Ideias-chave para compreender a situação atual na Argentina


A agitação económica voltou à Argentina. Depois de se ter aplicado uma drástica subida das taxas de juro para 40%, o governo de Mauricio Macri solicitou ajuda financeira ao FMI para enfrentar a forte desvalorização do peso das últimas semanas. Como é que um país que, até há pouco tempo, foi um dos favoritos dos investidores em ativos emergentes chegou a esta situação? Passemos em revista algumas explicações.

“Durante os últimos dois meses, o peso argentino foi sobrevalorizado em termos reais, depois dos grandes fluxos de entrada de investidores estrangeiros de 2017. Estes fluxos fizeram com que a taxa de câmbio nominal tenha desvalorizado muito menos do que a inflação”, explica Claudia Calich, gestora da M&G Investments. Contudo, a gestora afirma que a deflagração da situação atual aconteceu nos finais de 2017, quando o Banco Central da Argentina (BCA) “cometeu um erro de política monetária, ao aumentar o objetivo de inflação de 2018 de 10% a 15%.”

Em janeiro, o banco reduziu as taxas, e este movimento prejudicou a sua credibilidade. A situação não ficou por aí: “Outro erro foi o anúncio de um imposto de 5% sobre os investimentos em obrigações argentinas em pesos, que teve impacto sobre os investidores locais e estrangeiros e levou a uma redução das posições nestas obrigações”. Ao acrescentar uma surpresa da inflação ascendente e o refortalecimento do dólar, o resultado foi uma forte pressão sobre o peso argentino, que obrigou a uma subida de urgência das taxas. Calich afirma que, após a implementação desta medida, “as autoridades monetárias terão sucesso ao abrandar a desvalorização da moeda daqui para a frente”.

A desvalorização do peso contribuiu para aumentar o déficit para 5% da balança corrente da Argentina, embora a gestora espere que volte a recuar à medida que moeda se dirige para a sua taxa de equilíbrio, que se encontra nos 24-26 pesos por dólar nos finais do ano. Calich espera que a economia abrande como consequência do ajuste monetário e fiscal (também foi anunciado um ajuste de 0,5% sobre o déficit orçamental), resultando numa inflação mais elevada para 2018 e 2019 e crescimento menor. A gestora conclui que a situação não parece de incumprimento, mas sim de “uma revalorização do risco argentino”.

Stéphane Monier, Diretora de Investimentos da Lombard Odier, recorda que “foi Macri quem deu luz verde ao banco central para começar a focar-se na inflação e o governo mobilizou-se para fazer o peso argentino flutuar, reduzir as ajudas na energia e transportes, acabar com muitas taxas de exportação, impor objetivos de endividamento público e reabrir o acesso argentino ao crédito externo”. O especialista indica que, de momento, a crise está a limitar-se aos erros de política monetária, sem se deslocar ao terreno fiscal, embora afirme que “os investidores precisam agora de garantias de que um conjunto de medidas se aproxima para a consolidação fiscal.” O especialista achou positivo o facto do Ministério das Finanças argentino ter anunciado no dia 4 de maio a sua intenção de estar totalmente coordenado com o banco central.

Acerca das decisões do BCA, Monier é conciso: “Os investidores observaram com incredulidade como o banco central gastou 6.900 milhões de dólares das suas reservas de moedas, num esforço para apoiar o peso, que se tornou na moeda com pior rendimento dos mercados emergentes até agora no presente ano. Isto equivale a um valor que ronda os 10% das suas reservas internacionais totais, algo obviamente insustentável”, resume. Ao mesmo tempo, o especialista acredita que a subida de taxas a 40% poderá ser suficiente, “uma vez que o peso aumentou a sua queda em mais de 10% desde a primeira intervenção do banco central, no princípio de março, o que implica uma diminuição total de 17% neste ano”.

Paul Greer, Assistant Portfolio Manager da Fidelity, foca a sua análise no recente encarecimento do dólar depois de meses de fragilidade, juntamente com a recente chegada do treasury a dez anos ao nível dos 3%, causando os investidores a voltarem a prestar atenção aos spreads de taxas e ao posicionamento. “Estes dois fatores foram altamente ignorados durante os últimos seis meses, mas continuam a estar fortemente a favor do dólar, mesmo depois do seu recente rally”, afirma.

A perspetiva da Fidelity é a de que “o dólar está preparado para subir mais”. Juntamente com as subidas de taxas da Fed, o momento mais diminuto do crescimento global e fatores sazonais, Greer constata os fluxos de saída dos emergentes, colocando as suas moedas sob pressão e causando um alargamento dos spreads. “Os emergentes não são imunes a choques externos, particularmente num contexto de subida dos custos de financiamento nos EUA, disputas sobre o comércio global e valorizações elevadas”, resume. A isto conduz “a forte deterioração orçamental em países líderes como a China e o Brasil, juntamente com insegurança eleitoral nos emergentes nos próximos meses”.

O que representa a intervenção do FMI

Edwin Gutiérrez, diretora da dívida soberana emergente na Aberdeen Standard Investments, espera que a negociação com o FMI seja produtiva, “uma vez que a Argentina tem bons tecnocratas para o mercado”. Esta negociação “deverá concretizar-se em algum tipo de linha de contingência em caso da Argentina não consiga obter acesso ao mercado”.

Paralelamente, antecipa que o FMI “provavelmente insistirá na reforma laboral, que é algo que os argentinos realmente já colocaram sobre a mesa, mas até agora progrediu pouco”, e que talvez peça “um ritmo mais rápido de consolidação fiscal para reduzir a futura emissão da Argentina, que é algo que comprometeu o mercado”.

Gregorio Saichin, diretor de investimentos global de dívida emergente da Allianz GI, recorda a imagem negativa que o FMI tem na Argentina desde o incumprimento de 2001, pelo que sugere que a petição de ajuda do governo de Macri “implica um custo político”… embora aclare que a ação não é negativa em si mesma: “Depois de ter esgotado as ferramentas de política monetária e intervenções verbais, um empréstimo de última hora pode ter impacto sobre o choque de confiança, para normalizar a situação”.

Saichin acredita que Macri dispõe de “um ano para estabilizar a situação antes que realize um segundo mandato nas eleições de 2019”. Entretanto, descarta “uma redução significativa dos déficits do regime de pensões até ao próximo ciclo presidencial (a não ser que o FMI o exija antes de lhes conceder a linha de crédito)”.

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