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Inconsistências na economia norte-americana


Outubro de 2018 marcou o início de um trimestre complicado nos mercados norte-americanos. Há muito tempo preocupados com o fim de um ciclo económico, os investidores ficaram nervosos com a correção do primeiro mês de outono e o sell-off foi-se acentuando até ao final do ano. Mas Anton Brender, economista chefe na Candriam, põe de lado a hipótese de uma recessão no curto-prazo e considera que, mesmo com alguns riscos que advêm da guerra comercial entre os EUA e a China, o crescimento está robusto e uma recessão é algo que não está no horizonte. Contudo, o economista vê na economia norte-americana algumas contradições que disseca numa análise detalhada.

“Primeiramente, há que perceber que o crescimento dos EUA está num nível robusto de 3%. E o que está a suportar este crescimento? O consumo das famílias. Este representa dois terços do crescimento. Por outro lado, e como podemos ver no gráfico, também as barras amarelas contribuem para um bom comportamento da economia. Estas, representam os gastos públicos. O governo tem estado efetivamente a aumentar o nível de gastos e isso tem contribuído para acelerar a economia”, introduz.

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Já no que se refere ao investimento em equipamento, o profissional da Candriam aponta para o sólido contributo, mas alerta para uma contradição: “Não tem acelerado”. “Porque enfoco na inexistência de uma aceleração? Porque se nos lembrarmos, os estímulos fiscais levados a cabo por Donald Trump tinham exatamente o objetivo de acelerar a economia, e não vemos isso acontecer.  Vemos investimento por parte das empresas. Esse investimento está  a crescer de forma robusta, mas não mais rápido. E a principal razão é simples. Por um lado, Donald Trump quis estimular o investimento reduzindo os impostos à empresas. Por outro, iniciou uma guerra comercial que gerou uma tremenda incerteza e a incerteza é a melhor forma de abrandar o investimento”, comenta ilustrando com uma metáfora: “Pisou o pedal do acelerador ao mesmo tempo que pisou o pedal do travão”.

A Fed e a curva

Já no que se refere ao papel da Fed no final de um ciclo económico na economia norte-americana, Anton Brender destaca que o trigger habitual para uma recessão é a Fed ficar para “trás da curva”. Em algum momento a Fed tem que acelerar a contração monetária e as taxas de longo prazo sobem o que “mata a recuperação”. “Acreditamos que não existe nada que se pareça a acontecer neste momento. A Fed começou efetivamente a contrair a política monetária há dois anos e essa contração tem tido os seus efeitos na economia. O que era suposto abrandar, está a abrandar”, realça o economista.

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Refere-se, por exemplo à evolução da variação da taxa a 10 anos versus a taxa a 2 anos. “Quando a política monetária contrai é normal vermos as taxas de longo prazo a subir e isso verificou-se. Subiram uns 100 pontos base nos últimos dois anos. E quando isso acontece há uma consequência inevitável: o investimento residencial tem que recuar. Se as taxas sobem, as famílias pedem menos crédito para compra de habitação, e isso está a acontecer. O crédito ao consumo também, o que implica que a compra de automóveis, por exemplo, deverá abrandar no próximo ano. Em suma, a Fed não está ‘atrás da curva’. O abrandamento está a acontecer”.

“O que faz com que toda a situação se complique são estas contradições”, comenta o economista. “As inconsistências não se limitam à relação entre a política comercial e fiscal, mas também ao facto de a Fed estar a contrair a política monetária ao mesmo tempo que uma expansão fiscal é posta em prática. E há que ter em atenção as negociações para o orçamento também. Esta têm gerado um momento de particular incerteza, mas o importante é estar atento ao que será negociado do lado dos gastos. Fora isso, estas negociações podem ser um grande evento político, mas uma solução será encontrada. No entretanto, a volatilidade será a norma”, conclui Anton.

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