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Healthcare royalties: uma lacuna de financiamento que oferece oportunidades


TRIBUNA de Mike Brooks, Head of Diversified Multi-asset na Aberdeen Standard Investments. Comentário patrocinado pela Aberdeen Standard Investments.

O termo “royalty” tem séculos de existência, tendo origem na época em que as minas de ouro e prata da Grã-Bretanha pertenciam à coroa britânica. A troco de um pagamento prévio, as partes interessadas tinham o direito de escavar os metais “da realeza” (royal, em inglês). Posteriormente, o termo passou a ser utilizado por muitos outros setores, desde o gás ao petróleo, passando pela música e pelo teatro.

Atualmente, podemos pensar nos royalties (também denominados regalias ou direitos de utilização em português) como um adiantamento de um pagamento futuro, um mecanismo através do qual uma organização consegue fluxos de caixa futuros (em parte ou na totalidade) mediante um pagamento prévio. Essa geração de fluxos de caixa futuros está diretamente relacionada com a venda de um produto concreto durante um determinado período de tempo. Os royalties são uma alternativa aos métodos de financiamento tradicionais (capital e dívida), mas também estão sujeitos a condições financeiras rigorosas.

Os royalties vieram para ficar

Os healthcare royalties, ou seja, os royalties do setor da saúde, tornaram-se parte integral e permanente do setor farmacêutico desde que começaram a ser utilizados no início dos anos noventa. Antes de a sua utilização como solução de financiamento alternativo se ter generalizado, as grandes farmacêuticas financiavam internamente o desenvolvimento de medicamentos nos seus departamentos de investigação e desenvolvimento (I&D).

Com o tempo, tornou-se necessário encontrar novas modalidades de financiamento para o desenvolvimento de fármacos devido a vários fatores. Entre os principais, encontravam-se os elevados custos e níveis de risco associados ao financiamento das primeiras fases de desenvolvimento dos medicamentos. Outro fator foi o declínio da produtividade dos departamentos de I&D e a crescente complexidade associada aos resultados das investigações. A pressão para alterar o modelo também aumentou quando as patentes de certos medicamentos expiraram e a utilização de genéricos começou a comprometer as receitas.

Estima-se que, em 2002, as dez principais farmacêuticas dos Estados Unidos já recorriam à subcontratação para o desenvolvimento de cerca de 16% dos seus novos medicamentos. Em 2012, esse número aumentou para os 33%. Os royalties converteram-se numa característica permanente do setor.

Como resultado destas tendências e da necessidade constante de inovação biomédica, em 2016, 70% das vendas das grandes farmacêuticas norte-americanas correspondiam a fármacos fabricados por pequenas e médias empresas. Esta transformação das soluções de financiamento levou a que as grandes farmacêuticas recorressem à subcontratação para as suas atividades de I&D de novos medicamentos, o que é muito mais eficiente.

Necessidades de financiamento

O desenvolvimento de fármacos pode ser dividido em três grandes categorias de investigadores: empresas biofarmacêuticas de pequena e média dimensão, inventores e universidades. Ainda que cada grupo tenha uma função distinta dentro do processo de desenvolvimento de novos medicamentos, todos têm algo em comum: precisam de financiamento.

A decisão de se financiarem através de royalties pode ser a solução por várias razões. Em muitos casos, o objetivo é ter uma maior flexibilidade. Por exemplo, uma universidade pode disponibilizar royalties numa das suas patentes para financiar a construção de um novo edifício ou de instalações para trabalho de investigação. Por essa razão, os royalties representam uma ótima oportunidade para os gestores de investimentos alternativos colmatarem essa lacuna. Além disso, permitem que os investidores possam investir no setor das ciências da vida sem terem de assumir um risco muito elevado, uma vez que o pagamento de royalties está normalmente associado à vida da patente do produto em questão.

Por outro lado, quem investe em royalties tem acesso a fluxos de caixa associados a vendas efetuadas num monopólio regulado. Outra vantagem prende-se com a estrutura financeira destes instrumentos, que é semelhante à da dívida sénior garantida, o que significa que os investidores têm prioridade em caso de incumprimento.

As companhias de empréstimos especializados também podem contribuir para colmatar essa lacuna de financiamento mediante a emissão de dívida garantida por royalties. As entidades tradicionais, como os bancos, podem não ter a capacidade ou a disposição para facilitar a emissão de dívida, ao passo que a emissão de ações implica perder o controlo do negócio. As entidades de empréstimos especializados, por sua vez, podem emitir um maior volume de dívida garantida por royalties, ainda que o custo também seja mais elevado. É importante salientar que, através desta solução, o titular da patente mantém o controlo do negócio, ao mesmo tempo que ganha flexibilidade financeira.

Estes incentivos estão a gerar oportunidades de investimento interessantes no mercado dos healthcare royalties. O custo médio elevadíssimo do processo de aprovação de um novo medicamento (cerca de 2600 milhões de dólares, segundo dados do Tufts Center for the Study of Drug Development) representa outro catalisador de crescimento para este subsegmento da indústria farmacêutica. Em 2018, a FDA norte-americana aprovou um número recorde de medicamentos e a grande maioria vai precisar de financiamento adicional para a comercialização.

Outro fator de desenvolvimento está a ser a expiração, cada vez mais próxima, das patentes de vários medicamentos importantes, uma vez que as empresas estão a procurar alternativas para compensar a percentagem das vendas que será afetada pela utilização de genéricos. Segundo estimativas efetuadas por peritos no setor, as operações do mercado de healthcare royalties rondam os 14.000 milhões de dólares por ano.

Valor relativo

Atualmente, os healthcare royalties também são atrativos quando comparados com outras classes de ativos. As TIR das obrigações aproximam-se de mínimos históricos e as valorizações das ações são elevadas, o que se traduz em rentabilidades escassas.

As estratégias que investem em healthcare royalties oferecem o acesso a níveis de receita generosos e rendimentos de entre 5% e 20%, de acordo com a fase de desenvolvimento na qual se encontre o produto. Além disso, normalmente os royalties são ativos que se mantêm até ao vencimento, o que significa que a estratégia de saída dos investidores não depende dos mercados de capitais.

Historicamente, o mercado de healthcare royalties apresentou uma baixa correlação com os mercados de crédito ou de rendimento variável e, até, com o conjunto da economia. Contudo, o sucesso destes instrumentos está ligado a tendências demográficas gerais, como o envelhecimento da população, que implica um aumento das despesas de saúde.

Estima-se que a percentagem da população mundial com mais de 60 anos vá crescer cerca de 56% entre 2015 e 2030 e as vendas da indústria farmacêutica em todo o mundo aumentam a uma taxa anual composta de 6%. Por todas estas razões, os investidores institucionais podem desempenhar um papel importante e ajudar a dar resposta às necessidades médicas crescentes proporcionando o financiamento da investigação farmacêutica futura.

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