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Implicações económicas e financeiras da crise na Catalunha: a opinião das gestoras internacionais


Pouco a pouco, as gestoras internacionais começam a publicar as suas primeiras avaliações sobre o impacto económico que poderá ter uma declaração clara e efetiva de independência na Catalunha sobre as finanças espanholas e da Zona Euro. Antes de iniciar a análise, da Aberdeen Standard Investments, são referidos alguns dados económicos sobre a representação catalã em Espanha: a Catalunha reúne 16% da população espanhola e gera o equivalente a 19% do PIB espanhol; para além disso, é um contribuinte líquido para o orçamento central ao contribuir em 17% para receita orçamental (aproximadamente 2,5% do PIB).

Da Aberdeen Standard Investments contestam que esta contribuição é um dos motivos que terá alimentado o sentimento independentista da Catalunha, ainda que advirtam que “qualquer tentativa de retificar o equilíbrio da contribuição catalã irá significar um choque significativo para as outras comunidades autónomas, a não ser que se desenvolva durante um período de tempo prolongado”.

Os especialistas da empresa escocesa insistem que uma declaração de independência “terá custos elevados para ambas as partes, em termos de barreiras comerciais e altos níveis de incerteza até que se estabeleça um novo regime para ambos os lados da nova fronteira, já para não mencionar o dilema fiscal que a Espanha irá enfrentar para fechar o buraco que devem os contribuintes catalães”. Também se coloca a dúvida de se a Espanha assumirá a dívida catalã em caso de independência; caso ocorra, na Aberdeen Standard Investments calculam que o endividamento governamental se incremente extraordinariamente, de 100% do PIB atual até 125%.

Para a equipa de estratégia da empresa, “é muito improvável que se consiga a independência na Catalunha, tendo em conta os incentivos políticos cíclicos e as restrições institucionais a que recorre a Constituição espanhola”. Dito isto, destacam que desde a realização do referendo, no passado dia 1 de outubro, já se produziu uma escalada significativa de tensões que tornou clara a certeza sobre a resolução final do conflito “dada a popularização e os riscos na reputação que enfrentam tanto os líderes unionistas como os separatistas”. Adicionalmente, alertam para “um alto risco de falta de cálculo político, que pode resultar numa significativa agitação política”.

Na gestora, elaboraram um quadro completo com todos os cenários que poderão estar em cima da mesa, para utilizar como bússola num contexto político que evolui com rapidez. De acordo com a equipa de estratégia de investimento, o primeiro cenário presente na tabela será o mais provável e os últimos os mais improváveis. De facto, referem que o último cenário foi incluído para dar uma visão completa, mas acreditam que será extremamente improvável, o mais instável a longo prazo e que poderia evoluir para os outros cenários presentes na lista. Esclarecem que não têm “nenhuma visão sobre que partido político tem razão ou está equivocado neste conflito” e que se limitam a analisar todas as possibilidades que podem ter impacto sobre a economia e os mercados no médio e longo prazo.

Cenário

Descrição

Etapas

Impacto

Fortalecimento autónomo

O movimento independentista catalão aumenta o seu número de apoios, mas o governo mantém a sua postura unionista

O governo catalão declara a independência unilateralmente

 

Anula-se parte das competências e direitos autónomos

 

Convocam-se eleições antecipadas na Catalunha cujo resultado representa um incremento da representação dos partidos separatistas

 

O governo de Rajoy recebe pressões nacionais e internacionais para chegar a acordo ou para formar novo governo

 

As sondagens mostram um apoio elevado à independência e mantem-se o mesmo nível de pressão iniciada em 1-0

Impacto económico: suave impacto local negativo sobre o crescimento

 

Impacto sobre o mercado: estreitamento do spread relativo aos bunds, relaxa-se o impacto do 'voo' para  qualidade das bunds

 

Rally de alívio modesto em ações, beneficiando particularmente os bancos e as empresas com negócios domésticos

Status quo

O movimento secessionista catalão retém o mesmo nível de apoio

 

O governo mantém a sua postura unionista

 

O referendo converte-se em coisa do passado

 

Nenhum partido toma mais medidas, mas Espanha permanece divida em torno da questão

Convocam-se eleições antecipadas, mas o resultado perpetua o status quo

 

Mantem-se o governo de Rajoy

 

Titulares e protestantes sossegam  

Impacto económico: suave impacto local negativo sobre o crescimento

 

Impacto de mercado: ampliação moderadas dos prémios de risco dos títulos soberanos espanhóis, um voo para a qualidade que faz com que o desempenho das bunds caia

 

Rally de alívio modesto em ações, beneficiando particularmente os bancos e as empresas com negócio doméstico

Concessão sem separação

O governo cede à pressão e continua os procedimentos necessários para alterar a constituição para permitir um referendo sobre a independência (outra opção é oferecer mais competências autónomas para desincentivar a independência)

 

A população em geral não aprova a mudança ou aprova, mas no final não se realiza o referendo ou termina com a maioria do não

O governo catalão declara a independência unilateralmente

 

Anula-se parte das competências e direitos autónomos dando lugar a protestos e agitação civil

 

O líder do PSOE altera a postura do partido para pressionar mais o governo de Rajoy ou para convocar uma Assembleia Constitucional

 

Segundo as sondagens, o referendo constitucional não será aprovado

 

Segundo as sondagens, o apoio à independência da Catalunha caiu

Impacto económico: suave impacto local negativo sobre o crescimento

 

Impacto sobre o mercado: Os spreads da dívida espanhola ampliam-se devido à incerteza, há um voo de qualidade para os ativos alemães, mas a fraqueza é mitigada pelas compras continuas de dívida espanhola pelo BCE no âmbito do seu programa PSPP

 

Possível reação negativa temporal na bolsa antes que se produza um rally de alívio que irá beneficiar os bancos e as empresas com negócio doméstico

Catalunha declara-se independente

O governo cede à pressão e continua os procedimentos necessários para alterar a constituição com vista a permitir um referendo sobre a independência

 

O referendo é aprovado e a Catalunha torna-se independente de Espanha

 

Dúvidas sobre a adesão à UE

O governo catalão declara a independência unilateralmente

 

O governo ativa o artigo 155 e desencadeia protestos massivos e agitação civil extrema

 

O líder do PSOE altera a postura do partido para pressionar mais o governo de Rajoy ou para convocar uma assembleia constituinte

 

As sondagens mostram que poderá aprovar-se a modificação da constituição para realizar o referendo ou ficar próximo da sua aprovação

 

As sondagens mostram que o apoio à independência se incrementou significativamente com o aumento da agitação social

Impacto económico: muito disruptivo. Recessão profunda na Catalunnha e desaceleração significativa no crescimento espanhol, no contexto de uma crise orçamental e relações comerciais incertas

 

Impacto sobre os mercado: forte alargamento dos spreads, possível retenção da classificação, ainda que conte com o suporte do programa PSPP

 

As ações espanholas apresentam um comportamento inferior à media do mercado, com maior prémio de risco, particularmente de bancos e empresas domésticas

Espanha controla a força e de forma indefinida

O governo ativa o artigo 155 para impor o controlo direto sobre a Catalunha indefinidamente

O governo catalão declara a independência unilateralmente

 

Anulam-se parte das competências e direitos autónomos, dando lugar a protestos e agitação civil

 

Rajoy é pressionado pelos eleitores do PP para atuar

 

O PSOE apoia o governo para que intervenha

Impacto económico: disrupção da atividade no curto prazo, desaceleração da atividade económica, com a possibilidade de um longo período de uma semi-dependência da abordagem do governo

 

Impacto sobre o mercado: o forte alargamento do spread espanhol poderá questionar o apoio contínuo da EU

 

As ações espanholas comportam-se pior que as europeias, com maior prémio de risco, principalmente para bancos e empresas domésticas

Fonte: Aberdeen Standard Investments

“Não vemos um caminho realista em direção ao Catalexit e continuamos a acreditar que o resultado final será de negociações que levarão ao incremento da autonomia da Catalunha dentro da nação espanhola”, afirma Mark Dowding, responsável da dívida com grau de investimento na BlueBay. Para Dowding, o País Basco é a referência para a resolução do conflito e espera que sejam concedidas à Catalunha competências semelhantes para assegurar a sua permanência em Espanha. “Em consequência, vemos uma oportunidade de comprar a dívida da Generalitat, a oferecer um spread de 400 pontos base”, afirma o gestor, com a teoria de que “Espanha continuará a responder pela dívida das suas comunidades autónomas”.

Implicações para a Europa

O analista Tristan Perrier refere que a previsão da Amundi para a Europa não se alterou quer pelo 1-0 ou pelo resultado das eleições alemãs: não encontra riscos sistémicos para a Zona Euro como consequência destes eventos políticos. “O risco sistémico diminuiu consideravelmente depois das eleições holandesas e francesas do primeiro semestre e continua a ser baixo num horizonte a curto prazo”, explica. À semelhança de outros especialistas consultados, na Amundi consideram que o cenário mais provável será uma solução negociada, “ainda que não possamos descartar eleições antecipadas como consequência”. Perrier constata que “a situação catalã é considerada pelos outros governos europeus como um problema doméstico espanhol”, mas alerta ao mesmo tempo que qualquer passo no caminho da independência “teria grandes implicações devido ao efeito de contágio para os países que estejam a passar por situações semelhantes”.

Perrier acrescenta que a situação catalã “não é uma ameaça direta às instituições da Zona Euro e não espera que as consequências económicas sejam massivas devido ao pequeno tamanho desta região e à ainda vigorosa recuperação em Espanha”. A sua previsão é que, no prazo de um ano, o euro seja valorizado moderadamente face ao dólar, com o apoio da forte recuperação económica da Zona Euro e as mudanças no programa de estímulos quantitativos do BCE. Não obstante, acredita que poderá esperar-se uma valorização do dólar no curto prazo dependendo das notícias que venham do outro lado do Atlântico, especialmente no que diz respeito a políticas fiscais e monetárias dos EUA.

Isabelle Vic-Philippe e Hervé Boiral, responsável de taxas e inflação e responsável de crédito europeu, respetivamente, acreditam que o spread da dívida espanhola se alargou 20 pontos base contra o bund e 10 pontos base contra o BTP italiano depois do 1-0, ainda que refiram que “o movimento foi contido tanto em magnitude como em fluxos”. Para além disso, consideram que a volatilidade gerada pela crise catalã durará pouco tempo.

Em termos de oportunidades, os especialistas afirmam que “os títulos espanhóis podem oferecer oportunidades de acordo com uma perspetiva de longo prazo, visto serem apoiados pelos fundamentos económicos, que têm vindo a melhorar”, mas consideram que “o tail risk é tão nocivo que não vemos nenhum valor nos títulos da Generalitat”.

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