  empenhados em “surfar a onda” do ISR, na opinião de Jean Pierre Grimaud o importante nos produtos que apresentam ao mercado é que estes tenham “uma história para contar”. Focam-se por esta altura em fundos de obrigações convertíveis, fundos focados na “economia positiva” e ainda outros produtos.

Na conversa com a FP salientaram ainda o grande expertise que têm no campo de ativos do mercado privado, conhecimento esse que gostariam de trazer também para o mercado nacional. “Temos assistido a um grande crescimento de interesse por este tipo de ativos – private equity e private debt - por parte dos institucionais, por duas razões específicas: a perceção da volatilidade é mais baixa do que nos ativos cotados, especialmente nas ações. A segunda razão tem a ver com a mesma questão mas relativamente à dívida privada. Na dívida não cotada encontramos taxas mais atrativas, porque existe um prémio pela ausência de liquidez”, concluiu.

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