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Indústria nacional debate o tema do research no âmbito de MiFID II


Embora em Portugal a transposição da MiFID II ainda não tenha acontecido, a indústria nacional já há muito que se questiona o que poderá estar para vir depois da implementação da diretiva europeia (prevista para 3 de janeiro de 2018). A introdução do pagamento do research implicará a reorganização de alguns modelos de negócio e, de forma a poder discuti-los, a Thomson Reuters aproveitou a entrega de prémios da Starmine aos melhores analistas de sell-side nacionais para juntar e ouvir as perspetivas de uma gestora de ativos, de uma casa de research, do representante da indústria de fundos nacional e ainda do provedor de serviços organizador da conferência.

No limbo entre a vantagem e a desvantagem

Numa mesa redonda, da qual fizeram parte a IM Gestão de Activos, o Haitong, a APFIPP, e a Thomson Reuters, foi deveras importante deixar como ponto assente a importância que a pequena dimensão do país – e consequentemente da indústria – pode ter no unbundling de determinadas atividades, como é o caso do research.

Filipe Rosa, managing director – head of equity research do Haitong Bank, começou precisamente por referir a crença de que, em termos globais, “esta medida irá beneficiar claramente os bancos grandes”. Num país pequeno como Portugal, “com poucas empresas cotadas, um reduzido número de analistas e volumes sob gestão baixos ao nível do asset management”, medidas como estas “poderão ser negativas do ponto de vista do risco para a indústria num país como o nosso, periférico”. Contudo, o especialista acredita nas duas faces da moeda e admite que “estas medidas possam significar uma oportunidade em termos da qualidade dos serviços”.

Severine Raymond-Soulier, head of Investment & advisory Continental Europe da Thomson Reuters revelou que, da sua experiência, denota que “há um nível de disparidade que já era esperado entre grandes empresas de gestão de ativos e pequenas instituições”. Refere mesmo que “algumas grandes gestoras vêm até nós para pedir RFP (requests for proposals/pedidos de propostas) para preparar as suas equipas com novas ferramentas de distribuição de research através do nosso método: Thomson Reuters Eikon”.

Do lado da indústria de fundos nacional, José Veiga Sarmento, presidente da APFIPP (Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios) também se mostrou dual em relação ao impacto do pagamento do research. “Até agora tínhamos o research de forma gratuita, e neste momento somos obrigados a colocar-lhe um preço”, introduziu, referindo que “esta clarificação exigida ao research tem aspetos positivos”. Por outro lado, e à semelhança do que já tinha sido referido por Filipe Rosa, o presidente da Associação não esquece o factor “dimensão” e aconselha o legislador a fazer o mesmo. “A forma como somos afetados por esta regulamentação é diferente da forma como são afetados os grandes operadores. Quando vemos as notícias sobre os grandes operadores a dar conta de que estes vão internalizar estes custos é difícil fazer esse mesmo raciocínio para Portugal, pois isso terá um impacto diferente na nossa indústria. No entanto, ainda temos de esperar que exista alguma clarividência por parte do regulador nacional sobre este assunto. É necessário, por isso, que o regulador tenha em conta precisamente a dimensão das entidades nacionais”.

A visão mais concreta de uma entidade de buy side que terá que se adaptar ao unbundling do research chegou do lado da IMGA, por via do testemunho de Nuno Serafim, membro do Conselho da entidade. O profissional relembrou que os custos referentes ao research já existem, em certa medida, e o que é proposto agora é uma “clarificação”. No caso da gestora pertencente ao Grupo CIMD, contou que são já assumidos “os custos por exemplo do research independente de crédito, macro ou de asset allocation”, e o desafio que se colocará com a introdução da diretiva terá que ver com a forma como se implementará “o processo de avaliação da qualidade do research, embora este seja também uma das componentes positivas da regulação”.

Do lado de quem produz o research – no caso o Haitong – Filipe Rosa colocou a tónica no facto de o “problema não estar na separação entre a execução e o research”, mas sim numa eventual “redução significativa do budget dos investidores para pagar ao broker”, por via do pretexto desta separação. A este nível tem uma certeza: “Enquanto não se chegar ao valor real do research as pessoas continuarão a desvalorizá-lo”. Nuno Serafim, por sua vez, enfatizou que na IMGA valorizam o research e “terão obviamente de investir no processo de escolha” e “até já existem algumas ideias de como é que isso poderá decorrer”.

“Mercado irá recompor-se”, mas...

As consequências elencadas para o sell-side e para o buy-side como efeito deste novo panorama também não tardaram a chegar. Filipe Rosa, “positivo por natureza”, vê como vantagem o facto de não ser necessária “uma estrutura nas equipas tão grande como a atual, porque irá existir alguma desintermediação entre o cliente final e o research”, e traça como objetivo tentarem “rentabilizar ao máximo o know how da equipa atual”. Provavelmente esse positivismo leva-o também a ser pragmático e refere: “O que não concebo é existir uma indústria de asset management sem existir research”.

José Veiga Sarmento é dos que acredita que, no fim de contas, “o mercado irá recompor-se”, apesar de todas as repercussões que estão por vir. Lembra, por exemplo, outra das consequências: “As empresas (emitentes) mais pequenas poderão deixar de ter acesso aos investidores”. Estes mesmos problemas de dimensão de mercado foram ainda destacados por Nuno Serafim, que acrescentou que ao nível do buy-side teme que a estrutura de mercado saia afetada. “Existe um conjunto de asset managers que não terá recursos para pôr em prática este tipo de avaliação do research”, finalizou.

Na mesma linha de pensamento, Severine Raymond-Soulier reiterou que “por exemplo, os pequenos gestores de ativos, que não podem necessariamente suportar o research, vão provavelmente ser cortados do circuito de research e receber menos informação”.

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