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Hump day!


“hump day in British, substantive, informal the middle day of the working week, usually Wednesday”

(https://www.collinsdictionary.com/pt/dictionary/english/hump-day)

Do que sei, é um termo americano, de regozijo relativamente ao avançar da semana de trabalho e que se aplica à quarta-feira para, forma “alegórica”, expressar alegria por se entrar na segunda metade da semana e, assim, melhorar a perceção de proximidade do desejado fim de semana.

Por analogia, e como mote, vou utilizar o conceito “hump day”, enquadrando-o na perspetiva anual de 2018 e na realidade dos mercados financeiros. O hump day (meio do ano), já passou; no entanto, deve o “fim do ano à vista” ser motivo de otimismo...? No balanço desta questão, procurarei identificar alguns aspetos que entendo preponderantes para o exercício de antevisão dos mercados financeiros até ao dia 31 de dezembro de 2018.

1) Que ano!

É verdade que, recolocando-nos em janeiro de 2018, e com honestidade, já esperaríamos uma subida da (historicamente baixa) volatilidade e uma tendência de aplanamento da evolução (muito) favorável (e longa) dos mercados financeiros; ainda assim, os primeiros 6 meses de 2018 foram surpreendentes, inexcedíveis e extasiantes...!

Reconheço que talvez seja uma adjetivação exacerbada pelos (maus) hábitos dos mercados financeiros, criados nos últimos anos muito por culpa da ação dos principais Bancos Centrais (BCs), como resposta, e na sequência, às crises financeiras nos E.U.A. e Europa.

Mais volatilidade, a atingir todos os segmentos de mercado, em momentos e com magnitudes diferentes, por razões transversais ou específicas e com natureza complexa e imprevisível, tornaram os primeiros 6 meses do ano “muito ricos” em termos de acontecimentos para os mercados financeiros e economias.

2) O que foi marcante para os primeiros 6 meses?

Por um lado, o espectro da natureza cíclica da evolução económica e financeira; uma inevitabilidade a pairar, com oscilações de protagonismo, em função do momento. De facto, o atual ciclo de evolução favorável de mercados (ações, risco de crédito e de taxa de juro, esmagamento dos prémios de risco, etc.) e economias, está sujeito ao esgotamento e à dura realidade cíclica, naturalmente ou, também ou apenas, pelos excessos e desequilíbrios que acabam por se acumular e revelar.

Aos fatores de incerteza mais ou menos habituais ou cíclicos, junta-se um legado de um período pós crises financeiras (Europa e EUA), marcado pela intervenção dos BCs para repor equilíbrios sistemáticos, através de políticas e ações nunca antes testadas e, reconhecidamente, com enorme impacto no passado, no presente e, certamente, no futuro próximo. Esta situação está (EUA), irá ou deverá estar (Europa) em vias de ser revertida, suscitando dúvidas e preocupações quanto às consequências.

Por último, e cumulativamente, deparamo-nos com episódios de instabilidade, de natureza variada e exógena, inéditos ou recorrentes, mas comum e transversalmente disruptivos, seja no plano comercial, político ou geo-estratégico; Brexit, Trump, Salvini, são apenas alguns exemplos dessas situações.

3) O que se espera para o resto do ano de 2018?

Resumidamente: mais do mesmo, com os riscos aumentados pela confirmação e/ou o agudizar das tendências mais preocupantes, acompanhadas pelo natural e esperado esgotamento do crescimento económico global forte e sincronizado.

Quais os maiores riscos que identificamos?

Estando, ou assumindo, que os clássicos – inflação e petróleo – estão e manter-se-ão sedados ou controlados, as atenções viram-se para:

a)  Instabilidade financeira: despoletada pela materialização dos riscos conhecidos, ou desconhecidos, acumulados ou criados, de que destacamos, paradoxalmente, os efeitos da ação dos BCs ou as disrupções nas economias emergentes (moeda, crescimento económico, alavancagem financeira), hoje mais integradas com os mercados e economias dos países desenvolvidos. Pelo potencial negativo, este é também uma variável sob o foco e acompanhamento dos BCs;

b)  Abrandamento/reversão dos estímulos monetários: terá múltiplas implicações, numa conjugação pioneira e complexa da correlação e dos efeitos sobre a realidade económica e dos mercados financeiros;

c)  Guerra Comercial: ações imprevistas e disruptivas por parte da Administração Trump, abalam ou põem em causa um caminho para o desenvolvimento e melhorias económicas globais, com raízes quase centenárias e em que os EUA foram, precisamente, os grandes percursores;

d)  Instabilidade Política: nomeadamente na Europa, onde os sistemas políticos estáveis e tradicionais, ameaçam sair do ciclo de alternância com o surgimento de pessoas ou movimentos radicalizados e fraturantes que indiciam uma relação causa-efeito onde ficam expostas as deficiências estruturantes na arquitetura da zona Euro.

4) O que fazer com as poupanças?

Apresentamos um enquadramento muito genérico, de natureza estritamente auxiliar e que não dispensa a avaliação da situação individual, com as condicionantes e o perfil de cada investidor.

a)  Tempos de mais volatilidade: sendo uma variável integrante do investimento financeiro, de forma intuitiva ou até quantitativa, o seu aumento, per si, implica um ajustamento em baixa nos riscos assumidos;

b)  Ações: tipicamente associadas à performance económica e financeira, terá, num futuro próximo, como aliás bem evidenciado pelo passado recente, uma evolução sujeita a forças contraditórias:

  1. Pela positiva: o crescimento económico global, embora com riscos de maior dessincronização, mantem-se, assim como, e em consonância, os bons resultados empresariais, num legado de estímulos monetários a nível global, ainda em campo;

  2. Pela negativa: o esgotamento do ciclo económico e dos mercados favorável, a reversão ou redução, ainda que tímida e parcial, dos estímulos monetários e os riscos idiossincráticos – políticos, geoestratégicos.

c) Risco de taxa de juro: Embora se mantenham os pressupostos para um cenário de “taxas de juro baixas por mais tempo” (alterações estruturais na inflação, tendências demográficas e alavancagem financeira), os riscos no curto e médio prazo estão enviesados para a subida.

d) Risco de crédito: O aumento da alavancagem financeira decorrente de condições financeiras favoráveis e extremas associadas ao passado recente, sugerem cautela para os segmentos de maior risco (Non Investment Grade, High Yield e Mercados Emergentes). Os riscos mais conservadores – Investment Grade – poderão estar mais resguardados, suportados pelo enquadramento económico favorável, sujeitos, no entanto, ao efeito de contágio das classes de maior risco, num enquadramento de níveis historicamente baixos de prémios de risco.

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