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Implicações das mudanças das políticas monetárias dos bancos centrais


Os mercados nunca começam a ajustar-se quando veem a luz ao fundo do túnel, mas sim quando ainda está completamente escuro”. Esta frase é de Bruno Crastes, CEO e fundador da H2O, uma afiliada da Natixis Global AM e especializada em gestão top-down, sem restrições e com enfoque macro globais e de retorno absoluto. Crastes considera que o momento descrito corresponde com a atualidade, no que respeita o progressivo ajuste  nas políticas monetárias do mundo desenvolvido: enquando a Reserva Federal já soma dois aumentos de taxas este ano – e o mercado desconta pelo menos uma em 2017, o BCE começou, no mês passado, a alterar a sua política de comunicação para preparar os investidores para o final do seu programa de estímulos quantitativos.

A partir da análise ao sentimento do mercado (mediante o estudo dos fluxos para as classes de ativos) que incorpora a H2O no seu processo de investimento, o especialista dispõe de dados para afirmar que, tipicamente, “os investidores não vendem os seus títulos quando acreditam que vão subir as taxas de juro, mas sim quando concluem que os títulos não vão baixar mais”. Neste sentido, o BCE deixou claro na sua reunião de junho, e posteriormente no Fórum que organizou em Sintra (Portugal) que não voltaria a descer as taxas de juro. Segundo palavras do investidor, “Draghi disse aos investidores que a festa tinha acabado. Mas isto não significa que comece já a expulsar as pessoas, mas sim que comece a pôr a música mais baixa”.

Jogo de perceções

Para Crastes, a chave para poder desenvolver estratégias de retorno absoluto que geram alfa neste ambiente passa pelo jogo de perceções presente no mercado: “os mercados não são uma questão de factos, mas sim de perceção, são o resultado de um conjunto de comportamentos”.

A conclusão a que chegou a equipa da H2O é que, desde 2008, “as perceções dos investidores não têm sido livres, mas sim que têm estado limitadas; os investidores não podem fazer o que lhes diz a sua perceção porque têm obrigações a cumprir, e isto é uma grande oportunidade para aqueles que entendem”. Crastes usa como exemplo deste comportamento, os investidores que continuam a comprar títulos com taxas negativas, apesar da perceção geral do mercado indicar uma recuperação da inflação: “o ambiente atual é deflacionário e isso não é bom para os títulos. Este ajuste na mentalidade vai levar algum tempo”, afirma o especialista.

Os sucessivos regulamentos, aprovados desde 2008, também estão a ter um peso na perceção dos investidores: “as regras em torno do investimento foram feitas à volta da ideia de que o perigo número um é a deflação. Os bancos centrais salvaram o mundo em 2008 e os reguladores criaram legislação para evitar que essa crise se repita. Mas este desempenho resultou numa má alocação de ativos, já que as perceções dos investidores têm estado limitadas por uma regulação que luta contra a deflação”. Por estes motivos, o CEO da H2O afirma que “os investidores não estão completamente preparados para a inflação”.

O especialista não tem nenhum problema em afirmar que se sente pessimista com a atuação da indústria de gestão de ativos nos últimos anos: “a crise causou muitos danos à economia real, mas os investidores enriqueceram. Quem sabe agora a indústria de gestão se veja danificada pela subida da inflação, porque o mais certo é que vai haver mais inflação. É por isso que as rentabilidades estão a ser tao fracas, é uma questão de aritmética.

De facto, o especialista afirma que já se observa a queda generalizada das rentabilidades nos Estados Unidos, onde os hedge funds durante vários anos foram capazes de bater a rentabilidade do S&P 500: “vemos muito stress nos Estados Unidos. O crescimento orgânico é muito baixo, e se forem subtraídas as comissões de gestão, isto explica porque muitos gestores estão em terreno negativo”.

A má notícia é que Crastes prevê que esta situação se repita na Europa: “a zona Euro está a dirigir-se pela mesma tendência. Vamos começar a ver gestores com rentabilidades negativas no final deste ano”. A sua tese diz que, “quando o BCE iniciar a sua redução gradual, o crescimento económico vai ser negativo e isto será muito prejudicial para a reputação dos gestores”. O especialista conclui que “são momentos complicados, especialmente para o investidor final”, de agora em diante, uma correta seleção de fundos e ativos vai tornar-se fundamental para preservar as rentabilidades.

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