Guia para os banqueiros privados e assessores evitarem que os seus clientes persigam os mínimos do mercado


Se há uma lição a tirar destes últimos meses é a inutilidade de tentar prever a direção do mercado. Enquanto os investidores tentavam recuperar de uma das quedas mais dramáticas do último século, as ações voltavam a conseguir subidas de dois dígitos em alguns casos. De repente, a pergunta do cliente passa de "é tarde demais para vender?" para "é tarde demais para entrar?" Estas são duas perguntas válidas que são repetidas a cada correção.

“Cada vez que há quedas sentimo-nos como se nos estivéssemos a afogar. Quando acabará a tempestade? Quando poderemos recuperar o alento? Onde está a terra firme? A maneira como cada investidor responde a estas perguntas terá um forte impacto no seu património futuro”, reconhece Duncan Lamont, responsável de Investigação e Análise da Schroders.

O primeiro ponto de partida para falar com os clientes é racionalizar o que acabam de viver nos mercados. “A volatilidade e o risco de perder o capital fazem parte do preço a pagar para entrar nos mercados”, defende Lamont. Desde 1871 até 2019 um investidor no S&P 500 terá vivido várias quedas de pelo menos 25%. Até 40% em 2001 e 2008; e de até 80% no pior momento da Depressão de 1929. E é certo que o custo de se manter investido são anos de recuperação. Os investidores dos anos 30 demoraram década e meia a voltar ao mesmo ponto de partida. Mas é exceção. A realidade histórica é que em média para recuperar das perdas só precisa de dois anos ou menos.

Quanto tempo demoraram as ações norte-americanas a recuperar de quedas de 25%?

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Fonte: Robert Shiller, Schroders

 

Após ver estes números, é fácil perceber que a melhor estratégia é sair antes da correção e voltar a entrar quando acabar a incerteza. O complicado é pôr isto em prática. As gestoras falam muito atualmente sobre a humildade ser o melhor trunfo para sobreviver ao mercado. A “humildade intelectual”, como o define Howard Marks na sua última carta a investidores, é reconhecer que a economia não é uma ciência exata. Isto é, que é impossível fazer previsões. É preciso recordar que há investidores profissionais, gestores cujo trabalho a tempo inteiro é analisar o mercado. Quem melhor se não eles está preparado para vaticinar quando posicionar em liquidez? A realidade diz outra coisa. Segundo dados da Morningstar, dos 550 fundos que analisam, só 12 tinham pelo menos 10% em liquidez ao começar o ano.

Historicamente, os investidores venderam no ponto mais baixo e compraram no pico. Na Allianz Global Investors ilustram-no perfeitamente neste gráfico que compara os fluxos líquidos novos em fundos de ações face à rentabilidade do S&P 500 Total Return durante a crise de 2008.

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Ainda assim, pode-se achar melhor perdoar a primeira subida em troca de mais tranquilidade. Mas o problema do market timing é que o custo de perder os melhores dias é tremendo. Tomemos este segundo exemplo da Allianz GI. Acertar no ponto mais baixo do mercado do S&P 500 todos os anos desde 1963 ter-lhe-ia proporcionado um retorno anual de 8,06%. Mas é que, mesmo com a pior sorte de investir 100 dólares no pico do mercado todos os anos, a rentabilidade é de 7,50%. E se tivesse perdido os melhores dias? Essa rentabilidade teria caído para -1,25%.

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Em tempos tão emocionais quanto o atual, é normal centrarmo-nos na última hora e nas notícias do dia, mas investir com base nos dados mais recentes do PIB não é investir a longo prazo. Para Philip May, diretor de soluções de rendimentos de reforma do Capital Group, o melhor conselho é manter a disciplina. "Com o tempo, os mercados recuperaram sempre no passado e também têm potencial para fazê-lo após esta crise", argumenta. "Com os mercados em queda, as contribuições regulares para o investimento compram mais ações ou obrigações por cada unidade monetária, por isso é aconselhável não suspender as contribuições, a menos que seja realmente necessário. Alterar as contribuições em resposta à volatilidade de curto prazo no mercado representa o risco de não aproveitar o potencial de crescimento de longo prazo.Os mercados sobreviveram a uma Guerra Mundial, aos mísseis em Cuba, a uma queda de mercado de ações pior do que a atual, bolhas em sectores como a tecnologia (atualmente um sector tão amado), a uma crise financeira ... e sobreviveram.

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Fonte: Morningstar

Outro argumento chave é que devemos distinguir o tipo de crise em que estamos. Mais do que remontarmos à Grande Crise Financeira de 2008-2009, Aditya Khowala, gestor da Fidelity International, fixa-se nas lições da pandemia de gripe de 1918-1919. “Nessa altura, a recessão durou apenas sete meses, apesar de a segunda vaga de infeções no outono de 1918 ter sido mais mortífera do que a primeira”, recorda o especialista. É útil comparar as magnitudes de crises anteriores porque como mostra o gráfico que partilha Khowala, não tem o mesmo impacto uma crise estrutural do que cíclica. As quedas nos mercados provocadas por eventos como este cisne negro que estamos a viver são as que menos meses duram em média (as duas colunas da direita, event driven). E até no pior dos casos, que desta vez seja diferente, a média de tempo para recuperar da pior situação de são 9,5 anos.

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