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Japão antecipa eleições: “o que devem esperar os investidores?”


Este verão não foi fácil para Shinzo Abe. A queda de popularidade – que tentou combater com algumas mudanças no seu gabinete – ao que se somou a crescente hostilidade da Coreia do Norte (ler mais). Para além disso, o seu partido, o PDL (Partido Democrata Liberal) sofreu uma derrota na Assembleia Metropolitana de Tóquio frente a Yuriko Koike, governador de Tóquio. Ainda que em setembro as sondagens lhe tenham devolvido os 50% de popularidade, o primeiro ministro do Japão anunciou esta semana, de forma surpreendente, a antecipação das eleições para outubro. Abe já tinha tomado esta decisão em 2014 para legitimar o seu ambicioso programa de reformas, as políticas conhecidas como Abenomics.

O Japão foi nos últimos dois anos dos poucos países desenvolvidos que não apresentaram risco político. A convocatória destas eleições não deverá romper esta tendência, segundo as fontes consultadas para a elaboração deste artigo. “A decisão de Abe de convocar para as urnas dentro de um mês parece um oportunismo político e económico bem calculado”, afirma Kwok Chern-Yeh, diretor de ações japonesas na Aberdeen Standard Investments. O especialista indica que, embora o Partido Democrático – liderado por Koike – esteja a ganhar popularidade, “não tem experiência e irá ter poucas semanas para fixar uma agenda credível”.

Em contrapartida, Chern-Yeh espera que Abe apresente na campanha “o seu novo orçamento económico focado nas reformas estruturais chave, num momento em que o consumo doméstico está a dar sinais de vida e a recuperação global está a apoiar as exportações japonesas, mesmo que o crescimento e a inflação continuem bastante débeis”. A singularidade nacional deverá também ser um fator importante na campanha, “tendo em conta o desejo manifestado por Abe de rever a constituição pacifista do Japão e um líder norte-coreano de gatilho fácil”. A vencer, uma vez mais com maioria, Abe conseguirá as garantias suficientes para aplicar uma subida do imposto sobre o consumo em 2019, “um esforço para reduzir o grande défice fiscal do Japão”, acredita o especialista.

A equipa de ações nipónicas da Goldman Sachs AM descarta “uma grande alteração nas políticas económicas e de governação corporativa do PDL”. Em vez disso esperam que “continue o bom momento para a mudança”. Adicionalmente, acreditam que uma vitória eleitoral de Abe poderá dar-lhe margem de manobra para continuar a implementar a sua política das três setas.

Tony Glover, responsável do departamento de gestão de ativos do BNP Paribas AM no Japão, também não acredita que o adiantamento das eleições seja “uma grande mudança no cenário atual”. “Ainda que não seja garantido, acreditamos que provavelmente Abe irá manter a sua maioria com a ajuda dos partidos aliados”, explica Glover. Este refere que Abe tomou esta medida “porque acha que lhe dá mais probabilidade de ganhar” pois, de outra forma, teria que convocar eleições novamente em dezembro do próximo ano.

Um bom contexto para as eleições japonesas

Ainda que a escalada de tensões geopolíticas seja um motivo de preocupação, Glover apela ao sentido crítico: “É muito difícil determinar o que irá acontecer na Coreia do Norte ou até especular o que poderá acontecer. Mas não tenho a certeza de que as ações japonesas apresentem um risco desproporcionado relativamente a outras bolsas se houver uma escalada de tensões”. Admite que os risco geopolítico poderá ter impacto sobre o yen, que recuperará a sua categoria de ativo refúgio e, portanto, se irá valorizar. “Dito isto, o yen debilitou-se desde os finais do mês passado, pelo que é difícil calibrar o que estão a colocar no mercado”, refere.

Em linhas gerais, o consenso entre as gestoras é que irá prosseguir o bom momento das ações nipónicas. Junichi Inoue, responsável de ações japonesas da Janus Henderson, afirma que de facto “uma extensão bem-sucedida do mandato de Abe poderá ser muito positiva para as ações japonesas”. Recorda neste sentido que Abe deixou claro que, se conseguir aplicar a subida do imposto do consumo, os rendimentos obtidos “serão reivindicados pela educação, em vez de reduzir na dívida pública”.

Inoue recorda que a aplicação das três setas que compõem a Abenomics (reformas estruturais, política fiscal e política monetária) desde a chegada de Abe ao poder, em dezembro de 2012, foi um êxito: a taxa de desemprego caiu até 2,8% (desde julho) e a rentabilidade e uma boa administração das empresas japonesas melhorou significativamente, com o claro reflexo nos seus ROE, nos seus dividendos e no volume de recompra de ações. Janus Henderson continua a ter uma visão positiva sobre os tipos de ativos e Inoue ressalta que, apesar das melhoras, as valorizações “em geral continuam atrativas, tanto em termos absolutos como no que respeita à sua média histórica”.

Na Goldman Sachs AM corroboram deste ponto de vista ao ressalvar “os fortes fundamentais corporativos, o potencial para um forte crescimento dos lucros, a continuação das reformas corporativas que estão a melhorar o valor para os acionistas, a recuperação da procura doméstica e umas valorizações relativamente atrativas”, assim como a recuperação das margens de lucros. A postura da gestora é que “o mercado japonês está a regressar à normalidade e está a converter-se num melhor ambiente para os investidores a longo prazo, um progresso muito positivo para um país que tem baixa reputação entre os acionistas”.

Do Capital Group, o diretor de investimento Martyn Hole recorda que o Japão tem mostrado um crescimento positivo nos últimos cinco trimestres pela primeira vez em muito tempo. Aponta mais avanços que considera positivos, como a redução da taxa de desemprego ou a melhoria do nível de participação no mercado laboral. “Isto não se traduziu numa subida salarial, mas quando esta acontecer poderemos ver uma melhoria no consumo, o que seria positivo para a economia”, esclarece. A isto acrescenta que “o nível atual do yen é bastante competitivo” e o facto dos mercados emergentes estarem a dar sinais de melhoria também beneficia o Japão.

Para terminar, Hole afirma que este mercado parece barato: “As valorizações estão em torno de um PER de 12 vezes, a rentabilidade por dividendo está a cerca de 2% e o valor contabilístico está em 1,2 vezes”. Assinala que o ROE se situa a 9% e que a expectativa da Capital Group é que “poderá alcançar facilmente 10% e a longo prazo poderá situar-se em 12%”.

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